Este Blog tem a finalidade de divulgar estudos e aprendi, tendo por prisma de visão Allan Kardec.

 Dia nascendo e a noite chegando…

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O dia sentou-se na soleira da tarde pra namorar a noite,

Mas, atrevido tinha os olhos nas estrelas, encantou-se com o brilho delas

E o tempo de namoro era tão rápido como sua própria vida

E ele dividido entre o calor do sol e o pisca – pisca das estrelas, e

Um gosto de brisa que brincava em sua mente, rimou

Lua e estrelas no meio da rua e esqueceu de si num acorde noturno!

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E como sempre se repetia, dormiu na soleira e despertou somente na manhã seguinte

E enquanto dormia, sonhava, que corria das estrelas e beijava a lua

E no vai e vem de todos os brilhos parecia filho na barriga da mãe

E então, feto do próprio renascimento, no dorso de estrelas descia o firmamento

Como num carrinho de rolimãs em desabalada carreira

Já no colo da madrugada!

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E vinha feliz no lusco fusco do sol, que perdia as estrelas e nem percebia

E quando dava por si, já era ele mesmo a cavalo da luz do astro maior

Embrenhava-se pelas florestas e acalentava as flores, punha cores em suas pétalas

Mornava as águas dos rios despertando os peixes e esvoaçava borboletas

Para espalhar levezas e perfumes e ainda fazia dormir os vagalumes

Era mesmo um moleque correndo pelas savanas, cheirando rosas e comendo bananas!

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E o dia no dorso do sol esquecia a lua porque queria brilhar, iluminar, fecundar e colher

E também correr, aliás o dia tem feito muita correria, deixando os relógios cansados

Mal via as horas rolando nos sinos das igrejas e nos ponteiros sacrais

Ele só não podia ficar nublado se não chegava zangado feito vovô cansado

E quando era assim ele caminhava lento como se lhe pesasse o tempo na cacunda

 Ao meio de si mesmo o dia levantava o sol ou o via por detrás de nuvens escondido

É quando de si o dia vivia escondido como se tivesse ciúmes da luz que a nuvem escondia

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Mas, o sol, como as matas e águas, flores e aves, animais e homens

São todos filhos de Deus que repete as vidas de acordo com as necessidades de cada um.

E o dia, filho da luz sabia da ambiguidade, vontade do Criador

De dia ele era veloz e a noite todo amor

O sol refulgente nos trópicos e a lua nova e crescente

Quando o sol se afastava da Terra a luz cheia e minguante

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Assim a natureza tão bela e grata, obediente e criadora

Grávida nas estações do tempo

Parindo gente, frutos, pássaros e animais

Levando a luz no ventre acendendo amor e paz!

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Ademário da Silva

22 de maio de 2020.

 CAPÍTULO II

LIVRO DOS MÉDIUNS  // ALLAN KARDEC.

MANIFESTAÇÕES FÍSICAS E MESAS GIRANTES

60. *Chamam-se manifestações físicas as que se traduzem por efeitos sensíveis, como os ruídos, o movimento e a deslocação de corpos sólidos. Umas são espontâneas, independentes da vontade humana, e outras podem ser provocadas. Trataremos inicialmente apenas das últimas. *

O efeito mais simples, e um dos primeiros a serem observados, foi o do movimento circular numa mesa. Esse efeito se produz igualmente em qualquer outro objeto.

*Mas sendo a mesa o mais empregado, por ser o mais cômodo, o nome de mesas girantes prevaleceu na designação desta espécie de fenômenos.*

Quando dizemos que este efeito foi um dos primeiros a serem observados, referimo-nos aos últimos tempos, pois é certo que todos os gêneros de manifestações são conhecidos desde os tempos mais distantes, e nem podia ser de outra maneira. Desde que são efeitos naturais, teriam de produzir-se em todas as épocas.

 Tertuliano refere-se de maneira clara às mesas girantes e falantes. (1)

(1) Tertuliano, famoso doutor da Igreja, nascido em Cartago, considerado grande apologista, mas que acabou caindo em heresia, depois de havê-las condenado ardentemente. Viveu entre 160 a 240 da nossa época. (N. do T.)

*Este fenômeno entreteve durante algum tempo a curiosidade dos salões, que depois se cansaram e passaram a outras distrações, porque servia apenas nesse sentido. Dois foram os motivos do abandono das mesas girantes: para os frívolos, a moda, que raramente lhes permite o mesmo divertimento em dois invernos, e que prodigiosamente lhe dedicaram três ou quatro! Para as pessoas sérias e observadoras foi um motivo sério: abandonaram as mesas girantes para ocupar-se das consequências muito mais importantes que delas resultavam. Deixaram o aprendizado do alfabeto pela Ciência, eis todo o segredo desse aparente abandono, de que fazem tanto barulho os zombadores.*

*Seja como for, as mesas girantes não deixam de ser o ponto de partida da Doutrina Espírita e por isso devemos tratá-las com maior desenvolvimento.*

E tanto mais quanto apresentando esses fenômenos na sua simplicidade, o estudo das causas será mais fácil e a teoria, uma vez estabelecida, nos dará a chave dos efeitos mais complicados.

61. *Para a produção do fenômeno é necessária a participação de uma ou muitas pessoas dotadas de aptidão especial e designadas pelo nome de médiuns.*

O número dos participantes é indiferente, a menos que entre eles se encontrem alguns médiuns ainda ignorados.

*Quanto às pessoas cuja mediunidade é nula, sua presença não dá qualquer resultado, podendo mesmo ser mais prejudicial do que útil, pela disposição de espírito com que frequentemente se apresentam.*

*A observação de Kardec sobre as pessoas “cuja mediunidade é nula” se explica pela referência final à “disposição de Espírito” com que participam. Mesmo pessoas sem essa mediunidade específica, mas sinceras e convictas, podem participar de experiências, como adiante se verá. O que torna as pessoas negativas são as vibrações negativas do seu pensamento, que afeiam prejudicialmente a reunião. (N. do T.)*

*Os médiuns gozam de maior ou menor poder na produção dos fenômenos, produzindo efeitos mais ou menos pronunciados. Um médium possante quase sempre produz muito mais do que vinte outros reunidos, bastando pôr as mãos na mesa para que ela no mesmo instante se movimente, se eleve, revire, salte ou gire com violência.*

62.* Não há nenhum indício da faculdade mediúnica e somente a experiência pode revelá-la. Quando se quer fazer uma experiência, numa reunião, basta simplesmente sentar-se em torno de uma mesa e colocar as mãos espalmadas sobre ela, sem pressão nem contenção muscular.*

No princípio, como as causas do fenômeno eram ignoradas, indicavam-se numerosas precauções, depois reconhecidas como inúteis. Por exemplo: a alternância de sexos, o contato dos dedos mínimos das pessoas para formar uma cadeia ininterrupta. Esta última precaução parecia necessária porque se acreditava na ação de uma espécie de corrente elétrica, mas a experiência mostrou a sua inutilidade.

*A única prescrição realmente obrigatória é a do recolhimento, do silêncio absoluto, e, sobretudo a paciência, quando o efeito demora. Pode acontecer que ele se produza em alguns minutos, como pode tardar meia hora ou uma hora. Isso depende da capacidade mediúnica dos participantes.*

63.* Acrescentamos que a forma da mesa, o material de que é feita, a presença de metais, da seda nas vestes dos assistentes, os dias, as horas, a obscuridade, a luz, etc., são tão indiferentes como a chuva e o bom tempo. Só o peso da mesa pode ter alguma importância, mas apenas nos casos em que a potência mediúnica não seja suficiente para movê-la. Noutros casos, basta uma pessoa, até mesmo uma criança, para erguer uma mesa de cem quilos, enquanto em condições menos favoráveis doze pessoas não fariam mover-se uma mesinha de centro.*

(3) A expressão francesa é guérídon, que corresponde a uma mesinha antiga de centro, redonda, com uma perna central única e três pés na ponta. (N. do T.)

Assim preparada a experiência, quando o efeito começa a produzir-se é muito frequente ouvir-se um pequeno estalo na mesa, sente-se um estremecimento como prelúdio do movimento, a mesa parece lutar para se desamarrar, depois o movimento de rotação se inicia e se acelera a tal ponto que os assistentes se veem em apuros para segui-lo.

Desencadeado assim o movimento, pode-se mesmo deixar a mesa livre que ela continua a mover-se sem contato em várias direções.

De outras vezes a mesa se ergue e se firma, ora num pé, ora noutro, e depois retoma suavemente sua posição natural. De outras, ainda, ela se balança para frente e para trás e de um lado para outro, imitando o balanço de um navio. E de outras, por fim, mas sendo necessária para isso considerável potência mediúnica, ela se levanta inteiramente do soalho e se mantém em equilíbrio no espaço, sem qualquer apoio, chegando mesmo em certas ocasiões até o forro, de maneira que se pode passar por baixo; a seguir desce lentamente, balançando-se no ar como uma folha de papel, ou cai violentamente e se quebra. Isso prova, de maneira evidente, que não houve uma ilusão de ótica.

64. Outro fenômeno que se produz com muita frequência, conforme a natureza do médium é o das pancadas no cerne da madeira, no seu interior, sem provocar qualquer movimento da mesa. Esses golpes, que às vezes são bem fracos e outros muito fortes, estendem-se a outros móveis do aposento, às portas, às paredes e ao forro. Voltaremos logo a este caso. Quando se produzem na mesa, provocam uma vibração que se percebe muito bem pelos dedos e que se torna, sobretudo, muito distinta se aplicarmos o ouvido contra a mesa.

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Livro dos Médiuns // Allan Kardec

 

AÇÀO DOS ESPÍRITOS SOBRE A MATÉRIA = I

SEGUNDA PARTE

Das Manifestações Espíritas

CAPÍTULO l

AÇÀO DOS ESPÍRITOS SOBRE A MATÉRIA

*52. Excluída a interpretação materialista, ao mesmo tempo rejeitada pela razão e pelos fatos, resta apenas saber se a alma, após a morte, pode manifestar-se aos vivos.*

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*Assim reduzida à sua mais simples expressão, torna-se a questão bastante fácil. Poderíamos perguntar primeiro, por que motivo os seres inteligentes, que de alguma maneira vivem entre nós, embora naturalmente invisíveis, não poderiam demonstrar-nos a sua presença por algum meio? O simples raciocínio mostra que isto nada tem de impossível, o que já é alguma coisa. Essa crença, aliás, tem a seu favor a aceitação de todos os povos, pois a encontramos em toda parte e em todas as épocas. Ora, uma intuição não poderia ser tão generalizada, nem sobreviver através dos tempos, sem ter alguma razão. Ela é ainda sancionada pelo testemunho dos livros sagrados e dos Pais da Igreja, e foi necessário o ceticismo e o materialismo do nosso século para relegá-la ao campo das superstições. Se estamos, pois, em erro, essas autoridades também estão.*

*Mas estas são apenas considerações lógicas. Uma causa, acima de tudo, contribui para fortalecer a dúvida, numa época tão positiva como a nossa, em que tudo se quer conhecer, onde se quer saber o porquê e o como de todas as coisas: a ignorância da natureza dos Espíritos e dos meios pelos quais podem manifestar-se. Conquistado esse conhecimento, o fato das manifestações nada apresenta de surpreendente e entra na ordem dos fatos naturais.*

*53. A ideia que geralmente se faz dos Espíritos torna a princípio incompreensível o fenômeno das manifestações. Elas não podem ocorrer sem a ação do Espírito sobre a matéria. Por isso, os que consideram o Espírito completamente desprovido de matéria perguntam, com aparente razão, como pode ele agir materialmente. E nisso precisamente está o erro. Porque o Espírito não é uma abstração, mas um ser definido, limitado e circunscrito. O Espírito encarnado é a alma do corpo; quando o deixa pela morte, não sai desprovido de qualquer envoltório. Todos eles nos dizem que conservam a forma humana e, com efeito, quando nos aparecem, é sob essa forma que os reconhecemos.*

