Este Blog tem a finalidade de divulgar estudos e aprendi, tendo por prisma de visão Allan Kardec.

VII CAPÍTULO

BICORPOREIDADE E TRANSFIGURAÇÃO

APARIÇÕES DE ESPÍRITOS DE VIVOS – HOMENS DUPLOS – SANTO AFONSO DE LIGUORI E SANTO ANTÓNIO DE PÁDUA – VESPASIANO – TRANSFIGURAÇÃO – INVISIBILIDADE

*114. Esses dois fenômenos são variedades de manifestações visuais. Por mais maravilhosos que possam parecer à primeira vista, facilmente se reconhecerá, pelas explicações que deles se podem dar, que não saem da ordem dos fenômenos naturais. Ambos se fundam no princípio de que tudo o que foi dito sobre as propriedades do perispírito após a morte se aplica ao perispírito dos vivos.*

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Sabemos que o Espírito, durante o sono, recobra em parte a sua liberdade, ou seja, que ele se afasta do corpo. E é nesse estado que muitas vezes temos a ocasião de observá-lo.

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*Mas o Espírito, tanto do vivo quanto do morto, tem sempre o seu envoltório semimaterial, que pelas mesmas causas já referidas pode adquirir a visibilidade e a tangibilidade*.

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Há casos bastante positivos que não podem deixar nenhuma dúvida a esse respeito. Citaremos somente alguns exemplos de nosso conhecimento pessoal, cuja exatidão podemos garantir, pois todos estão em condições de acrescentar outros, recorrendo às suas lembranças.

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*115. A mulher de um nosso amigo viu repetidas vezes, durante a noite, entrar no seu quarto, com luz acesa ou no escuro, uma vendedora de frutas da vizinhança que ela conhecia de vista, mas com a qual nunca havia falado. Essa aparição a deixou muito apavorada, tanto mais que a senhora, na época, nada conhecia de Espiritismo e o fenômeno se repetia com frequência. A vendedora estava perfeitamente viva e decerto dormia naquela hora. Enquanto o seu corpo material estava em casa, seu Espírito e seu corpo fluídico estavam na casa da senhora. Qual o motivo? Não se sabe. Nesse caso, um espírita já experimentado lhe teria feito a pergunta, mas a senhora nem se quer teve essa ideia. A aparição sempre se desfazia sem que ela soubesse como, e sempre, após o seu desaparecimento, ela ia ver se todas as portas estavam bem fechadas, assegurando-se de que ninguém poderia ter entrado no seu quarto.*

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Essa precaução mostra que ela estava bem acordada e não era iludida por um sonho. De outra vez ela viu, da mesma maneira, um homem desconhecido, mas um dia viu seu irmão, que então se encontrava na Califórnia. A aparência era tão real que, no primeiro momento, pensou que ele havia regressado e quis falar-lhe, mas ele desapareceu sem lhe dar tempo. Uma carta recebida depois lhe provou que ele não havia morrido.

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*Esta senhora era o que se pode chamar um médium vidente natural. Mas nessa época, como já dissemos, ela nunca ouvira falar de médiuns.*

  1. Outra senhora que reside na província, estando gravemente enferma, viu certa noite, cerca das dez horas, um senhor idoso da sua mesma cidade, que encontrava às vezes na sociedade, mas com o qual não tinha intimidade. Estava sentado numa poltrona ao pé da sua cama e de vez em quando tomava uma pitada de rapé. Parecia velar por ela. Surpresa com essa visita àquela hora, quis perguntar-lhe o motivo, mas o senhor lhe fez sinal para não falar e dormir. Várias vezes, tentou falar-lhe, e de cada vez ele repetia a recomendação. Acabou por adormecer.

Alguns dias depois, já restabelecida, recebeu a visita do mesmo senhor, mas em hora conveniente e de fato em pessoa. Estava vestido da mesma maneira, com a mesma tabaqueira e precisamente com os mesmos gestos. Certa de que ele a visitara durante a doença, agradeceu-lhe o trabalho que tivera. O senhor, muito espantado, disse que há tempos não tinha o prazer de vê-la. A senhora que conhecia os fenômenos espíritas, compreendeu o que se passara, mas não querendo entrarem explicações a respeito, contentou-se em dizer que provavelmente sonhara.

O provável é isso, dirão os incrédulos, os espíritos fortes, os que por essa expressão entendem pessoas esclarecidas. Mas o que consta é que essa senhora não dormia tanto como a outra. — Então sonhava acordada, ou seja, teve uma alucinação. — Eis a palavra final, a explicação de tudo o que não se compreende. Como já refutamos suficientemente essa objeção, prosseguiremos para aqueles que podem compreender-nos.

  1. Eis, porém, um caso mais característico, e gostaríamos de ver como se poderia explicá-lo por um simples jogo de imaginação.

Um senhor, residente na província, jamais quis se casar, malgrado as instâncias da família. Haviam principalmente insistido a favor de uma jovem de cidade vizinha, que ele nunca vira. Certo dia, em seu quarto, foi surpreendido com a presença de uma jovem vestida de branco, a fronte ornada por uma coroa de flores. Ela lhe disse que era a sua noiva, estendeu- lhe a mão, que ele tomou nas suas e notou que tinha um anel. Em poucos instantes tudo desapareceu. Surpreso com essa aparição, e seguro de que estava bem acordado, procurou informar-se se alguém havia chegado durante o dia. Responderam-lhe que ninguém fora visto na casa.

Um ano depois, cedendo a novas solicitações de um parente, decidiu-se a ir ver aquela que lhe propunham. Chegou no Dia de Corpus-Christi. Todos voltavam da procissão e uma das primeiras pessoas que viu, ao entrar na casa, foi uma jovem que reconheceu com a que lhe aparecera. Estava vestida da mesma maneira, pois o dia da aparição havia sido também o de Corpus-Christi. Ficou atônito, e a moça, por sua vez, gritou de surpresa e sentiu-se mal. Voltando a si, ela explicou que já vira aquele senhor, nesse mesmo dia, no ano anterior. O casamento se realizou. Estava-se em 1835. Nesse tempo não se tratava dos Espíritos, e além disso ambos são pessoas extremamente positivas, dotadas da imaginação menos exaltada que pode haver no mundo.

 

Poderão dizer que ambos estavam tocados pela ideia da união proposta e que essa preocupação provocou uma alucinação. Mas não se deve esquecer que o futuro marido permanecera tão indiferente ao caso, que passou um ano sem ir ver a noiva que lhe ofereciam. Mesmo admitindo-se essa hipótese, restaria a explicar a semelhança da aparição, a coincidência das vestes com o Dia de Corpus-Christi, e finalmente o reconhecimento físico entre pessoas que jamais se haviam visto, circunstâncias que não podem ser produzidas pela imaginação. (1)

(1) Tenta-se hoje explicar os casos dessa natureza pela telepatia, como se vê no livro de Tyrrell: “Aparições”. Mas essas teorias parapsicológicas são apenas tentativas de escapar à explicação espírita e se tornam ridículas pelos expedientes absurdos de que têm de servir-se. Como notou o prof. Harry Price, da Universidade de Oxford, Inglaterra, o próprio Tyrrell reconhece que sua teoria “deixa grande quantidade de casos sem explicar”. Isso no prefácio do livro. Na verdade, só a teoria explica até hoje, todos os casos, sem as incongruências dessas “hipóteses engenhosas”, como Price chamou a de Tyrrell. (Ver: “Apparitions”, G. N. M. Tyrrell, Pantheon Books, New York, 1952, ou tradução castelhana: “Apariciones”, Editorial Paidós, Buenos Aires, Argentina, 1965, versão de Juan Rojo). (N. do T.)

 

*118. Antes de prosseguir, devemos responder a uma pergunta que inevitavelmente será feita: como o corpo pode viver enquanto o Espírito se ausenta? Poderíamos dizer que o corpo se mantém pela vida orgânica, que independe da presença do Espírito, como se prova pelas plantas, que vivem e não têm Espírito. Mas devemos acrescentar que, durante a vida, o Espírito jamais se retira completamente do corpo.*

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*Os Espíritos, como alguns médiuns videntes, reconhecem o Espírito de uma pessoa viva por um traço luminoso que termina no seu corpo, fenômeno que jamais se verifica se o corpo estiver morto, pois então a separação é completa. É por meio dessa ligação que o Espírito é avisado, a qualquer distância que estiver da necessidade de voltar ao corpo, o que faz com a rapidez do relâmpago. Disso resulta que o corpo nunca pode morrer durante a ausência do Espírito, e que nunca pode acontecer que o Espírito, ao voltar, encontre a porta fechada, como têm dito alguns romancistas em estórias para recrear.* (O Livro dos Espíritos, n° 400 e seguintes).

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  1. Voltemos ao nosso assunto. O espírito de uma pessoa viva, afastado do corpo, pode aparecer como o de um morto, com todas as aparências da realidade. Além disso, pelos motivos que já explicamos, pode adquirir tangibilidade momentânea. Foi esse fenômeno, designado por bicorporeidade, que deu lugar às estórias de homens duplos, indivíduos cuja presença simultânea se constatou em dois lugares diversos. Eis dois exemplos tirados, não das lendas populares, mas da História Eclesiástica.

Santo Afonso de Liguori foi canonizado antes do tempo exigido por se haver mostrado simultaneamente em dois lugares diferentes, o que passou por milagre.

Santo António de Pádua estava na Espanha e no tempo em que ali pregava, seu pai, que se encontrava em Pádua, ia sendo levado ao suplício, acusado de assassinato. Nesse momento Santo António aparece, demonstra a inocência do pai e dá a conhecer o verdadeiro criminoso que, mais tarde, sofreu o castigo. Constatou-se que naquele momento Santo António não havia deixado a Espanha. Santo Afonso, evocado e interrogado por nós sobre o fato referido, deu as seguintes respostas: (2)

(2) Os Espíritos elevados não se recusam a ensinar os que sinceramente desejam aprender. A Evocação é um apelo humilde e não uma fórmula exigente. Kardec só fazia as evocações que fossem aprovadas pelo guia da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que era São Luís. – Veja-se, na Revista Espírita, a secção Palestras Familiares de Além-túmulo e a secção de boletins dos trabalhos da Sociedade. (N. do T.)

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*1. Poderias dar-nos a explicação desse fenômeno?