*Observamo-los atentamente no momento em que acabavam de deixar a vida. Acham-se perturbados; tudo para eles é confuso; veem o próprio corpo perfeito ou mutilado, segundo o gênero de morte; por outro lado, veem a si mesmo e se sentem vivos. Alguma coisa lhes diz que aquele corpo lhes pertencia e não compreendem como possam estar separados. Continuam a se ver em sua forma anterior, e essa visão provoca em alguns, durante certo tempo, uma estranha ilusão: julgam-se ainda vivos.*

*Falta-lhes a experiência desse novo estado para se convencerem da realidade.*

*Dissipando-se esse primeiro momento de perturbação, o corpo lhes aparece como velha roupa de que se despiram e que não querem mais. Sentem-se mais leves e como livres de um fardo. Não sofrem mais as dores físicas e são felizes de poderem elevar-se e transpor o espaço, como faziam muitas vezes em vida nos seus sonhos. Ao mesmo tempo, apesar da falta do corpo constatam a inteireza da personalidade: têm uma forma que não os constrange nem os embaraça e têm consciência do eu, da individualidade. Que devemos concluir disso? Que a alma não deixa tudo no túmulo, mas leva com ela alguma coisa.*

 

*Quem se reportar ao que dissemos em O Livro dos Espíritos sobre os sonhos e o estado do Espírito durante o sono (n.º 400 a 418), compreenderá que os sonhos que quase todos têm, vendo-se transportados através do espaço e como que voando, são a lembrança da sensação do Espírito durante o seu desprendimento do corpo, levando o corpo fluídico, o mesmo que conservará após a morte. Esses sonhos podem pois nos dar a  ideia do estado do Espírito quando se desembaraçar dos entraves que o retêm na Terra. (Nota de Kardec).*

 

  1. Numerosas observações e fatos irrecusáveis, de que trataremos mais tarde, demonstraram a existência no homem de três componentes:

 

*(1°) a alma ou Espírito, princípio inteligente em que se encontra o senso moral;*

 

*(2°) o corpo, invólucro material e grosseiro de que é revestido temporariamente para o cumprimento de alguns desígnios providenciais;*

 

*(3°) o perispírito, invólucro fluídico, semimaterial, que serve de liame entre a alma e o corpo.*

 

*A morte é a destruição, ou melhor, a desagregação do envoltório grosseiro que a alma abandona. O outro envoltório desprende-se e vai com a alma, que dessa maneira tem sempre um instrumento. Este último, embora fluídico, etéreo, vaporoso, invisível, para nós em seu estado normal, é também material, apesar de não termos, até o presente, podido captá-lo e submetê-lo à análise.

Este segundo envoltório da alma ou perispírito existe, portanto, na própria vida corpórea. É o intermediário de todas as sensações que o Espírito percebe, e através do qual o Espírito transmite a sua vontade ao exterior, agindo sobre os órgãos do corpo. Para nos servirmos de uma comparação material, é o fio elétrico condutor que serve para a recepção e a transmissão do pensamento.*

 

É, enfim, esse agente misterioso, inapreensível, chamado fluido nervoso, que desempenha tão importante papel na economia orgânica e que ainda não se considera suficientemente nos fenômenos fisiológicos e patológicos. A Medicina, considerando apenas o elemento material ponderável, priva-se do conhecimento de uma causa permanente de ação, na apreciação dos fatos. Mas não é aqui o lugar de examinar essa questão; *lembraremos somente que o conhecimento do perispírito é a chave de uma infinidade de problemas até agora inexplicáveis.*

 O desenvolvimento da Psicoterapêutica, e mais recentemente da Medicina psicossomática, confirmam o acerto de Kardec nesta observação. (N. do T.)

O perispírito não é uma dessas hipóteses a que se recorre nas ciências para explicação de um fato. Sua existência não foi somente revelada pelos Espíritos, pois resulta também de observações, como teremos ocasião de demonstrar.

 

*Por agora, e para não antecipar questões que teremos de tratar, nos limitaremos a dizer que, seja durante a sua união com o corpo ou após a separação, a alma jamais se separa do seu perispírito.*

*55. Já se disse que o Espírito é uma flama, uma centelha.(3) Isto se aplica ao Espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, ao qual não saberíamos dar uma forma determinada. Mas, em qualquer de seus graus, ele está sempre revestido de um invólucro ou perispírito, cuja natureza se eteriza à medida que ele se purifica e se eleva na hierarquia. Dessa maneira, a ideia de forma é para nós inseparável da ideia de Espírito, a ponto de não concebermos este sem aquela. O perispírito, portanto, faz parte integrante do espírito, como o corpo faz parte integrante do homem. Mas o perispírito sozinho não é o homem, pois o perispírito não pensa. Ele é para o Espírito o que o corpo é para o Homem: o agente ou instrumento de sua atividade.*

(3) Livro dos Espíritos, n° 88. Respondendo a uma pergunta de Kardec sobre a forma dos Espíritos, os seus instrutores espirituais disseram: *“Eles são, se o quiserdes, uma flama, um clarão ou uma centelha etérea.” (N. do T.)*

*56. A forma do perispírito é a forma humana, e quando ele nos aparece é geralmente a mesma sob a qual conhecemos o espírito na vida física. Poderíamos crer, por isso, que o perispírito, desligado de todas as partes do corpo, se modela de alguma maneira sobre ele e lhe conserva a forma. Mas não parece ser assim. A forma humana, com algumas diferenças de detalhes e as modificações orgânicas exigidas pelo meio em que o ser tem de viver, é a mesma em todos os globos. É pelo menos, o que dizem os Espíritos. E é também a forma de todos os Espíritos não encarnados, que só possuem o perispírito. A mesma sob a qual em todos os tempos foram representados os anjos ou Espíritos puros. De onde devemos concluir que a forma humana é a forma típica de todos os seres humanos, em qualquer grau a que pertençam.*

*Mas a matéria sutil do perispírito não tem a persistência e a rigidez da matéria compacta do corpo. Ela é, se assim podemos dizer, flexível e expansível. Por isso, a forma que ela toma, mesmo que decalcada do corpo, não é absoluta. Ela se molda à vontade do espírito, que pode lhe dar a aparência que quiser, enquanto o invólucro material lhe ofereceria uma resistência invencível.*

*Desembaraçado do corpo que o comprimia, o perispírito se distende ou se contrai, se transforma, em uma palavra: presta-se a todas as modificações, segundo a vontade que o dirige. É graças a essa propriedade do seu invólucro fluídico que o Espírito pode fazer-se reconhecer, quando necessário, tomando exatamente a aparência que tinha na vida física, e até mesmo com os defeitos que possam servir de sinais para o reconhecimento. Os Espíritos, portanto, são seres semelhantes a nós, formando ao nosso redor toda uma população que é invisível no seu estado normal.*

 

E dizemos no estado normal porque, como veremos essa invisibilidade não é absoluta.

 

*57. Voltemos a tratar da natureza do perispírito, que é essencial para a explicação que devemos dar. Dissemos que, embora fluídico, ele se constitui de uma espécie de matéria, e isso resulta dos casos de aparições tangíveis, aos quais voltaremos. Sob a influência de certos médiuns, verificou-se a aparição de mãos, com todas as propriedades das mãos vivas, dotadas de calor, podendo ser apalpadas, oferecendo a resistência dos corpos sólidos, e que de repente se esvaneciam como sombras. A ação inteligente dessas mãos, que evidentemente obedecem a uma vontade ao executar certos movimentos, até mesmo ao tocar músicas num instrumento, prova que elas são parte visível de um ser inteligente invisível. Sua tangibilidade, sua temperatura, a impressão sensorial que produzem, chegando mesmo a deixar marcas na pele, a dar pancadas dolorosas, a acariciar delicadamente, provam que são materialmente constituídas. Sua desaparição instantânea prova, entretanto, que essa matéria é extremamente sutil e se comporta como algumas substâncias que podem, alternativamente, passar do estado sólido ao fluídico e vice-versa.*

 

*58. A natureza íntima do Espírito propriamente dito, ou seja, do ser pensante, é para nós inteiramente desconhecida. Ele se revela a nós pelos seus atos, e esses atos só podem tocar os nossos sentidos por um intermediário material. O Espírito precisa, pois, de matéria, para agir sobre a matéria. Seu instrumento direto é o perispírito, como o do homem é o corpo. O perispírito, como acabamos de ver, constitui-se de matéria. Vem a seguir o fluido universal, agente intermediário, espécie de veículo sobre o qual ele age como nós agimos sobre o ar para obter certos efeitos através da dilatação, da compressão, da propulsão ou das vibrações.*

 

*Assim considerada, a ação do Espírito sobre a matéria é fácil de admitir-se. Compreende-se então que os efeitos pertencem à ordem dos fatos naturais e nada têm de maravilhoso. Só pareciam sobrenaturais porque sua causa era desconhecida.*

 

*Desde que a conhecemos, o maravilhoso desaparece, pois a causa se encontra inteiramente nas propriedades semimateriais do perispírito.*

 

Trata-se de uma nova ordem de coisas, que novas leis vêm explicar. Dentro em pouco ninguém mais se espantará com esses fatos, como ninguém hoje se espanta de poder comunicar-se à distância, em apenas alguns minutos, por meio da eletricidade.

 

*59. Talvez se pergunte como pode o Espírito, com a ajuda de uma matéria tão sutil, agir sobre corpos pesados e compactos, erguer mesas etc. Certamente não será um homem de ciências que fará essa objeção, porque, sem falar das propriedades desconhecidas que esse novo agente pode ter, não vimos com os próprios olhos exemplos semelhantes? Não é nos gases mais rarefeitos, nos fluidos imponderáveis, que a indústria encontra as mais poderosas forças motrizes? Quando vemos o ar derrubar edifícios, o vapor arrastar massas enormes, a pólvora gaseificada elevar rochedos, a eletricidade despedaçar árvores e perfurar muralhas, que há de estranho em admitir que o Espírito, servindo-se do perispírito, possa erguer uma mesa, sobretudo quando se sabe que esse perispírito pode tornar-se visível, tangível e comportar-se como um corpo sólido?* 

Allan Kardec.

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Ademário da Silva

19 de agosto de 2018.

Transição…

A luz… amor da transição…

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A luz já não me assusta, minha alma degusta os seus favores

Licores que me embriagam, sabores universais

E ante os rumores de muitas dores, as suas flores então me perfumam

Confuso momento, indescrito tormento que emborralha a vida

Eis o que é esse tom, que sem ser maior e também sem ser menor

É o tal caminho do meio em que a alma não se afoga

Roga como quem, no calor de um vulcão, coração pra não se perder

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A semente se abre bem no colo do escuro pra derrubar todo muro que se põe no caminho

Rasgando a terra se lança livre e indefesa no meio da mesa do tempo a procura da luz

Inverno e outono insistem no sono, primavera e verão, colorida emoção

A dor no trato da pedra e a friagem que enregela, não pode se deter

Sofrer é lição que acrescenta luz e apascenta a alma indócil

O tempo, mestre em silêncio oferece paciência ao relento

E depois de tantas estações a luz floresce e frutifica no alto ou palafita, a Deus não importa

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 O lírio vive no lodo, na areia o cacto, mas a luz tem a consciência como berço

O amor é o coração da alma em movimento, enfrenta o desgaste, a decepção e o desencanto, mas não se demora em pranto, quem para perde o ponto da evolução

Agora que a dor já te espreita refaça a medida da receita na pura reflexão

Contenha-se a si mesmo, deixe de andar a esmo, apure o sentido, o endereço e o ouvido

Todo prazer, do lado de fora, é pura quimera, o medo é a ansiedade de quem não se conhece

Olhe pra si mesmo com o encanto que a vida oferece, se reconheça, que o tempo não será mais um tormento

Há um momento, olha o seu eu, veja a vida que Deus lhe deu…

Alma imortal, a morte não lhe quer, pulsa como luz em outra dimensão

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Tira de si, os atavios, dores e ilusões, sombras e borrões, que é hora de abandonar o seu casulo

A vida nesta Terra é mesmo uma passagem, viagem de tempo marcado, aprenda o que a dor lhe ensina

Tempo de mudança, requer maturidade, saia da adolescência, mas não esqueça a criança em sua pureza, a nobreza é a identidade da alma

Sinta que a luz não dói, o amor não rasga e nem compromete quando cada um sabe de si

O nosso coração um filamento, não importa o momento, aceso no fogo do conhecimento, instrumento da alma no refazimento

Sombras, vulcões e tempestades são forças da natureza pra modificar recursos

No curso de todos os tempos, as dores, abandonos e sofrimentos são gritos do amor em confinamento, a cata dos corações desatentos

Tal é esse nosso momento, que não vai ser o que era, se não uma nova primavera

Que pede a vida e a nossa conduta, novas flores, novos frutos, abandono ao luto que a alma não morre

Neste momento de transição, só o amor socorre!