— Sim. Quando o homem se desmaterializou completamente por sua virtude, tendo elevado sua alma a Deus, pode aparecer em dois lugares ao mesmo tempo. Eis como: o Espírito encarnado, sentindo chegar o sono, pode pedir a Deus para se transportar a algum lugar. Seu Espírito ou sua alma, como quiseres, abandona então o corpo, seguido de uma porção do seu perispírito, e deixa a matéria imunda num estado vizinho da morte. Digo vizinho da morte porque o corpo permanece ligado ao perispírito e a alma à matéria, por um liame que não pode ser definido. O corpo aparece então no lugar pedido. Creio que é tudo o que desejas saber.*

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  1. *Isso não nos dá a explicação da visibilidade e da tangibilidade do perispírito?

— Estando desligado da matéria, segundo o seu grau de elevação o Espírito pode se tornar tangível à matéria.

  1. É indispensável o sono do corpo para o aparecimento do Espírito em outros lugares?

A alma pode se dividir quando se deixa levar para longe do corpo. Pode ser que o corpo não durma, embora seja isso muito raro, mas então não estará em perfeita normalidade. Estará sempre mais ou menos em êxtase.* (3)

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(3) Ernesto Bozzano relata casos de comunicações por psicografia ou aparição de pessoas em estado de vigília, mas sempre em momentos de distração ou cochilo. As pesquisas parapsicológicas atuais consideram esses casos como de telepatia, mas sempre admitindo ) um estado de inconsciência ou semiconsciência como condição necessária. Muitos parapsicólogos já admitem o fenômeno de “projeção do eu” que corresponde à “irradiação da alma” de que trata Kardec na nota seguinte à explicação de Santo Alonso. (N. do T.)

 

*Nota – A alma não se divide, no sentido literal da palavra. Ela irradia em várias direções e pode assim manifestar-se em muitos lugares, sem se fragmentar. É o mesmo que se dá com a luz ao refletir-se em muitos espelhos.*

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  1. Estando um homem mergulhado no sono, enquanto seu Espírito aparece ao longe, que aconteceria se fosse subitamente despertado?

 

— Isso não aconteceria, porque se alguém tivesse a intenção de acordá-lo o Espírito voltaria ao corpo, antecipando a intenção, pois o Espírito lê o pensamento.

Nota – Explicação inteiramente idêntica nos foi dada muitas vezes por Espíritos de pessoas mortas ou vivas. Santo Afonso explica o fato da presença dupla, mas não oferece a teoria da visibilidade e da tangibilidade.

 

  1. Tácito refere-se a um caso semelhante.

Durante os meses que Vespasiano passou em Alexandria, esperando a volta periódica dos ventos estivais e da estação em que o mar oferece segurança, muitos prodígios aconteceram, pelos quais se manifestou a proteção do céu e o interesse dos deuses por aquele príncipe.

Esses prodígios aumentaram o desejo de Vespasiano de visitar a morada dos deuses para consultá-los a respeito do Império. Ordenou que o templo fosse fechado para todos. Entrou e estava inteiramente atento ao que o oráculo ia pronunciar, quando percebeu atrás dele um dos egípcios mais importantes, chamado Basilido, que ele sabia estar doente em lugar distante muitos dias de Alexandria. Perguntou aos sacerdotes se Basilido viera ao templo naquele dia, informou-se com os transeuntes se o tinham visto na cidade e enviou homens a cavalo e assegurou-se de que, no momento, ele se encontrava a oitenta milhas de distância. (1.609,344 metros)         Então não teve mais dúvidas de que a visão era sobrenatural e o nome de Basilido ficou sendo para ele um oráculo. (Tácito, Histórias, livro IV, caps. 81 e 82, tradução de Burnouf.)(4)

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*Este episódio histórico adquire maior importância quando sabemos que os egípcios se dedicavam a práticas de desdobramento ou “projeção do eu”, servindo-se até mesmo de drogas alucinógenas em seus templos. Experiências atuais confirmam esses fatos*(N. do T.)

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*121. A pessoa que se mostra simultaneamente em dois lugares diversos tem, portanto dois corpos. Mas desses corpos só um é real, o outro não passa de aparência. Pode-se dizer que o primeiro tem a vida orgânica e o segundo a anímica. Ao acordar os dois corpos se reúnem e a vida anímica penetra o corpo material. Não parece possível, pois não temos exemplos, e a razão parece demonstrar que, quando separados, os dois corpos possam gozar simultaneamente e no mesmo grau da vida ativa e inteligente. Ressalta, ainda, o que acabamos de dizer, que o corpo real não poderia morrer enquanto o corpo aparente permanece visível: a aproximação da morte chama sempre o Espírito para o corpo, mesmo que só por um instante. Disso resulta também que o corpo aparente não poderia ser assassinado, pois não é orgânico e nem formado de carne e osso: desaparece no momento em que se quiser matá-lo.* (5)

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Ver na Revista Espírita de janeiro de 1859, o artigo O Duende de Bayonne; de maio 1869. O liame entre o Espírito e o corpo; de novembro de 1859. A alma errante; de janeiro de 1860. Espírito de um lado e corpo de outro; março de 1860, Estudos sobre o Espírito de pessoas vivas, o doutor V e a senhorita l; de abril de 1860, O fabricante de São Petersburgo, aparições tangíveis; de novembro de 1860, História de Maria d’ Agreda: de julho de 1861. Uma aparição providencial. (Nota de Allan Kardec).

 

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*122. Passemos a tratar do segundo fenômeno, o da transfiguração, que consiste na modificação do aspecto de um corpo de vivo.*

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*Eis, a respeito, um caso cuja perfeita autenticidade podemos garantir, ocorrido entre os anos de 1858 e 1859, nas cercanias de Saint-Ettiénne.