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Acenda a luz, estenda a mão, ofereça o coração aos viandantes

Ame antes que a dor te obrigue!

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Ademário da Silva

10 de maio de 2020.

confuso

*Pequenas palavras minhas… As amigas e amigos que as reencarnações nos encaminham…*

Estudando o Livro dos Médiuns…

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Nós vamos observar no estudo da Doutrina Espírita, e neste caso o livro dos Médiuns, que devemos obedecer a todo um processo de aprendizado, assim como aprendizes na alfabetização ordinária.

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Imaginemos Kardec na sala de aula ensinando-nos a escrever e a ler, as duas ferramentas básicas do aprendizado. E como aluno, lembramos nossa curiosidade na construção das palavras, observando atentos ao sobe e desce do lápis desenhando os caracteres (Oh!!!- influência da informática) e felizes quando víamos nossos a,e,i,o,us surgindo de dentro do grafite, e nossas mãos apoiadas nas mãos da professora.

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E a contagem silábica nos exercícios de leitura, a formação das palavras em nosso cérebro; e quando descobríamos o significado das palavras que eram como forasteiras invadindo nossa casa mental, nossos pensamentos…

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E nas provas orais de leitura diante da classe, além da tremedeira natural, a vontade imensa de desvendar os segredos da leitura, da gramática, da aritmética e depois vieram verbos, equações, história, geografia, ciências e até outros idiomas…

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E é dessa maneira que vamos construindo nosso entendimento mediúnico, folheando e lendo página á página o livro dos médiuns… E como todo aluno, fazendo as perguntas necessárias á assimilação do conteúdo segundo o entendimento de cada um…

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Assim da construção das palavras, das tabuadas, provas dos noves e regras de três, conjugação dos verbos e então fizemos a base da nossa capacidade interpretativa…

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Em se tratando de Doutrina Espírita o processo é o mesmo, guardado é claro, nossa percepção numa amplitude maior, que nos remete á um relacionamento interdimensional.

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Então, cada leitura, cada diálogo, cada reflexão serão as ferramentas que nos levaram á liberdade do entendimento na formação do nosso conhecimento.

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E muito nos importa esse conhecimento no passo á passo da didática Kardequiana, vejamos: introdução ao estudo do livro dos médiuns; a existência dos espíritos e assim sucessivamente…

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A introdução nos leva a saber o terreno que tatear, primeiro preparo ao entendimento, assim como primeiras palavras, o abrir das cortinas…

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A existência dos espíritos é matéria que descortina nossa curiosidade nos primeiros passos das descobertas.

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Saber com plenitude o que somos no contexto do aprendizado, pois, somos nós os espíritos que vamos descobrir, além de todas as relações de afinidade, as antagônicas e também comprometimentos que dão cores a nossa mediunidade.

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Que todos saibamos aproveitar até com certa sofreguidão, tão valiosa oportunidade, principalmente por sermos amigos e amigas de longevos tempos e vidas, o que confere na verdade, responsabilidade em nosso trato amistoso, mas também a obrigação moral de reescrevermos as tonalidades e cores esse aprendizado tão importante e necessário á nossa evolução.

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Haja vista que ontem juntamos terra na formação do nosso canteiro de luz, hoje, quais jardineiros e lavradores do tempo, temos que acender essas luzes na estrada evolutiva…

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E sementes extremamente nutritivas e saudáveis e de diversificada riqueza qualitativa de aplicação nas necessidades de desenvolvimento da alma, no que concerne a saúde existencial, moral e psicológica ao nível das nossas andanças na esteira da imortalidade e pelas poeiras do universo.

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Estudar o Livro dos Médiuns é descobrir a fisiologia da relação espírito e matéria num prisma exaurido pelos efeitos das reencarnações. É descobrirmos que a mediunidade não é simples ferramenta de contato com outras esferas existenciais, mas é como sentarmos, vestidos de sensibilidade mediúnica no divã da imortalidade.

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 Não é só a relação com espíritos protetores, tutores, instrutores, artistas de intrincada gama de criações, poetas e letristas, literatos e pintores, entre outros… Mas entrelaçarmos contatos normalmente abertos e os normalmente fechados, para utilizarmos uma expressão da eletricidade industrial, e descobrirmos os jumps que acionam e abrem contatos mais complexos segundo nossa necessidade de aprendizado ou a estrutura sensitiva do nosso mediunato…

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Por esses e outros motivos e condições o estudo do Livro dos Médiuns é condição essencial para elucidar ao médium aprendiz o intricado labirinto pelo qual ele tem que passar, descobrindo nuances históricas, psicológicas, temporais e atemporais, para conseguir o resultado que a humildade pede com a qualidade moral necessária nesta relação com o mundo espiritual.

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Assim como o escritor e o poeta, o pintor e o escultor, manipulam com carinho, destreza e muito cuidado as palavras, a tinta e o mármore, o médium tem que descobrir os pontos táteis da energia que o emociona e esclarece, assim também os pensamentos que identificam seus amigos espirituais e ou inimigos que surgem em sua tela mental ou nos arcabouços mais complexos de sua alma.

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E o estudo do Livro dos Médiuns lhe desvendará o encanto, o pranto, a implicação e a responsabilidade da qual sua sensibilidade é constituída nas folhas magníficas que o passado, o presente e o futuro guardam no livro do tempo.

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Alguém já disse que “ao invés de procurarmos respostas precisamos compreender as perguntas” …

Ademário da Silva.

28 de março de 2020.

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Estudaremos o Livro dos Médiuns que foi traduzido por José Herculano Pires…

 

Os Agêneres = Espíritos…

Revista Espírita de 1859 = fevereiro

 

Já nos referimos diversas vezes à teoria das aparições.

Em nosso último número a recordamos, a propósito dos estranhos fenômenos que relatamos. Para melhor compreensão do que se segue, rogamos aos nossos leitores que a eles se reportem.

 

Todos sabem que, no número das manifestações mais extraordinárias produzidas pelo Sr. Home estava a aparição de mãos, perfeitamente tangíveis, que cada um podia ver e apalpar, que pressionavam e apertavam mas que, de repente, não ofereciam senão o vazio quando queriam pegá-las de surpresa.

 

Eis aí um fato positivo, que se produziu em diversas circunstâncias, atestado por numerosas testemunhas oculares. Por mais estranho e anormal que pareça, cessa o maravilhoso desde o momento em que é possível lhe darmos uma explicação lógica. Entra, então, na categoria dos fenômenos naturais, embora de ordem completamente diversa da dos que se produzem aos nossos olhos, e com os quais é preciso pôr-se em guarda para não os confundir.

 

Nos fenômenos comuns podemos achar pontos de comparação, como o do cego, que percebia o brilho da luz e das cores pelo som da trombeta, mas não similitudes. É precisamente a mania de querer tudo assimilar àquilo que conhecemos a verdadeira causa de tanta desilusão em certas pessoas: pensam que podem manipular esses elementos novos como se fossem hidrogênio e oxigênio. Ora, aí está o erro. Esses fenômenos estão submetidos a condições que escapam ao círculo habitual de nossas observações; é preciso, antes de tudo, conhecê-los e com eles nos conformarmos, se quisermos obter resultados.

 

É necessário, sobretudo, não perder de vista que esse princípio essencial, verdadeira chave da ciência espírita e agente dos fenômenos vulgares, é uma força física, material, que pode ser submetida às leis do cálculo, ao passo que nos fenômenos espíritas esse agente é constantemente uma inteligência que tem vontade própria e que não podemos submeter aos nossos caprichos.

 

Nessas mãos havia carne, pele, ossos, unhas reais?

Não, evidentemente; era apenas uma aparência, mas de tal ordem que produzia o efeito de uma realidade. Se um Espírito tem o poder de tornar visível e palpável uma parte qualquer de seu corpo etéreo, não há razão para que não o possa fazer com os outros órgãos.

 

Suponhamos que um Espírito estenda essa aparência a todas as partes do corpo: teremos, então, a impressão de ver um ser semelhante a nós, agindo como nós, quando não passa de um vapor momentaneamente solidificado.

 

Tal é o caso do louquinho de Bayonne. A duração dessa aparência está submetida a condições que nos são desconhecidas; depende, sem dúvida, da vontade do Espírito, que a pode produzir ou fazê-la cessar à vontade, embora dentro de certos limites, que nem sempre tem liberdade de transpor. Interrogados a respeito, bem como sobre todas as intermitências de quaisquer manifestações, os Espíritos sempre disseram que agiam em virtude de uma permissão superior.

 

Se, para certos Espíritos, é limitada a duração da aparência corporal, podemos dizer que, em princípio, ela é variável, podendo persistir mais ou menos tempo; pode produzir-se a qualquer tempo e a toda hora. Um Espírito cujo corpo fosse assim visível e palpável teria, para nós, toda a aparência de um ser humano; poderia conversar conosco e sentar-se em nosso lar qual se fora uma pessoa qualquer, pois o tomaríamos como um de nossos semelhantes.

 

Partimos de um fato patente – a aparição de mãos tangíveis – para chegar a uma suposição que é a sua consequência lógica. Entretanto, não a teríamos trazido à baila se a história do menino de Bayonne não nos tivesse posto no caminho, ao nos mostrar a sua possibilidade.

 

Questionado sobre esse ponto, um Espírito superior respondeu que realmente podemos encontrar seres dessa natureza, sem que o suspeitemos; acrescentou que isso é raro, mas possível. Como, para nos entendermos, precisamos dar um nome para cada coisa, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas os chama agêneres, assim indicando que sua origem não é o resultado de uma geração.

O fato a seguir, que se passou ultimamente em Paris, parece pertencer a esta categoria:

Uma pobre mulher estava na igreja de São Roque e rogava a Deus que a auxiliasse em sua aflição. À saída, na rua Saint-Honoré, encontra um senhor que a aborda e lhe diz: “Boa mulher, ficaríeis contente se arranjasses trabalho?”

 – “Ah! meu bom senhor”

– responde ela – “peço a Deus que me conceda esse favor, porque estou muito necessitada.” – “Pois bem! Ide a tal rua, número tanto. Procurai a senhora T…: ela vos dará trabalho.” Então continuou seu caminho. A pobre mulher dirigiu-se sem demora ao endereço indicado. – “Com efeito, tenho um trabalho para mandar fazer” – diz a senhora em questão –

 “mas como não o dissera a ninguém, como pôde a senhora vir me procurar?” Então a pobre indigente, avistando um retrato suspenso à parede, respondeu: –“Senhora, foi esse cavalheiro que me enviou aqui.” – “Esse cavalheiro!”

– replicou espantada a senhora – “Mas isso não é possível; este é o retrato de meu filho, morto há três anos.” – “Não sei como pode ser isto, mas vos asseguro que foi esse senhor que acabei de encontrar ao sair da igreja, onde tinha ido pedir a Deus que me assistisse. Ele me abordou e foi ele mesmo que me mandou aqui.”

 

Conforme o que acabamos de ver, nada haveria de surpreendente em que o Espírito do filho daquela senhora, a fim de prestar um serviço à pobre mulher, da qual sem dúvida ouvira a prece, lhe tivesse aparecido sob a forma corpórea para indicar-lhe o endereço da própria mãe.

 Em que se transformou depois?

 Sem dúvida no que era antes: um Espírito, a menos que, continuando seu passeio, tenha julgado conveniente mostrar-se a outras pessoas sob a mesma aparência. Essa mulher teria, assim, encontrado um agênere, com o qual havia conversado.

Mas, então – dirão – por que não se teria apresentado à sua mãe?

Nessas circunstâncias os motivos determinantes dos Espíritos nos são completamente desconhecidos. Agem como bem lhes pareça, ou melhor, como disseram, em virtude de uma permissão sem a qual não podem revelar sua existência de modo material. Compreende-se, ademais, que sua visão poderia causar à mãe perigosa emoção.

E quem sabe se não se apresentou a ela durante o sono ou de qualquer outro modo?

E, aliás, não terá sido um meio de lhe revelar sua existência?

 

É muito provável que tenha testemunhado aquela conversa entre as duas senhoras.

Não nos parece que o louquinho de Bayonne deva ser considerado como um agênere, pelo menos nas circunstâncias em que se manifestou, visto ter tido sempre, para a família, o caráter de um Espírito, caráter que jamais procurou dissimular: era seu estado permanente, e as aparências corporais que assumiu eram apenas acidentais, ao passo que o agênere propriamente dito não revela a sua natureza e, aos nossos olhos, mais não é do que um homem comum. Sua aparição corporal pode ter longa duração, conforme a necessidade, para estabelecer relações sociais com um ou diversos indivíduos.

 

Pedimos ao Espírito São Luís que nos esclarecesse sobre esses diferentes pontos, dignando-se responder às nossas perguntas:

 

  1. O Espírito do louquinho de Bayonne poderia mostrar-se corporalmente em outros locais e a outras pessoas além da sua família?

Resp. – Sim, sem dúvida.

 

  1. Isto depende de sua vontade?

Resp. – Não exatamente. O poder dos Espíritos é limitado; só fazem o que lhes é permitido fazer.

 

  1. O que aconteceria se ele se apresentasse a uma pessoa desconhecida?

Resp. – Teria sido tomado por uma criança comum.

Dir-vos-ei, porém, uma coisa: por vezes existem na Terra Espíritos que revestiram essa aparência, e que são tomados por homens.

 

  1. Esses seres pertencem à classe dos Espíritos inferiores ou superiores?

Resp. – Podem pertencer às duas; são fatos raros. Deles tendes exemplos na Bíblia.

 

  1. Raros ou não, basta a sua possibilidade para merecer a nossa atenção. O que aconteceria se, tomando semelhante ser por um homem comum, lhe fizessem um ferimento mortal? Seria morto?

Resp. – Desapareceria subitamente, como o jovem de Londres. [Ver o número de dezembro de 1858 – Fenômenos de bicorporeidade.]

 

  1. Eles têm paixões?

Resp. – Sim; como Espíritos têm as paixões dos Espíritos, conforme sua inferioridade. Se algumas vezes tomam um corpo aparente é para fruir as paixões humanas; se são elevados, é com um fim útil que o fazem.

 

  1. Podem procriar?

Resp. – Deus não o permitiria. Seria contrário às leis que estabeleceu na Terra e elas não podem ser derrogadas.

 

  1. Se um ser semelhante se nos apresentasse, haveria um meio de o reconhecer?

Resp. – Não, a não ser que o seu desaparecimento se fizesse de modo inesperado. Seria o mesmo que o transporte de móveis de um para outro andar, fatos que lestes anteriormente.

 

Observação – Alusão a um fato dessa natureza relatado no início da sessão.

 

  1. Qual o objetivo que pode levar certos Espíritos a tomar esse estado corporal? É antes o mal do que o bem?

Resp. – Frequentemente o mal; os Espíritos bons têm a seu favor a inspiração; agem pela alma e pelo coração. Como o sabeis, as manifestações físicas são produzidas por Espíritos inferiores, e aquelas são desse número. Entretanto, como disse, os Espíritos bons podem igualmente tomar essa aparência corporal com um fim útil. Falei de maneira geral.

 

  1. Nesse estado podem eles tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade?

Resp. – Sim, pois que podem desaparecer quando bem entenderem.

 

  1. Têm eles um poder oculto superior ao dos demais homens?

Resp. – Só têm o poder que lhes faculta a sua posição como Espírito.

 

  1. Têm necessidade real de alimento?

Resp. – Não; o corpo não é real.

 

  1. Entretanto, embora não tivesse um corpo real, o jovem de Londres almoçava com seus amigos e apertou-lhes a mão.

Em que se teria transformado o alimento absorvido?

Resp. – Antes de apertar a mão, onde estavam os dedos que apertavam?

Compreendeis que o corpo desapareça?

Por que não quereis compreender que a matéria também desapareça?

O corpo do rapaz de Londres não era uma realidade, visto estar em Boulogne. Era, pois, uma aparência; o mesmo ocorre com a nutrição que ele parecia absorver.

 

  1. Se tivéssemos entre nós um ser semelhante, seria um bem ou um mal?

Resp. – Seria antes um mal. Aliás, não se pode adquirir grandes conhecimentos com esses seres. Não vos podemos dizer muita coisa; tais fatos são excessivamente raros e jamais têm um caráter de permanência, notadamente as aparições instantâneas, como a de Bayonne.

 

  1. O Espírito familiar protetor algumas vezes toma essa forma?

Resp. – Absolutamente; não dispõe ele de recursos interiores? Manipula-os com mais facilidade do que o faria sob uma forma visível e se o tomássemos por um nosso semelhante.

 

  1. Perguntam se o Conde de Saint-Germain não pertenceria à categoria dos agêneres.

Resp. – Não; era um hábil mistificador.

 

A história do jovem de Londres, relatada em nosso número de dezembro, é um fato de bicorporeidade, ou, melhor dizendo, de dupla presença, que difere essencialmente daquele de que tratamos. O agênere não tem corpo vivo na Terra; apenas seu perispírito toma uma forma palpável. O jovem de Londres estava perfeitamente vivo. Enquanto seu corpo dormia em Boulogne, seu Espírito, envolto pelo perispírito, foi a Londres, onde tomou uma aparência tangível.

 

Conhecemos um fato quase análogo. Enquanto estávamos calmamente deitados em nosso leito, um de nossos amigos viu-nos diversas vezes em sua casa, embora sob uma aparência não tangível, assentando-nos a seu lado e com ele conversando. Certa vez nos viu em Robe de chambre; em outras, de paletó. Transcreveu nossa conversa e no-la enviou no dia seguinte.

Era, como não poderia deixar de ser, relativa aos nossos trabalhos prediletos. Querendo fazer uma experiência, ofereceu-nos refrescos. Eis a nossa resposta:

“Não tenho necessidade disso, visto não ser o meu corpo que está aqui. Sabeis, assim, que não há necessidade de vos produzir uma ilusão.” .

Uma circunstância assaz bizarra apresentou-se nessa ocasião. Seja por predisposição natural, seja como resultado de nossos trabalhos intelectuais, sérios desde a nossa juventude, e poderíamos dizer, desde a infância, o fundo de nosso caráter sempre foi de extrema gravidade, mesmo na idade em que não se pensa senão nos prazeres. Essa constante preocupação nos dá um semblante de frieza, de muita frieza mesmo. É, pelo menos, o que muitas vezes nos têm censurado. Entretanto, sob essa aparência glacial, talvez o Espírito sinta mais vivamente do que no caso de se permitir expansões exteriores. Ora, em nossas visitas noturnas ao nosso amigo, ele ficou bastante surpreendido por nos ver completamente diferente: estávamos mais abertos, mais comunicativos, quase alegres. Tudo em nós respirava a satisfação e a calma proporcionada pelo bem-estar.

 Não estará aí um efeito do Espírito desprendido da matéria?

 

Meu Amigo Hermann

 

Sob esse título o Sr. H. Lugner publicou no folhetim do Journal des Dèbats do dia 26 de novembro de 1858, uma espirituosa história fantástica, no gênero de Hoffmann, e que, à primeira vista, parece ter alguma analogia com os nossos agêneres e com os fenômenos de tangibilidade que acabamos de falar. Sua extensão não nos permite reproduzi-la na íntegra. Limitar-nos-emos a fazer-lhe a análise, observando que o autor narra essa história como um fato de que tivesse sido testemunha pessoal, estando – dizia ele – vinculado por laços de amizade ao herói da aventura. Esse herói, chamado Hermann, morava numa pequena cidade do interior da Alemanha. “Era” – diz o narrador – “um belo rapaz de 25 anos, de porte avantajado, cheio de nobreza em todos os movimentos, gracioso e espirituoso no falar; muito instruído e sem o menor pedantismo, fino e sem malícia, muito cioso de sua dignidade e sem a menor arrogância”. Em suma, era perfeito em tudo e mais perfeito ainda em três coisas: no amor pela filantropia, na vocação particular pela valsa e na doçura de caráter.

 

Essa doçura não era fraqueza, nem temor dos outros, nem desconfiança exagerada de si mesmo: era uma inclinação natural, uma superabundância desse milk of human kindness( leite de bondade humana)  que de ordinário não encontramos senão nas ficções dos poetas e da qual a Natureza havia aquinhoado Hermann com uma dose nunca vista. Ele continha e ao mesmo tempo sustentava os adversários com uma bondade onipotente e superior aos ultrajes; podiam feri-lo, mas não encolerizá-lo. Certo dia, tendo-lhe o barbeiro queimado a ponta da orelha ao anelar seus cabelos, Hermann apressou-se em desculpá-lo, tomando para si a culpa e garantindo que se havia mexido desajeitadamente. Entretanto, nada disso aconteceu, posso dizê-lo em consciência, porque me achava presente e vi claramente que tudo se deveu à inabilidade do barbeiro. Deu muitas outras provas de imperturbável bondade de alma. Ouvia a leitura de maus versos com um ar angélico e respondia aos mais tolos epigramas com elogios bem-postos, quando Espíritos malévolos teriam agido com maldade. Essa doçura extraordinária o tornara célebre; não havia mulher que não desse a vida para vigiar sem descanso o caráter de Hermann, procurando fazer com que perdesse a paciência pelo menos uma vez na vida.

 

“Acrescentai a todos esses méritos a vantagem de uma completa independência e uma fortuna suficiente para ser contado entre os mais ricos homens da cidade, e dificilmente podereis imaginar que faltasse alguma coisa à felicidade de Hermann.

Entretanto, não era feliz e muitas vezes dava mostras de tristeza…

Isso se devia a uma enfermidade singular, que o vinha afligindo a vida inteira e que há muito excitava a curiosidade de sua pequena cidade.

“Hermann não podia ficar acordado um instante sequer após o pôr-do-sol”. Quando o dia se aproximava do fim ele era tomado de uma languidez invencível e, pouco a pouco, caía num torpor que nada podia evitar e do qual ninguém o tirava.

“Deitava-se com o sol e se levantava ao raiar do dia; seus hábitos matinais o teriam feito excelente caçador, se tivesse podido vencer o horror do sangue e suportar a ideia de dar uma morte cruel a inocentes criaturas.”

Eis em que termos, num momento de desabafo, descreve a própria situação ao seu amigo do Journal des Débats:

 

 “Bem o sabeis, meu caro amigo, a que enfermidade estou sujeito e que sono invencível me oprime regularmente, desde o crepúsculo até a aurora. Sobre isso também sabeis o que todos sabem e, como todos, já ouvistes dizer que esse sono, por assim dizer, se confunde com a morte. Nada é mais verdadeiro, e esse prodígio pouco me importaria, eu o juro, se a natureza se contentasse em tomar-me o corpo como objeto de uma de suas fantasias. Mas a minha alma é também seu joguete e não vos posso dizer sem horror a sorte bizarra e cruel que lhe foi infligida. Cada uma de minhas noites é povoada de um sonho que se vincula com a mais fatal clareza ao sonho da noite anterior. Esses sonhos – queira Deus que sejam sonhos – se seguem e se encadeiam como os acontecimentos de uma existência comum que se desenrolasse à face do sol e na companhia de outros homens.

 

Vivo, pois, duas vezes, levando duas existências bem diferentes: uma se passa aqui, convosco e com os nossos amigos; a outra, muito longe daqui, com homens que conheço tão bem quanto vós, com quem falo como vos falo, e que me tratam de louco como o fazeis quando me refiro a uma outra existência além desta que passo convosco. Entretanto, estou aqui vivo e falando, sentado ao vosso lado e bem desperto, penso; e quem pretendesse que sonhamos ou que somos sombras, com justa razão não passaria por insensato?