Uma jovem de uns quinze anos gozava da estranha faculdade de transfigurar, ou seja, de tomar em dados momentos todas as aparências de algumas pessoas mortas. A ilusão era tão completa que se creditava estar na presença da pessoa, tamanha a semelhança dos traços do rosto, do olhar, da tonalidade da voz e até mesmo das expressões usuais na linguagem. Esse fenômeno repetiu-se centenas de vezes, sem qualquer interferência da vontade da jovem. Muitas vezes tomou a aparência de seu irmão, falecido alguns anos antes, reproduzindo-lhe não somente o semblante, mas também o porte e a corpulência.*

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*Um médico local, que muitas vezes presenciara esses estranhos fenômenos, querendo assegurar-se de que não era vítima de ilusão, fez interessante experiência. Colhemos as informações dele mesmo, do pai da moça e de muitas outras testemunhas oculares, bastante honradas e dignas de fé. Teve ele a ideia de pesar a jovem no seu estado normal e durante a transfiguração, quando ela tomava a aparência do irmão que morrera aos vinte anos e era muito mais forte do que ela. Pois bem: verificou que na transfiguração peso da moça era quase o dobro.*

*A experiência foi conclusiva, sendo impossível atribuir a aparência a uma simples ilusão de ótica. Tentemos explicar esse fato, que sempre foi chamado de milagre mas que chamaremos simplesmente de fenômeno.*

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*123. A transfiguração pode ocorrer, em certos casos, por uma simples contração muscular que dá à fisionomia expressão muito diferente, a ponto de tornar a pessoa irreconhecível. Observamo-la frequentemente com alguns sonâmbulos. Mas, nesses casos, a transformação não é radical. Uma mulher poderá parecer jovem ou velha, bela ou feia, mas será sempre mulher e seu peso não aumentará diminuirá. No caso de que tratamos é evidente que há algo mais. A teoria do perispírito nos vai pôr no caminho.*

*Admite-se em princípio que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências. Que por uma modificação das disposições moleculares, pode lhe dar a visibilidade, a tangibilidade e em consequência a opacidade. Que o perispírito de uma pessoa viva, fora do corpo pode passar pelas mesmas transformações e que essa mudança de estado se realiza por meio da combinação dos fluidos.*

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*Imaginemos então o perispírito de uma pessoa viva, não fora do corpo, mas irradiando ao redor do corpo de maneira a envolvê-lo como espécie de vapor. Nesse estado ele pode sofrer as mesmas modificações de quando separado. Se perder a transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, velar-se como se estivesse mergulhado nevoeiro. Poderá mesmo mudar de aspecto, ficar brilhante, de acordo com a vontade ou o poder do Espírito. Outro Espírito, combinando o fluido com esse, pode substituir a aparência dessa pessoa, de maneira que o corpo real desapareça, coberto por um envoltório físico exterior cuja aparência poderá variar como o Espírito quiser.*

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*Essa parece ser a verdadeira causa do fenômeno estranho e raro, convém dizer, da transfiguração. Quanto à diferença de peso, explica-se da mesma maneira que a dos corpos inertes. O peso do próprio corpo não varia, porque a sua quantidade de matéria não aumenta, mas o corpo sofre a influência de um agente exterior que pode aumentar-lhe ou diminuir-lhe o peso relativo, segundo explicamos nos números 78 e seguintes. É provável, portanto, que a transfiguração na forma de uma criança diminua o peso de maneira proporcional.*

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*124. Concebe-se que o corpo possa tomar uma aparência maior que a sua ou das mesmas dimensões, mas como poderia tornar-se menor, do tamanho de uma criança, como acabamos de dizer? Nesse caso, o corpo real não deveria ultrapassar os limites do corpo aparente? Por isso não dizemos que o fato se tenha verificado, mas quisemos apenas mostrar, referindo-nos à teoria do peso específico, que o peso aparente poderia também diminuir.

Quanto ao fenômeno em si, não afirmamos nem negamos a sua possibilidade. No caso de ocorrer, o fato de não se poder explicá-lo satisfatoriamente não o infirmaria. É preciso não esquecer que estamos no começo desta ciência e que ela ainda está longe de haver dito sua última palavra sobre este ponto, como sobre muitos outros. Aliás, as partes excedentes do corpo poderiam perfeitamente ser tornadas invisíveis.*

*A teoria do fenômeno da invisibilidade ressalta naturalmente das explicações precedentes e das que se referem ao fenômeno de transportes, n° 96 e seguintes.* (6) &

 

*Há numerosos casos de observação de uma máscara transparente sobre o rosto do médium, reproduzindo o rosto do Espírito comunicante. Observamos um desses casos em 1946, em São Paulo, com o médium Urbano de Assis Xavier. Nesses casos, como se vê, acima, a máscara se forma pela combinação fluídica do perispírito do médium com o do Espírito comunicante. É fenômeno de sintonia e não de penetração do Espírito no corpo médium.* (N. do T.)

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  1. Teríamos ainda de falar do estranho fenômeno dos agêneres, que por mais extraordinário que possa parecer à primeira vista, não é mais sobrenatural do que os outros. Mas como já o explicamos na Revista Espírita (fevereiro de 1859) achamos inútil repetir aqui os seus detalhes. (7)

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*Como se vê, a teoria dos agêneres se encontra apenas na Revista Espírita, o que ressalta a importância dessa coleção de Kardec, somente agora publicada em nossa língua* (N. do T.)