Pois bem! Meu caro amigo cada um desses momentos, desses atos que preenchem as horas de meu sono inevitável, não são menos reais, e quando me acho inteiramente nessa outra existência, é esta que eu seria tentado a considerar como um sonho.

 

Entretanto, não sonho aqui mais do que lá. Vivo alternadamente nos dois lados e não poderia duvidar, embora minha razão fique estranhamente chocada com o fato de minha alma animar, sucessivamente, dois corpos e de se defrontar, assim, com duas existências. Ah! Meu caro amigo, quisesse Deus que nesses dois corpos ela tivesse os mesmos instintos e a mesma conduta e que lá eu fosse o homem que aqui apreciais e conheceis.

Mas não é nada disso e talvez não ousariam contestar a influência do físico sobre o moral se conhecessem minha história. Não quero me vangloriar; aliás, o orgulho que poderia inspirar-me uma dessas duas existências é aviltado pela vergonha, inseparável da outra.

Todavia, não posso dizer sem vaidade que aqui sou justamente amado e respeitado por todos; louvam-me a personalidade e as maneiras; acham-me nobre, liberal e distinto. Como sabeis, amo as letras, a filosofia as artes, a liberdade e tudo quanto faz o encanto e a dignidade da vida humana; assisto os infelizes e não tenho inveja do próximo. Conheceis-me a proverbial doçura, meu espírito de justiça e de misericórdia e meu insuperável horror à violência.

Todas essas qualidades, que me elevam e aqui me adornam, eu as expio lá, por vícios opostos. A Natureza, que aqui me cumulou de bênçãos, houve por bem amaldiçoar-me lá. Não apenas me lançou numa situação inferior, onde tive de ficar sem letras e sem cultura, como deu a esse outro corpo, que é também o meu, órgãos tão grosseiros ou tão perversos, sentidos tão cegos ou tão fortes, inclinações tais e tais necessidades que minha alma obedece, em vez de comandar, deixando-se arrastar por este corpo despótico às mais vis desordens. Lá eu sou duro e covarde, perseguidor dos fracos e servil diante dos fortes, impiedoso e invejoso, injusto por natureza, violento até o delírio. Entretanto, sou eu mesmo e, por mais me odeie e me despreze, não posso deixar de me reconhecer.

“Hermann parou um instante; sua voz tremia e os olhos estavam molhados de lágrimas”. Tentando sorrir, eu lhe disse:

“Quero vos excitar a loucura, para melhor curá-la. Dizei-me tudo; para começar, onde se passa essa outra existência e com que nome sois conhecido?”

 

“Chamo-me William Parker, respondeu ele; sou cidadão de Melbourne, na Austrália”. É para lá, no país dos antípodas, que voa minha alma, assim que vos abandona. Quando o Sol aqui se põe ela deixa Hermann inanimado e, quando lá se levanta, dá a vida ao corpo inerte de Parker. Começa, então, minha miserável existência de vagabundagem, de fraude, de rixas e de mendicância. Frequento uma sociedade má e nela sou contado entre os piores; estou em luta incessante com meus companheiros e, não raras vezes, me vejo de faca em punho; estou sempre em guerra com a polícia e, com frequência, obrigado a me esconder.

Porém, tudo tem um termo neste mundo e esse suplício está chegando ao fim. Infelizmente cometi um crime. Matei covarde e brutalmente uma pobre criatura que se havia ligado a mim. Levei, assim, ao cúmulo a indignação pública, já excitada pela minha má conduta. O júri condenou-me à morte e espero minha execução.

Algumas pessoas humanas e religiosas intercederam junto ao governador, a fim de obter-me graça ou, pelo menos, o sursis, que me dará tempo para me converter. Entretanto, é bem conhecida a minha natureza grosseira e intratável.

“Recusaram-no e, amanhã, ou melhor, esta noite, serei infalivelmente conduzido à forca.”

 

“Pois bem! disse-lhe eu sorrindo, tanto melhor para vós quanto para nós; é uma boa solução a morte desse velhaco. Uma vez Parker lançado na eternidade, Hermann viverá em paz; poderá velar como todo mundo e ficar conosco dia e noite.

“Essa morte curar-vos-á, meu caro amigo, e sou grato ao governador de Melbourne por ter recusado graça a esse miserável.”

 

“Enganai-vos, respondeu-me Hermann, com tal gravidade que me causou dó: morreremos juntos os dois, porquanto somos apenas um e, malgrado nossas diversidades e nossa natural antipatia, não temos senão uma alma, que será ferida por um único golpe, porque em todas as coisas respondemos um pelo outro.

Acreditais, então, que Parker ainda estaria vivo se Hermann não tivesse sentido que tanto na morte como na vida eles eram inseparáveis?

Teria eu hesitado um instante qualquer se tivesse podido arrancar e lançar ao fogo essa outra existência, como o olho maldito de que falam as Escrituras?

 Mas eu estava tão feliz por viver aqui que não admitia morrer lá; e minha indecisão durou até que a sorte resolveu para mim essa terrível questão. “Agora, tudo está consumado; acreditai que estou me despedindo de vós.”

 

 “No dia seguinte encontraram Hermann morto em seu leito e, alguns meses depois, os jornais da Austrália noticiaram a execução de William Parker, com todas as particularidades descritas por sua duplicata.”

 

Toda essa história é narrada com imperturbável sangue-frio e em tom sério; nada falta, nos detalhes que omitimos, para dar-lhe um cunho de verdade. Na presença dos estranhos fenômenos que testemunhamos, um fato dessa natureza poderia parecer se não real, pelo menos possível, e relacionado até certo ponto com aqueles que já citamos.

Com efeito, não seria análogo àquele do rapaz que dormia em Boulogne, enquanto, ao mesmo tempo, conversava em Londres com seus amigos?

Ao de Santo Antônio de Pádua que, no mesmo dia, pregava na Espanha e se mostrava em Pádua para salvar a vida do pai, acusado de homicídio?

 À primeira vista pode-se dizer que, se esses dois fatos forem exatos, também não é impossível que Hermann tenha vivido na Austrália, enquanto dormia na Alemanha, e reciprocamente.

 

Embora nossa opinião esteja perfeitamente estabelecida a esse respeito, acreditamos dever referi-la aos nossos instrutores de além-túmulo, em uma das sessões da Sociedade.

 

 À pergunta:

 O fato relatado pelo Journal des Débats é real?

Responderam:

 Não; é uma história feita especialmente para divertir os leitores.

Se não é real, é possível?

– Não; uma alma não pode animar dois corpos diferentes.

Realmente, na história de Boulogne, se bem o rapaz se tenha mostrado em dois locais diferentes simultaneamente, em verdade possuía apenas um corpo de carne e osso, que estava naquela cidade; em Londres havia apenas a aparência ou perispírito, tangível, é certo, mas não o próprio corpo, mortal; ele não poderia morrer em Londres e em Boulogne.

 

Hermann, ao contrário, conforme a anedota, teria realmente dois corpos, desde que um foi enforcado em Melbourne e o outro enterrado na Alemanha. A mesma alma teria, assim, se defrontado com duas existências simultâneas, o que, conforme os Espíritos, não é possível. Os fenômenos do gênero do de Boulogne e de Santo Antônio de Pádua, embora muito freqüentes são, aliás, sempre acidentais e fortuitos num indivíduo, não tendo jamais um caráter de permanência, ao passo que o pretenso Hermann era assim desde a infância. Entretanto, a razão mais grave de todas é a diferença de caracteres. Seguramente, se esses dois indivíduos não tivessem tido senão uma só alma, esta não poderia ser, alternadamente, a de um homem de bem e a de um bandido. É verdade que o autor se baseia na influência do organismo. Nós o lamentamos, se tal é a sua filosofia e, ainda mais, que procure dar-lhe crédito, porquanto seria negar a responsabilidade dos atos; semelhante doutrina seria a negação de toda moral, porque reduziria o homem à condição de máquina.

 

 

Sistemas…

 

CAPÍTULO IV

SISTEMAS

  1. Quando os estranhos fenômenos do Espiritismo começaram a se produzir, ou melhor, quando se renovaram nestes últimos tempos, suscitaram antes de mais nada a dúvida sobre a sua realidade e mais ainda sobre a sua causa.(1) Quando foram averiguados por testemunhos irrecusáveis e através de experiências que todos puderam fazer, aconteceu que cada qual os interpretou a seu modo, de acordo com suas idéias pessoais, suas crenças e seus preconceitos. Daí o aparecimento dos numerosos sistemas que uma observação mais atenta deveria reduzir ao seu justo valor.

(1) *As mesmas dúvidas suscitadas pelo Espiritismo repetiram-se, um século após o seu advento, e, portanto em nosso tempo, com o reinicio das pesquisas científicas dos fenômenos paranormais (na verdade fenômenos espíritas) pela Parapsicologia. E o desenvolvimento desta nova ciência renova aos nossos olhos as mesmas disparidades de opinião que caracterizaram o aparecimento do Espiritismo. (N. do T.)*

 

Os adversários do Espiritismo logo viram, nessas divergências de opinião, um argumento contrário, dizendo que os próprios espíritas não concordavam entre si. Era uma razão bem precária, pois os primeiros passos de todas as ciências em desenvolvimento são necessariamente incertos, até que o tempo permita a reunião e coordenação dos fatos que possam fixar-lhes a orientação. À medida que os fatos se completam e são melhor observados, as ideias prematuras se desfazem e a unidade de opinião se estabelece, quando não sobre os detalhes, pelo menos sobre os pontos fundamentais. Foi o que aconteceu com o Espiritismo, que não podia escapar a essa lei comum, e que devia mesmo, por sua natureza, prestar-se ainda mais à diversidade de opiniões. Podemos dizer, aliás, que nesse sentido o seu avanço foi mais rápido que o de ciências mais antigas, como a Medicina, por exemplo, que ainda continua a dividir os maiores sábios.

  1. *Para seguir a ordem progressiva das idéias, de maneira metódica, convém colocar em primeiro lugar os chamados sistemas negativos dos adversários do Espiritismo. Refutamos essas objeções na introdução e na conclusão de O Livro dos Espíritos, bem como na pequena obra intitulada O Que é o Espiritismo. Seria inútil voltar ao assunto e nos limitaremos a lembrar, em duas palavras, os motivos em que eles se apoiam.*

*Os fenômenos espíritas são de duas espécies: os de efeitos físicos e os de efeitos inteligentes. Não admitindo a existência dos Espíritos, por não admitirem nada além da matéria, compreende-se que eles neguem os efeitos inteligentes. Quanto aos efeitos físicos, eles os comentam à sua maneira e seus argumentos podem ser resumidos nos quatro sistemas seguintes.*

&

  1. SISTEMA DO CHARLATANISMO: muitos dos antagonistas atribuem esses efeitos à esperteza, pela razão de alguns terem sido imitados. Essa suposição transformaria todos os espíritas em mistificados e todos os médiuns em mistificadores, sem consideração pela posição, ou caráter, o saber e a honorabilidade das pessoas. Se ela merecesse resposta, diríamos que alguns fenômenos da Física são também imitados pelos prestidigitadores, o que nada prova contra a verdadeira ciência. Há pessoas, aliás, cujo caráter afasta toda suspeita de fraude, e seria preciso não se ter educação nem urbanidade para atrever-se a dizer-lhes que são cúmplices de charlatanice. Num salão bastante respeitável, um senhor que se dizia muito educado permitiu-se fazer uma observação dessa e a dona da casa lhe disse:

“Senhor, desde que não está satisfeito, o dinheiro lhe será devolvido na porta”, e com um gesto lhe indicou o melhor que tinha a fazer.

Devemos concluir disso que nunca houve abusos? Seria necessário admitir que os homens são perfeitos. Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais santas. Por que não se abusaria do Espiritismo? Mas o mau emprego que se pode fazer de uma coisa não deve levar-nos a prejulgá-la. Podemos considerar a boa fé dos outros pelos motivos de suas ações.

Onde não há especulação não há razão para o charlatanismo.