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Diremos apenas que é uma variedade de aparições tangíveis. É uma condição em que certos Espíritos podem revestir momentaneamente as formas de uma pessoa viva, a ponto de produzir perfeita ilusão. (Do grego: a, privativo, e géine, géinomai, gerado: não-gerado.) (8)

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*Estas explicações de Kardec foram posteriormente confirmadas por numerosas experiências científicas e ocorrências espontâneas, em todas as partes do mundo. Nada a não ser hipóteses gratuitas, que caíram sucessivamente por si mesmas, até hoje pôde pode contradizer as teorias apresentadas neste capítulo. As experiências metapsíquicas, desde as realizadas pelo prof. KarI Friedrik Zõlner, da Universidade de Leipzig, na Alemanha, com notável equipe de pesquisadores, até as experiências famosas de Richet, Gustave Geley, Eugene Osty, Paul Gibier, na França, explicam-se por estas teorias. Recentemente, no campo das pesquisas parapsicológicas, mais restritas e cautelosas, a confirmação vem se fazendo da mesma maneira. As experiências de Soal e Wathely Carington, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, com levitação e voz direta; as de Harry Price, da Universidade de Oxford, com telecinesia (movimento, ocultação e reaparição de Objetos); os relatos de Louise Rhine, de Duke University, EUA, sobre “alucinações visuais referentes a mortos” e os de KarI Gustav Jung no mesmo sentido provam isso* (N. Do T.) 

Allan Kardec

livro dos médiuns.

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Entretons…

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Entre o corpo e a alma

Uma sentença e uma palma

Coração e consciência

Coração me aconselha

Consciência me alerta

A impermanência é tão certa

Que é melhor não errar!

&

Entre o corpo e a alma

Tantas vidas e causos

De um acaso sem causas

Amores e dores

E flores caídas

Na estrada envelhecida!

&

Entre a alma e o corpo

O amor é um pouco

Do que é só raiz

Riscado á giz

Desejo e vontade

De quem por fora quer ser feliz!

&

Entre a alma e o corpo

Há um pouco de tempo

Remendos e momentos

De quem chega pra ir

&

Entre o tempo e a vida

Sorriso e ferida no mesmo banquete

Como tenor e falsete na mesma canção

Pensamento e voz

E a alma ao meio

Palavra e retrós

Uma linha á sós

Entre o amor e o devaneio

&

Entre o lápis e o papel

A professora e o céu

Crianças e sonhos de um mundo melhor

Entre a flor e o perfume

O amor é o lume á sobreviver

A alma, a vida e o tempo,

Pingentes da Criação

Poesia e canção

Luz e discernimento!

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Ademário da Silva

15 de outubro de 2018.

 2 - Bebéko na creche

Simplesmente vida!

*&*

Misturei o dia com a luz da noite

Pendurei estrelas no telhado só

Aspirei o vento que trazia versos

E rezei um terço no altar da luz

Conversei silente com a saudade muda

Respirei arruda no jardim do dia

E brinquei com a vida nos meus pés criança

Era amarelinha, os riscos no chão

Bem veloz dormia o pião na mão

De manhã a brisa umedecia rimas

Na beira da praia eu sentia o sal

No meio da vida me molhei de chuvas

Vi crescer jabuticabas lá meu quintal

Sabiá regente pela madrugada canta a natureza

Água fervente no fogão á lenha

E o café embrenha pelos poros d’alma

E mamãe cantando uma oração antiga

Põe sorriso sério na boca do tempo

No seio da vida o sonho desperta

Pelos calos duros das mãos que trabalha

Na beira da taipa pão de queijo assa

E o meu pai mais pensa do que imagina

Copo de café é o cheiro do dia

E o dia desveste a sombra da noite

E as estrelas correm pra detrás das nuvens   

E a lua se esconde atrás do horizonte

E papai á pé vai mover montanhas

E o dia se estende sobre a obrigação

Num instante mágico todo mundo vive

Animais e plantas, flores e peixes, frutas e trigos,

Na raiz da vida tem,… Tem força divina

Toda menina tem a força da vida

E o Supremo Ser respirando avencas

E o templo infinito é nossa consciência

Meio dia e o sol, roupa seca no varal,

Predicados e verbos, adição e ciências,

No quadro negro da escola é advertência

Professora ensina letra e paciência

E o tempo escorre entre a noite e o dia

Poesia acende o amor à vida

Gratidão é o verso de cada momento

Emoção é reza de reconhecimento

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Ademário da Silva

13 de outubro de 2018.

 

 

 flores mistas

Saudadeando em versos!

*&*

Abre a saudade como se fosse uma flor

Em cada pétala um sonho, um desejo e uma dor.

Em seu perfume o doce sabor de um beijo,

O olhar e um abraço de amor…

Falas e risos, tato e contato,

Trato e calor no descaso do tempo

 

Sinta essa flor como se fosse à saudade

E beba em sonho o desejo de uma verdade

E nos olhos da alma o brilho da serenidade

Da certeza do reencontro na imortalidade

Que a natureza da vida oferece nos campos da eternidade

 

Abre a flor rimando o perfume da fraternidade

Não, não deixe a tristeza ditar os versos da separação.