  1. SISTEMA DA LOUCURA: alguns, por condescendência, querem afastar a suspeita de fraude e pretendem que os que não enganam são enganados por si mesmos, o que equivale a chamá-los de imbecis. Quando os incrédulos são menos maneirosos, dizem simplesmente que se trata de loucura, atribuindo-se sem cerimônias o privilégio do bom senso. É esse o grande argumento dos que não têm melhores razões a apresentar. *Aliás, essa forma de crítica se tornou ridícula pela própria leviandade e não merece que se perca tempo em refutá-la*. Por sinal que os espíritas pouco se importam com ela. Seguem corajosamente o seu caminho, consolando-se ao pensar que têm por companheiros de infortúnio muita gente de mérito incontestável. É necessário convir, com efeito, que essa loucura, se se trata de loucura, revela uma estranha característica: a de atingir de preferência a classe mais esclarecida, na qual o Espiritismo conta até o momento com a maioria absoluta de adeptos. *Se nesse número se encontram alguns excêntricos, eles não depõem mais contra a Doutrina do que os fanáticos contra a Religião; do que os melomaníacos contra a Música; ou do que os maníacos calculadores contra a Matemática. Todas as idéias têm os seus fanáticos e seria necessário ser-se muito obtuso para confundir o exagero de uma ideia com a própria ideia. Para mais amplas explicações a respeito, enviamos o leitor à nossa brochura: O Que é o Espiritismo ou a O Livro dos Espíritos, parágrafo XV da Introdução*.

 

  1. SISTEMA DA ALUCINAÇÁO: outra opinião, menos ofensiva porque tem um leve disfarce científico, consiste em atribuir os fenômenos a uma ilusão dos sentidos. Assim, o observador seria de muito boa fé, mas creria ver o que não vê. *Quando vê uma mesa levantar-se e permanecer no ar sem qualquer apoio, a mesa nem se moveu. Ele a vê no espaço por uma ilusão ou por um efeito de refração, como o que nos faz ver um astro ou um objeto na água, deslocado de sua verdadeira posição*. A rigor, isso seria possível, mas os que testemunharam esse fenômeno constataram a suspensão passando por baixo da mesa, que seria difícil se ela não houvesse sido elevada. *Além disso, ela é elevada tantas vezes que acaba por quebrar-se ao cair. Seria isso também uma ilusão de ótica?*

*Uma causa fisiológica bem conhecida pode fazer, sem dúvida, que se veja rodar uma coisa que nem se mexeu, ou que nos sintamos rodar quando estamos imóveis.* Mas quando várias pessoas que estão ao redor de uma mesa são arrastadas por um movimento tão rápido que é difícil segui-la e algumas são até mesmo derrubadas, teriam acaso sofrido vertigens, como o ébrio que vê a casa passar-lhe pela frente? (2)

(2)

Conta Simone de Beauvoir, em “A Força da Idade”, uma experiência de tiptologia com Jean Paul Sartre, em que ela fez a mesa bater à vontade, iludindo a todos, inclusive o próprio filósofo. Como se vê por essa brincadeira entre filósofos ateus e céticos, a posição da inteligência francesa ainda não mudou a respeito do assunto. E pena que em vez de brincar não tenham feito uma experiência séria. (N. do T.)

 

  1. SISTEMA DO MÚSCULO ESTALANTE: *se assim fosse, no que toca à visão, não seria diferente para o ouvido. Mas quando os golpes são ouvidos por toda uma assembleia, não se pode razoavelmente atribuí-los à ilusão.* Afastamos bem entendido, qualquer ideia de fraude, considerando uma observação atenta em que se tenha constatado que não havia nenhuma causa fortuita ou material.

*É verdade que um sábio médico deu ao caso uma explicação decisiva, segundo pensava: “A causa, disse ele, está nas contrações voluntárias ou involuntárias do tendão muscular do pequeno perônio”*,

(A fíbula, perónio ou perônio é um osso longo da perna no corpo humano, possui predominância na largura e na espessura.) *entra nas mais completas minúcias anatômicas para demonstrar o mecanismo dessa produção de estalos, que pode imitar o tambor e mesmo executar árias ritmadas. Chega assim à conclusão de que os que ouvem os golpes numa mesa são vítimas de uma mistificação ou de uma ilusão.* O fato nada apresenta de novo. Infelizmente para o autor dessa pretensa descoberta, sua teoria não pode explicar todos os casos. *Digamos primeiramente que os dotados da estranha faculdade de fazer estalar à vontade o músculo do pequeno perônio, ou outro qualquer, e tocar árias musicais por esse meio, são criaturas excepcionais, enquanto a de fazer estalar as mesas é muito comum, e os que a possuem só muito raramente podem possuir aquela. Em segundo lugar, o sábio doutor esqueceu-se de explicar como podem esses estalos musculares de uma pessoa imóvel e distanciada da mesa produzir nesta, vibrações sensíveis ao tato; como esses estalos podem repercutir, à vontade dos assistentes, em lugares diversos da mesa, em outros móveis, nas paredes, no forro, etc., e como, enfim, a ação desse músculo pode estender-se a uma mesa que não se toca e fazê-la mover-se sozinha.*Esta explicação, aliás, se realmente explicasse alguma coisa, só poderia infirmar o fenômeno dos golpes, não podendo referir-se aos demais modos de comunicação. Concluímos, pois, que o seu autor julgou sem ter visto, ou sem ter visto tudo de maneira suficiente. É sempre lamentável que os homens de ciência se apressem a dar, sobre o que não conhecem, explicações que os fatos podem desmentir. O seu próprio saber deveria torná-los tanto mais ponderados em seus julgamentos, quanto mais esse saber lhes amplia os limites do desconhecido.

(3)

Médico Jobert, de Lamballe. Para sermos justos devemos dizer que essa descoberta se deve ao Sr. Schiff . 0 Sr. Jobert apenas desenvolveu as suas consequências perante a Academia de Medicina para dar o golpe decisivo nos Espíritos batedores. Todos os detalhes podem ser encontrados na Revista Espírita de junho de 1859. (Nota de Kardec).

 

  1. SISTEMA DAS CAUSAS FÍSICAS: saímos aqui dos sistemas de negação absoluta. Averiguada a realidade dos fenômenos, o primeiro pensamento que naturalmente ocorreu ao espírito dos que o viram foi o de atribuir os movimentos ao magnetismo, à eletricidade ou à ação de um fluido qualquer, em uma palavra, a uma causa exclusivamente física, material. Essa opinião nada tinha de irracional e prevaleceria se o fenômeno se limitasse aos efeitos puramente mecânicos. Uma circunstância parecia mesmo corroborá-la: era, em alguns casos, o aumento da potência na razão do número de pessoas presentes, pois cada uma delas podia ser considerada como elemento de uma pilha elétrica humana. *O que caracteriza uma teoria verdadeira, já o dissemos, é a possibilidade de explicar todos os fatos. Se um único fato a contraditar, é porque ela é falsa, incompleta ou demasiado arbitrária. Foi o que não tardou a acontecer no caso. Os movimentos e os golpes revelaram inteligência, pois obedeciam a uma vontade e respondiam ao pensamento. Deviam, pois, ter uma causa inteligente.* E desde que o efeito cessava de ser apenas físico, a causa, por isso mesmo, devia ser outra. Assim o sistema de ação exclusiva de um agente material foi abandonado e só se renova entre os que julgam a priori, sem nada terem visto. *O ponto capital, portanto, é a constatação da ação inteligente, e é por ele que se pode convencer quem quiser se dar ao trabalho da observação.*
  2. SISTEMA DO REFLEXO: *reconhecida a ação inteligente, restava saber qual seria a fonte dessa inteligência. Pensou-se que poderia ser a do médium ou dos assistentes, que se refletiria como a luz ou as ondas sonoras. Isso era possível e somente a experiência poderia dar a última palavra a respeito. Mas notemos, desde logo, que esse sistema se afasta completamente das idéias puramente materialistas: para a inteligência dos assistentes poder reproduzir-se de maneira indireta, seria necessário admitir a existência no homem de um princípio independente do organismo.*

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Ernesto Bozzano defenderia mais tarde esta tese em “Animismo e Espiritismo”, num sentido mais amplo. Ver esse livro. (N. do T.)

 

*Se o pensamento manifestado fosse sempre o dos assistentes, a teoria da reflexão estaria confirmada*. Mas o fenômeno, mesmo assim reduzido, não seria do mais alto interesse? *O pensamento a repercutir num corpo inerte e a se traduzir por movimento e ruído não seria admirável? Não haveria nisso o que excitar a curiosidade dos sábios?* Porque, pois, eles desprezaram esse fato, eles que se esgotam na procura de uma fibra nervosa?

*Somente a experiência, dissemos, poderia dar a última palavra sobre essa teoria, e a experiência a deu condenando-a, porque ela demonstra a cada instante, e pelos fatos mais positivos, que o pensamento manifestado pode ser, não só estranho aos assistentes, mas quase sempre inteiramente contrário ao deles; que contradiz todas as idéias preconcebidas e desfaz todas as previsões. De fato, quando eu penso branco e me respondem preto, não posso acreditar que a resposta seja minha. Alguns se apoiam em casos de identidade entre o pensamento manifestado e o dos assistentes, mas que é que isso prova, senão que os assistentes podem pensar como a inteligência comunicante?* Não se pode exigir que estejam sempre em oposição. Quando, numa conversação, o interlocutor emite um pensamento semelhante ao vosso, direis por isso que ele o tirou de vós? Bastam alguns exemplos contrários e bem constatados para provar que essa teoria não pode ser decisiva.

*Como, aliás, explicar pelo reflexo do pensamento a escrita feita por pessoas que não sabem escrever? As respostas do mais elevado alcance filosófico, obtidas através de pessoas iletradas. E aquelas dadas a perguntas mentais ou formuladas numa língua desconhecida do médium? E mil outros fatos que não podem deixar dúvida quanto à independência da inteligência manifestante? A opinião contrária só pode resultar de uma deficiência de observação. Se a presença de uma inteligência estranha é moralmente provada pela natureza das respostas, materialmente o é pelo fenômeno da escrita direta, ou seja, da escrita feita espontaneamente, sem caneta nem lápis, sem contato e apesar de todas as precauções tomadas para evitar qualquer ardil. O caráter inteligente do fenômeno não poderia ser posto em dúvida; logo, há mais do que uma simples ação fluídica. Além disso, a espontaneidade do pensamento manifestado independente de toda expectativa e de qualquer questão formulada, não permite que se possa torná-lo como um reflexo do que pensam os assistentes.*

O sistema do reflexo é muito desagradável em certos casos. Quando, por exemplo, numa reunião de pessoas sérias ocorre uma comunicação de revoltante grosseria, atribuí-la a um dos assistentes seria cometer uma grave indelicadeza, e é provável que todos se apressassem em repudiá-la. (Ver O Livro dos Espíritos, parágrafo XVI da Introdução.)