E o mau jeito da melancolia rimado em lágrimas

 Molhando teus olhos que um dia amou

E hoje olhando paisagens e fisionomias

Tem no coração pulsação solitária

Não importa o nome, o rosto e a relação,

A saudade não é sentença de condenação

 

Amanhã numa outra dimensão

O reencontro desfaz a razão do abandono

Deus não tem histórias de erros

O desterro é a dor de um poema

Dilema é o desacerto da resignação

 

0 - Raízes...Saudade é a flor da presença sem tato

É o trato entre o silêncio e o desejo

Como se fosse uma ânsia no vácuo

Confia que um dia a noite não vem

E a saudade se transforma no bem de quem tem…

Um amor, uma rima e dois corações…

*&*

Ademário da Silva

08 de outubro de 2018.

 

 

 

VI CAPÍTULO VI

MANIFESTAÇÕES VISUAIS

PERGUNTAS SOBRE AS APARIÇÕES – ENSAIO TEÓRICO – ESPÍRITOS GLÓBULOS – TEORIA DA ALUCINAÇÃO

  1. De todas as manifestações espíritas, as mais interessantes são sem dúvida aquelas pelas quais os Espíritos podem se tornar mais visíveis. Pela explicação desse fenômeno veremos que ele, como os outros, nada tem de sobrenatural. Damos inicialmente as respostas dos Espíritos a respeito do assunto.

 

*1. Os Espíritos podem se tornar visíveis?

— Sim, sobretudo durante o sono. Entretanto, certas pessoas os veem também no estado de vigília, mas isso é mais raro.

Nota – Enquanto o corpo repousa o Espírito se desprende dos laços materiais, fica mais livre e pode mais facilmente ver os outros Espíritos e entrar em comunicação com eles. O sonho é uma recordação desse estado. Quando não nos lembramos de nada, dizemos que não sonhamos, mas a alma não deixou de ver e de gozar da sua liberdade. Tratamos aqui mais particularmente das aparições no estado de vigília. — Sobre o estado do Espírito durante o sono ver o n° 409 de O Livro dos Espíritos. *

*2. Os Espíritos que se manifestam pela visão pertencem a uma determinada categoria?

— Não; podem pertencer a todas as categorias, das mais elevadas às mais inferiores.

  1. É permitido a todos os Espíritos manifestarem-se visivelmente?

—Todos o podem, mas nem sempre têm a permissão nem o desejo de fazê-lo.

  1. Com que fim os Espíritos se manifestam visivelmente?

— Isso depende; segundo sua natureza, o fim pode ser bom ou mau.

  1. Como pode ser permitido, quando o fim é mau?

— É então para pôr à prova aqueles que os veem. A intenção do Espírito pode ser má, mas o resultado pode ser bom.

  1. Qual o objetivo dos Espíritos que se fazem ver com má intenção?

—Assustar e muitas vezes vingar-se.

  1. Qual o objetivo dos Espíritos que aparecem com boa intenção?

— *Consolar os que lamentam a sua partida; provar-lhes que continuam a existir e estão perto deles; dar conselhos e algumas vezes pedir assistência para si mesmos.

  1. Que inconveniente haveria em ser permanente e geral a possibilidade de ver os Espíritos? Não seria essa uma forma de tirar a dúvida aos mais incrédulos? *

—* Estando o homem constantemente cercado de Espíritos, o fato de vê-los sem cessar o perturbaria, constrangendo-o nas suas atividades, e lhe tiraria a iniciativa na maioria dos casos, enquanto que, julgando-se só, pode agir com mais liberdade. Quanto aos incrédulos, dispõem de muitos meios para se convencerem, caso queiram aproveitá-los e se não estiverem cegos pelo orgulho. Sabes de pessoas que viram e nem por isso acreditam, pois dizem que se trata de ilusões. Não te inquietes por essa gente, de que Deus se encarrega. *

 

Nota – Haveria tanto inconveniente de estarmos sempre na presença dos Espíritos, como em vermos o ar que nos cerca ou as miríades de animais microscópicos que pululam ao nosso redor. Do que devemos concluir que o que Deus faz é bem feito e que Ele sabe melhor do que nós o que nos convém.

 

*9. Se a visão dos Espíritos tem inconvenientes, porque é permitida em alguns casos?

— Para dar uma prova de que nem tudo morre com o corpo e de que a alma conserva a sua individualidade após a morte. Essa visão passageira é suficiente para dar a prova e atestar a presença dos amigos ao vosso lado, não tendo os inconvenientes da visão incessante. *

 

*10. Nos mundos mais adiantados que o nosso a visão dos Espíritos é mais frequente?

—Quanto mais o homem se aproxima da natureza espiritual, mais facilmente entra em relação com os Espíritos. É a grosseria do vosso corpo que torna mais difícil e mais rara a percepção dos seres etéreos. *

 

*11. É racional assustar-se com a aparição de um Espírito?

—Aquele que refletir a respeito há de compreender que um Espírito, seja qual for, é menos perigoso que um vivo. Os Espíritos, aliás, estão por toda parte e não tens a necessidade de vê-los para saber que podem estar ao teu lado. O Espírito que desejar prejudicar alguém pode fazê-lo sem ser visto, e até com mais segurança. Ele não é perigoso por ser Espírito, mas pela influência que pode exercer no pensamento do homem, desviando-o do bem e impelindo-o ao mal.*

 

Nota – As pessoas que têm medo da solidão e do escuro, raramente compreendem a causa do seu pavor. Elas não saberiam dizer do que têm medo, mas certamente deviam recear-se mais de encontrar homens do que Espíritos, porque um malfeitor é mais perigoso em vida do que após a morte.