  1. SISTEMA DA ALMA COLETIVA: *é uma variante do precedente. Segundo este sistema, somente a alma do médium se manifesta, mas identificando-se com a de muitas outras pessoas presentes ou ausentes, para formar um todo coletivo que reuniria as aptidões, a inteligência e os conhecimentos de cada uma delas.* Embora a brochura que expõe essa teoria se intitule A Luz (5) pareceu-nos de um estilo bastante obscuro. Confessamos haver compreendido pouco do que vimos e só a citamos para registrá-la. Trata-se, aliás, de uma opinião individual como tantas outras e que fez poucos adeptos. Ema Tirpse é o nome usado pelo autor para designar o ser coletivo que representa. Ele toma por epígrafe: *Não há nada oculto que não venha a ser revelado. Essa proposição é evidentemente falsa, pois há uma infinidade de coisas que o homem não pode e não deve saber. Bem presunçoso seria o que pretendesse penetrar todos os segredos de Deus.*

 

*”Comunhão. A luz do fenômeno do Espírito. Mesas falantes, sonâmbulos, médiuns, milagres. Magnetismo espiritual: poder da prática na fé. Por Ema Tirpse, uma alma coletiva escrevendo por intermédio de uma prancheta.” Bruxelas, 1858, edição Devroye.*

 

  1. SISTEMA SONAMBÚLICO: *este sistema teve mais partidários, mas ainda agora conta com alguns. Como precedente, admite que todas as comunicações inteligentes procedem da alma ou Espírito do médium. Mas, para explicar como o médium pode tratar de assuntos que estão fora do seu conhecimento, em vez de considerá-lo dotado de uma alma coletiva, atribui essa aptidão a uma superexcitação momentânea de suas faculdades mentais, a uma espécie de estado sonambúlico ou extático, que exalta e desenvolve a sua inteligência.* Não se pode negar, em certos casos, a influência dessa causa, mas é suficiente haver presenciado como opera a maioria dos médiuns para compreender que ela não pode resolver todos os casos, constituindo, pois a exceção e não a regra. *Poderia ser assim, se o médium tivesse sempre o ar de inspirado ou extático, aparência que ele poderia, aliás, simular perfeitamente, se quisesse representar uma comédia. Mas como crer na inspiração, quando o médium escreve como uma máquina, sem a menor consciência do que obtém, sem a menor emoção, sem se preocupar com o que faz, inteiramente distraído, rindo e tratando de assuntos diversos?*

Concebe-se a excitação das idéias, mas não se compreende que ela faça escrever aquele que não sabe escrever, e ainda menos quando as comunicações são transmitidas por pancadas ou com a ajuda de uma prancheta ou de uma cesta. Veremos, no curso desta obra, o que se deve atribuir à influência das idéias do médium. Mas os casos em que a inteligência estranha se revela por sinais incontestáveis são tão numerosos e evidentes, que não podem deixar dúvidas a respeito. *O erro da maior parte dos sistemas surgidos na origem do Espiritismo é tirar conclusões gerais de alguns fatos isolados.* (6)

(6)

*O sistema da excitação das idéias é hoje renovado pela hipótese igualmente falsa do “inconsciente excitado”, que pseudoparapsicólogos procuram difundir contra as manifestações espíritas. Como se vê, os meios e as armas de combate ao Espiritismo continuam os mesmos, apenas com algumas adaptações às novas condições culturais. Mas, em compensação, as respostas já estão praticamente dadas nas obras de Kardec. O espírita que as estuda com atenção refutará facilmente essas repetições de velhos sistemas superados. (N. do T.)*

 

  1. SISTEMA PESSIMISTA, DIABÓLICO OU DEMONÍACO: entramos aqui em outra ordem de idéias. Constatada a intervenção de uma inteligência estranha, tratava-se de saber de que natureza era essa inteligência.

 

*O meio mais fácil era sem dúvida lhe perguntar, mas algumas pessoas não viam nisso uma garantia suficiente e só quiseram ver em todas as manifestações uma obra diabólica. Segundo elas, somente o Diabo ou os Demônios podem comunicar-se. Embora esse sistema tenha hoje pouca aceitação, gozou por certo tempo de algum crédito, em virtude da condição especial daqueles que procuravam fazê-lo prevalecer. Assinalaremos, porém, que os partidários do sistema demoníaco não devem ser considerados entre os adversários do Espiritismo, antes pelo contrário. Os seres que se comunicam, quer sejam demônios ou anjos, são sempre seres incorpóreos. Ora, admitir a manifestação dos demônios é sempre admitir a possibilidade de comunicação com o mundo invisível, ou pelo menos com uma parte desse mundo.*

 

A crença na comunicação exclusiva dos demônios, por mais irracional que seja não pareceria impossível quando se consideravam os Espíritos como seres criados fora da Humanidade. Mas desde que sabemos que os Espíritos são apenas as almas dos que já viveram, ela perdeu todo o seu prestígio, e podemos dizer toda a verossimilhança. Porque a consequência seria que todas essas almas eram demônios, fossem elas de um pai, de um filho ou de um amigo, e que nós mesmos, ao morrer, nos tornaríamos demônios, doutrina pouco lisonjeira e pouco consoladora para muita gente. Será muito difícil convencer uma mãe de que uma criança querida que ela perdeu, e que após a morte lhe vem dar provas de sua afeição e de sua identidade, seja um suposto satanás. É verdade que entre os Espíritos existem os que são muito maus e não valem mais do que os chamados demônios, e isso por uma razão em simples: é que existem homens muito maus e que a morte não os melhora imediatamente. A questão é saber se só eles podem comunicar-se. Aos que pensam assim, propomos as seguintes questões:

 

*(1°) Há Espíritos bons e maus?*

 

*(2°) Deus é mais poderoso do que os maus Espíritos, ou do que os demônios se quiserdes?*

 

*(3°) Afirmar que só os maus se comunicam é dizer que os bons não podem fazê-lo. Se assim é, de duas uma: isso acontece pela vontade ou contra a vontade de Deus. Se for contra a sua vontade, os maus Espíritos são mais poderosos que Ele. Se é por sua vontade, por que razão, na sua bondade, não permitiria a comunicação dos bons, para contrabalançar a influência dos outros?*

 

*(4°) Que provas podeis dar da impossibilidade de se comunicarem os bons Espíritos?*

 

*(5°) Quando vos opomos a sabedoria de certas comunicações, respondeis que o Demônio usa todas as máscaras para melhor seduzir. Sabemos, realmente, que há Espíritos hipócritas que dão à sua linguagem um verniz de sabedoria. Mas admitis que a ignorância possa representar o verdadeiro saber e uma natureza má substituir a virtude, sem deixar transparecer a fraude?*

 

*(6°) Se é só o Demônio que se comunica, e sendo ele o inimigo de Deus e dos Homens, por que recomenda orar a Deus, submissão à sua vontade, sofrer sem queixas as atribulações da vida, não ambicionar honras nem riquezas, praticar a caridade e todas as máximas do Cristo; em uma palavra, fazer tudo o que é necessário para destruir o seu império? Se é o Demónio quem dá esses conselhos, temos de convir que, por mais ardiloso seja, se mostra bastante inábil ao fornecer armas contra ele mesmo.*

(7)

* Esta questão foi tratada em O Livro dos Espíritos (números 128 e seguintes), mas recomendamos a respeito, como para tudo que se refere à parte religiosa, a brochura intitulada: Carta de um católico sobre o Espiritismo, do Dr. Grand, antigo cônsul da França (edição Ledoyen) e a que publicamos com o título de Os Contraditores do Espiritismo do ponto de vista da Religião, da Ciência e do Materialismo. (N. de Kardec).*

 

*(7°) Desde que os Espíritos se comunicam, é que Deus o permite. Vendo as boas e as más comunicações, não é mais lógico pensar que Deus permite umas para nos provar e outras para nos aconselhar o bem?*

 

*(8°) Que pensaríeis de um pai que deixasse o filho à mercê dos exemplos e dos conselhos perniciosos, e que afastasse dele, proibindo-o de vê-las, as pessoas que pudessem desviá-lo do mal? O que um bom pai não faria, devemos pensar que Deus, a bondade por excelência, estaria fazendo, menos compreensivo que um homem?*

 

*(9°) A Igreja reconhece como autênticas algumas manifestações da Virgem e de outros santos, nas aparições, visões, comunicações orais etc.; essa crença não está em contradição com a doutrina da comunicação exclusiva dos Demônios?*

 

*Acreditamos que algumas pessoas aceitaram de boa fé essa teoria. Mas acreditamos também que muitas o fizeram apenas para evitar a preocupação com essas coisas, por causa das más comunicações que todos estão sujeitos a receber. Dizendo que somente o Diabo se manifesta, quiseram assustar, assim como se faz a uma criança: “Não pegue nisso, que queima!” A intenção pode ser louvável, mas não atingiu o objetivo, porque a proibição só serve para excitar a curiosidade e o temor do Diabo abrange poucas pessoas. Em geral querem vê-lo, nem que seja apenas para saber como ele é, e acabam se admirando de não encontrá-lo tão feio como pensavam.*

Não se poderia ainda encontrar outro motivo para esta teoria das comunicações exclusivas decorrentes do Diabo? Há pessoas que consideram errados todos os que não pensam como elas. *Ora, as que pretendem que as comunicações são do Demônio não estariam com medo de encontrar Espíritos que as contrariem muito mais no tocante aos interesses deste mundo que aos do outro?* Não podendo negar o fato, quiseram apresentá-lo de maneira assustadora. Mas esse meio não deu mais resultados que os outros, *e onde o medo do ridículo é importante, o melhor é deixar as coisas correrem.*

*O muçulmano que ouvisse um espírito falar contra algumas leis do Alcorão, pensaria seguramente que era um mau Espírito. O mesmo aconteceria com um judeu, no tocante a algumas práticas da lei de Moisés. Quanto aos católicos, ouvimos um deles afirmar que o Espírito comunicante era o Diabo, porque se atrevia a pensar diferente dele sobre o poder temporal, embora só pregasse a caridade, a tolerância, o amor ao próximo, o desinteresse pelas coisas mundanas, de acordo com as máximas pregadas por Cristo.*

*Os Espíritos são as almas dos homens, e como os homens não são perfeitos, há também Espíritos imperfeitos, cujo caráter se reflete nas comunicações. É incontestável que há Espíritos maus, astuciosos, profundamente hipócritas, contra os quais devemos nos prevenir. Mas por encontrar os perversos entre os homens devemos fugir da vida social? Deus nos deu a razão e o discernimento para apreciarmos os Espíritos e os Homens. A melhor maneira de evitar os possíveis inconvenientes da prática espírita não é impedi-la, mas esclarecê-la.* Um temor imaginário pode impressionar por um instante e não atinge a todos, enquanto a realidade claramente demonstrada é compreensível para todos.

*47. SISTEMA OTIMISTA: ao lado dos sistemas que só veem nos fenômenos a ação dos Demônios, há outros que só veem a dos Espíritos bons. Partem do princípio de que, liberta da matéria, a alma está livre de qualquer véu e deve possuir a soberana ciência e a soberana sabedoria. Essa confiança cega na superioridade absoluta dos seres do mundo invisível tem sido para muitas pessoas, a fonte de numerosas decepções. Elas tiveram de aprender à própria custa a desconfiar de alguns Espíritos, tanto como desconfiavam de alguns homens.*

*48. SISTEMA UNIESPÍRITO OU MONOESPÍRITO: uma variedade do sistema otimista é a crença de que um único Espírito se comunica com os homens e que esse Espírito é o Cristo, protetor da Terra.* Quando as comunicações são da mais baixa trivialidade, de uma grosseria revoltante, cheias de malevolência e de maldade, seria impiedade e profanação supor que pudessem provir do espírito do bem por excelência. Ainda se poderia admitir a ilusão, se os que assim creem só tivessem obtido comunicações excelentes. Mas a maioria deles declara ter recebido comunicações muito más, explicando tratar-se de uma prova a que o Espírito bom os submete ao ditar-lhes coisas absurdas. Assim, enquanto uns atribuem todas as comunicações ao Diabo, que pode fazer bons ditados para tentá-los, outros pensam que Jesus é o único a se manifestar e que pode fazer maus ditados para experimentá-los. *Entre essas duas opiniões tão diversas, quem decidirá? O bom senso e a experiência. E citamos a experiência, porque é impossível que os que adotam essas idéias tenham verificado tudo suficientemente.*

*Quando lhes advertimos com os casos de identificação, que atestam a presença de parentes, amigos ou conhecidos pelas comunicações escritas, visuais e outras, respondem que é sempre o mesmo Espírito: o Diabo, segundo uns, o Cristo, segundo outros, que tomam aquelas formas. Mas não dizem por que razão os outros Espíritos não podem comunicar-se, com que fim o Espírito da Verdade viria nos enganar sob falsas aparências, abusar de uma pobre mãe ao fingir-se o filho por ela chorado. A razão se recusa a admitir que o Espírito mais santo de todos venha a representar semelhante comédia. Além disso, negar a possibilidade de qualquer outra comunicação não é tirar do Espiritismo o que ele tem de mais agradável: a consolação dos aflitos? Declaramos simplesmente que semelhante sistema é irracional e não pode resistir a um exame sério.*

  1. SISTEMA MULTIESPÍRITA OU POLIESPÍRITA: todos os sistemas que examinamos, sem excetuar os negativos, fundamentam-se em algumas observações, mas incompletas ou mal interpretadas. Se uma casa é vermelha de um lado e branca do outro, quem a vir só de um lado afirmará que é apenas vermelha ou branca e estará ao mesmo tempo errado e certo; mas quem a vir de todos os lados dirá que tem as duas cores e só ele estará realmente com a verdade. Acontece o mesmo com as opiniões sobre o Espiritismo: pode ser verdadeira sobre certos aspectos e falsa se a generalizarem, tomando como regra o que é apenas exceção, interpretando como tal o que é somente uma parte.