*Uma senhora de nosso conhecimento teve uma noite, em seu quarto, uma aparição tão bem definida que acreditou estar na presença de alguém e sua primeira sensação foi de pavor Certificando-se de que ali não havia nenhuma pessoa, disse a si mesma: parece que se trata apenas de um Espírito; posso dormir tranquila.*

 

*12. Aquele que vê um Espírito poderia conversar com ele?

— Perfeitamente. E é justamente o que se deve fazer nesse caso, perguntando quem é o Espírito, o que deseja e o que se pode fazer por ele. Se o Espírito for infeliz e sofredor, o testemunho de comiseração o aliviará. Se for um Espírito benévolo, pode acontecer que tenha a intenção de dar bons conselhos.

  1. Como o Espírito poderia responder?

— As vezes falando, como uma pessoa viva; a maioria das vezes por uma transmissão de pensamentos.*

 

  1. Os Espíritos que aparecem com asas realmente as têm, ou essas asas são apenas uma aparência simbólica?

— Os Espíritos não têm asas. Não precisam delas, pois podem transportar-se por toda parte como Espíritos. Aparecem dessa forma porque querem impressionar a pessoa a que se mostram. Uns aparecerão com suas roupas habituais, outros envolvidos em panos, alguns com asas, como atributo da categoria espiritual que representam.

  1. As pessoas que vemos em sonho são sempre as que aparentam ser?

— São quase sempre as mesmas pessoas que o teu Espírito vai encontrar ou que te vêm encontrar.

 

*16. Os Espíritos zombadores não poderiam tomar a aparência das pessoas que nos são caras e nos iludirem?

— Tomam aparências fantasiosas para se divertirem a vossa custa, mas há coisas com as quais não lhes é permitido brincar.

  1. Como o pensamento é uma espécie de evocação, compreende-se que possa atrair o Espírito. Mas por que, quase sempre, as pessoas em que mais pensamos, que ardentemente desejamos rever, jamais aparecem nos sonhos, enquanto vemos outras que não nos interessam e nas quais nunca pensamos?*

*— Os Espíritos nem sempre tem a possibilidade de manifestar-se visivelmente, mesmo em sonhos e apesar do desejo que tenhamos de vê-los. Causas independentes da sua vontade podem impedi-los. Quase sempre é também uma prova que o mais ardente desejo não pode afastar. Quanto às pessoas que não interessam, embora não penseis nelas, é possível que pensem em vós. Aliás, não podeis fazer uma ideia das relações no Mundo dos Espíritos, onde reencontrais uma multidão de conhecidos íntimos, antigos e novos, dos quais nem tendes a menor ideia quando acordados.*

Nota Quando não há nenhum meio de controlar as visões ou aparições, podemos sem dúvida levá-las à conta de alucinações, mas quando elas são confirmadas pelos acontecimentos não poderíamos atribuí-las à imaginação. Essas são, por exemplo, as aparições do momento da morte, em sonho ou no estado de vigília, de pessoas em quem não pensávamos e que, por diversos sinais, revelam as circunstâncias absolutamente inesperadas do seu falecimento. Viram-se tantas vezes cavalos empinarem e empacarem diante de aparições que assustavam os cavaleiros.

*Se a imaginação é alguma coisa entre os homens, seguramente nada é para os animais. Aliás, se as imagens que vemos em sonho fossem sempre consequência das preocupações de vigília, nada explicaria o fato, tão frequente, de jamais sonharmos com as coisas em que mais pensamos.*

 

  1. Por que certas visões são mais freqüentes nas doenças?

— Elas ocorrem igualmente no estado de perfeita saúde, mas na doença os laços materiais se afrouxam e a fraqueza do corpo deixa mais livre o Espírito, que entra mais facilmente em comunicação com outros Espíritos.

  1. As aparições espontâneas parecem mais freqüentes em certas regiões. Alguns povos são melhor dotados que outros para essas manifestações?

— Fizeste um relatório geral das aparições?

 

*As aparições, os ruídos e todas as manifestações expandem-se igualmente por toda a Terra, mas apresentam características próprias segundo os povos em que se verificam.*

 

Entre alguns, por exemplo, a escrita é pouco desenvolvida e não há médiuns escreventes; entre outros eles abundam; além disso há mais frequência de manifestações ruidosas e de movimento de objetos que de comunicações inteligentes, porque estas são menos apreciadas e procuradas.

 

*20. Por que as aparições se verificam mais à noite?

— Pela mesma razão que vês as estrelas à noite e não em pleno dia. A claridade intensa pode ofuscar uma aparição delicada. Mas é errôneo supor que a noite tenha algo de especial para isso. Interpela todos os que as viram, e constatarás que a maioria ocorre de dia.*

 

Nota – Os fenômenos de aparição são muito mais freqüentes e gerais do que se pensa, mas muitas pessoas não os revelam por medo do ridículo e outras os atribuem à ilusão. Se parecem mais abundantes em certos povos é porque esses conservam mais cuidadosamente as tradições verdadeiras ou falsas, quase ampliadas pelo fascínio do maravilhoso, a que o aspecto das localidades se presta mais ou menos. A credulidade faz ver, então, efeitos sobrenaturais nos fenômenos mais vulgares: o silêncio da solidão, o escarpamento dos caminhos, o rumorejar das florestas, o estrépito das tempestades, o eco das montanhas, a forma fantástica das nuvens, as sombras, a miragens, tudo enfim se presta a ilusão das imaginações simples ingênuas, que propagam de boa fé aquilo que viram ou que acreditam ter visto. Mas ao lado da ficção há o real, que o estudo sério do Espiritismo consegue livrar dos acessórios ridículos da superstição.