*Por isso dizemos que quem desejar estudar seriamente esta ciência deve aprofundar-se bastante e durante longo tempo, pois só o tempo lhe permitirá perceber os detalhes, notar as nuanças delicadas, observar uma infinidade de fatos característicos que serão como raios luminosos. Mas se permanecer na superfície expõe-se a julgar prematuramente e, portanto de maneira errônea.*

 

Vejamos os resultados gerais a que chegamos através de uma observação completa, e que hoje formam a crença, podemos dizer, da universalidade dos Espíritos, porque os sistemas restritivos não passam de opiniões isoladas:

 

*1° – Os fenômenos espíritas são produzidos por inteligências extracorpóreas, ou seja, pelos Espíritos.*

*2° – Os Espíritos constituem o mundo invisível e estão por toda parte; povoam os espaços até o infinito; há Espíritos incessantemente ao nosso redor e com eles estamos em contato.*

*3° – Os Espíritos agem constantemente sobre o mundo físico e sobre o mundo moral, sendo uma das potências da Natureza.*

 

*4° – Os Espíritos não são entidades à parte na Criação: são as almas dos que viveram na Terra ou em outros Mundos, desprovidas do seu envoltório corporal; do que se segue que as almas dos homens são Espíritos encarnados e que ao morrer nos tornamos Espíritos.*

 

*5° – Há Espíritos de todos os graus de bondade e de malícia, de saber e de ignorância.*

 

*6° – Estão submetidos à lei do progresso e todos podem chegar à perfeição, mas como dispõem do livre-arbítrio alcançam-na dentro de um tempo mais ou menos longo, segundo os seus esforços e a sua vontade.*

 

*7° – São felizes ou infelizes, conforme o bem ou mal que fizeram durante a vida e o grau de desenvolvimento a que chegaram; a felicidade perfeita e sem nuvens só é alcançada pelos que chegaram ao supremo grau de perfeição.*

 

*8° – Todos os Espíritos, em dadas circunstâncias, podem manifestar se aos homens, e o número dos que podem comunicar-se é indefinido.*

 

*9° – Os Espíritos se comunicam por meio dos médiuns, que lhes servem de instrumento e de intérpretes.

10° – Reconhecem-se a superioridade e inferioridade dos Espíritos pela linguagem: os bons só aconselham o bem e só dizem coisas boas; os maus enganam e todas as suas palavras trazem o cunho da imperfeição e da ignorância.*

 

*Os diversos graus porque passam os Espíritos constam da Escala Espírita (O Livro dos Espíritos, II parte, cap. VI, n° 100). O estudo dessa classificação é indispensável para se avaliar a natureza dos Espíritos que se manifestam e suas boas e más qualidades.*

 

  1. SISTEMA DA ALMA MATERIAL: consiste apenas numa opinião particular sobre a natureza íntima da alma, segundo a qual a alma e o perispírito não seriam distintos, ou melhor, o perispírito seria a própria alma em depuração gradual por meio das transmigrações, como o álcool se depura nas destilações. Na Doutrina Espírita, entretanto o perispírito é considerado como simples envoltório fluídico da alma ou Espírito. Constituindo-se o perispírito de uma forma de matéria, embora muito eterizada, para o sistema em causa a alma seria também de natureza material, mais ou menos essencial, segundo o grau de sua depuração.

*Este princípio não invalida nenhum dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita, pois nada modifica em relação ao destino da alma*. As condições de sua felicidade futura são as mesmas, a alma e o perispírito formando um todo sob denominação de Espírito, como o germe e o perisperma formam uma unidade sob o nome de fruto. *Toda a questão se reduz em considerar o todo como homogêneo em vez de formado por duas partes distintas.*

Como se vê, isto não leva a nenhuma consequência e não falaríamos a respeito se não houvéssemos encontrado pessoas inclinadas a ver uma escola nova no que não é, de fato, mais que uma simples questão de palavras. Esta opinião, aliás, muito restrita, mesmo que fosse mais generalizada não representaria uma cisão entre os espíritas, da mesma maneira que as teorias da emissão ou das ondulações da luz não dividem os físicos. Os que desejassem separar-se por uma questão assim pueril, provariam dar mais importância ao acessório do que ao principal e estar impulsionados por Espíritos que não podem ser bons, porque os bons Espíritos não semeiam jamais o azedume e a cizânia. Eis porque concitamos todos os verdadeiros espíritas a se manterem em guarda contra semelhantes sugestões e não ligarem a alguns detalhes maior importância do que merecem, pois o fundo é que é o essencial.

*Cremos, não obstante, dever dizer em algumas palavras no que se funda a opinião dos que consideram a alma e o perispírito como distintos. Ela se apoia no ensino dos Espíritos, que jamais variaram a esse respeito. Aludimos aos Espíritos esclarecidos, pois entre os Espíritos em geral há muitos que não sabem mais e até mesmo conhecem menos do que os homens. Aliás, essa teoria contrária é uma concepção humana. Não fomos nós que inventamos nem que supusemos a existência do perispírito para explicar os fenômenos. Sua existência nos foi revelada pelos Espíritos e a observação no-la confirmou (O Livro dos Espíritos, n° 93).*

*Ela se apoia ainda no estudo das sensações dos Espíritos (O Livro dos Espíritos, n° 257). E, sobretudo no fenômeno das aparições tangíveis que para outros implicariam a solidificação e a desagregação dos elementos constitutivos da alma, e consequentemente a sua desorganização.*

*Além disso, seria necessário admitir que essa matéria, que pode tornar-se perceptível aos nossos sentidos, fosse o próprio princípio inteligente, que não é mais racional do que confundir o corpo com a alma ou a roupa com o corpo. Quanto à natureza íntima da alma, nada sabemos. Quando se diz que ela é imaterial, devemos entendê-lo em sentido relativo e não absoluto, porque a imaterialidade absoluta seria o nada. Ora, a alma ou Espírito é alguma coisa. *O que se quer dizer, portanto, é que a sua essência é de tal maneira superior que não apresenta nenhuma analogia com o que chamamos matéria, e que por isso ela é, para nós, imaterial (O Livro dos Espíritos, n° 23 e 82)*

 

*“O Espírito é definido no n.” 23 de O Livro dos Espíritos como principio inteligente, em comparação com princípio material. O n” 27 explica que esses dois princípios, tendo Deus como a sua fonte, forma a trindade universal, princípio de todas coisas.* Isto nos mostra que a concepção espírita do Universo é monista, num sentido espiritual. As ciências atuais estão chegando a essa concepção, como vemos pelo conceito moderno de matéria como concentração de energia. Alguns estudiosos não compreenderam bem esta posição doutrinária e pensam que matéria e Espírito são a mesma coisa. Kardec e os Espíritos negam a concepção abstraia do Espírito, conforme a teologia e a metafísica antiga, porque essa concepção torna o Espírito inacessível ao pensamento humano. Por isso Kardec afirma que a alma (Espírito encarnado, que anima o corpo) ou o Espírito (o ser desencarnado) é alguma coisa. O mesmo acontece hoje na Parapsicologia, quando Rhine e seus companheiros constatando que o pensamento não se sujeita às leis físicas, afirmam a sua natureza extrafísica, evitando adotar a expressão espiritual, que levaria muitos a uma interpretação teológica. O estudante de Espiritismo deve atentar bem para este problema. (N. do T.)

 

*Eis a resposta de um Espírito a respeito do assunto:*

— *”O que uns chamam perispírito é o mesmo que outros chamam de envoltório fluídico”. Eu diria, para me fazer compreender de maneira mais lógica, que esse fluido é a perfectibilidade dos sentidos, a extensão da vista e do pensamento. Mas me refiro aos Espíritos elevados.*

*Quanto aos Espíritos inferiores, estão ainda completamente impregnados de fluidos terrenos; portanto, são materiais, como podeis compreender. Por isso sofrem fome, frio, etc., sofrimentos que não podem atingir os Espíritos superiores, visto que os fluidos terrenos já foram depurados no seu pensamento, quer dizer, na sua alma. Para progredir, a alma necessita sempre de um instrumento, sem o qual ela não seria nada para vós, ou melhor, não o poderíeis conceber. O perispírito, para nós, Espíritos errantes, é o instrumento pelo qual nos comunicamos convosco, seja indiretamente, por meio do vosso corpo ou do vosso perispírito, seja diretamente com a vossa alma. Vem daí a infinita variedade de médiuns e de comunicações.*

Resta agora o problema científico, referente à própria essência do perispírito, que é outro assunto. Compreendei primeiro a sua possibilidade lógica (9). Resta, a seguir, a discussão da natureza dos fluidos, que é por enquanto inexplicável, pois a Ciência não conhece o suficiente a respeito, mas chegará a conhecê-lo se quiser avançar com o Espiritismo. *O perispírito pode variar de aparência, modificar-se ao infinito; a alma é a inteligência, não muda sua natureza* (10). “Neste assunto não podeis avançar, pois é uma questão que não pode ser explicada. Julgais que também não investigo, como vós? Vós pesquisais o perispírito, e nós atualmente pesquisamos a alma. Esperai, pois”. – LAMENNAIS.

*Assim, os Espíritos que podemos considerar adiantados ainda não puderam sondar a natureza da alma. Como poderíamos fazê-lo? É, pois uma perda de tempo perscrutar o princípio das coisas que, como ensina O Livro dos Espíritos (n° 17 e 49), pertence aos segredos de Deus. Pretender descobrir, por meio do Espiritismo, o que ainda não é do alcance da Humanidade, seria desviá-lo do seu verdadeiro objetivo, fazer como a criança que quisesse saber tanto quanto o velho. O essencial é que o homem aplique o Espiritismo no seu aperfeiçoamento moral*. O mais é apenas curiosidade estéril e quase sempre orgulhosa, cuja satisfação não o faria avançar sequer um passo. O único meio de avançar é tornar-se melhor,

Os Espíritos que ditaram o livro que traz o seu nome provaram a própria sabedoria ao respeitarem, no tocante ao princípio das coisas, os limites que Deus não nos permite passar, deixando aos Espíritos sistemáticos e presunçosos a responsabilidade das teorias prematuras e erróneas, mais fascinantes do que sérias, e que um dia cairão ao embate da razão, como tantas outras oriundas do cérebro humano. Só disseram o justamente necessário para que o homem compreenda o seu futuro e assim encorajá-lo na prática do bem. {Ver a seguir na Segunda Parte, cap. l: Ação dos Espíritos sobre a matéria).

&

 Comprenez d’abord moralement. diz o original. A tradução geralmente usada: Compreendei primeiro moralmente é literal, mas não corresponde ao sentido do texto, pois moralmente não tem, na nossa língua, todas as acepções do francês. No original isso quer dizer, segundo o leitor pode verificar num bom dicionário francês: segundo as possibilidades do campo das opiniões ou do sentimento. (Ver, por exemplo, os dicionários Larousse ou Quillet). (N. do T.)

(10) O texto francês disse: Lê perisprít peut varier et changer à l’lnfinit: l´âme est Ia pensée: elle ne change pás de nature. As traduções, em geral, são literais, mas não correspondem ao sentido do texto. La pensée, no caso, quer dizer inteligência, segundo a proposição cartesiana vigente na época: o pensamento é o atributo essencial do Espírito e a extensão é o da matéria. Consulte-se o verbete pensée num bom dicionário francês.

 

Dizer hoje, e particularmente em português, que a alma é o pensamento equivale a deixar o leitor em dúvida quanto ao sentido da frase e quanto ao significado da palavra pensamento no Espiritismo, onde a alma como o Espírito, são o principio inteligente e, portanto a inteligência em sentido lato, origem do pensamento. (N. do T.)