*

  1. Escarpa

Significado de Escarpa Por josé luiz (SP) em 26-09-2009

*Escarpa é uma elevação súbita do solo, superior à 45 º , caracterizada pela formação de um penhasco ou uma encosta íngreme. A superfície desta encosta íngreme é chamada de ¨rosto da escarpa¨. As escarpas são geralmente formadas pela erosão de rochas sedimentares ou pelo movimento vertical da crosta terrestre, ao longo de uma falha geológica.

O têrmo escarpa vem do italiano ¨scarpa¨ e também é
chamado de falésia.*

 

  1. A visão dos Espíritos ocorre no estado normal ou somente durante o êxtase?

— Pode ocorrer em condições perfeitamente normais; entretanto, as pessoas que os veem estão quase sempre num estado especial, próximo do êxtase que lhes dá uma espécie de dupla vista, (ver O Livro dos Espíritos, n° 447).

 

*22. Os que veem os Espíritos o fazem com os olhos?

— Eles pensam que sim, mas na realidade é a alma que vê. A prova é que podem vê-los de olhos fechados.

  1. Como o Espírito pode tornar-se visível?

— O princípio é o mesmo de todas as manifestações e está nas propriedades do perispírito, que pode sofrer diversas modificações, à vontade do Espírito.*

 

*24. O Espírito propriamente dito pode fazer-se visível ou só o faz com a ajuda do perispírito?

— Na vossa situação material o Espírito só pode manifestar-se com a ajuda do seu invólucro semimaterial. É este o intermediário pelo qual eles agem sobre os vossos sentidos. Graças a esse invólucro é que eles aparecem algumas vezes com a forma humana ou outra qualquer, seja nos sonhos ou no estado de vigília, assim a plena luz como na obscuridade.

  1. Poderíamos dizer que é pela condensação do fluido do perispírito que o espírito se torna visível?

— Condensação não é o termo. Trata-se apenas de uma comparação que pode ajudar a compreender o fenômeno, pois não há realmente uma condensação. Pela combinação dos fluidos produz-se no perispírito uma disposição especial, sem possibilidade de analogia para vós, e que o torna perceptível.*

*26. Os Espíritos que aparecem são sempre inacessíveis ao fato e não podemos pegá-los?

— No estado normal de Espíritos não podemos pegá-los, como não pegamos os sonhos. Não obstante, podem impressionar o nosso tato e deixar sinais de sua presença. Podem mesmo, em alguns casos, tornar-se momentaneamente tangíveis, o que prova a existência de matéria entre eles e vós.*

*27. Todos são aptos a ver os Espíritos?

— Durante o sono, todos. Mas não quando estão acordados. No sono, a alma vê diretamente; quando estais acordados ela sofre em maior ou menor grau a influência dos órgãos. Eis porque as condições não são as mesmas nos dois casos.

  1. Como podemos ver os Espíritos em estado de vigília?*

*— Isso depende do organismo, da facilidade maior ou menor do fluido do vidente de se combinar com o do Espírito. Assim, não basta o Espírito querer mostrar-se; é também necessário que a pessoa a quem se quer mostrar tenha a aptidão para vê-lo.

  1. Essa faculdade pode desenvolver-se pelo exercício?

— Pode, como todas as outras faculdades. Mas é daquelas cujo desenvolvimento natural é melhor do que o provocado, quando corremos o risco de superexcitar a imaginação. A visão geral e permanente dos Espíritos é excepcional e não pertence às condições normais do homem. (1) *

 

(1) *O respeito às leis naturais é um dos princípios espíritas. A mediunidade como todas as faculdades humanas, deve desenvolver-se normalmente, nunca de maneira forçada. *(N. do T.)

 

  1. Pode-se provocar a aparição dos Espíritos?

— Pode-se algumas vezes, mas muito raramente. Ela é quase sempre espontânea. Para provocá-la é necessário que se possua uma faculdade especial.

  1. Os Espíritos podem fazer-se visíveis com outra aparência, além da humana?

—A forma humana é a sua forma normal. O Espírito pode variá-la na aparência, mas conservando sempre o tipo humano.

 

*32. Não podem manifestar-se com a forma de flamas?

— Podem produzir flamas, clarões, como qualquer outro efeito para demonstrar a sua presença, mas essas coisas não são o próprio Espírito. A flama é quase sempre apenas um efeito ótico ou uma emanação do perispírito. Em todos os casos é somente uma parte do perispírito, que só aparece inteiramente nas visões.*

 

(2) *O perispírito só aparece integral nas visões, compreendendo-se o termo visões como manifestações visuais do Espírito em corpo inteiro. Nas outras formas de manifestação apenas projeta as imagens que deseja, como nesse caso das chamas.*(N. do T.)

 

  1. Que pensar da crença que os fogos fátuos são almas ou Espíritos?

— Superstição produzida pela ignorância. A causa física dos fogos fátuos é bem conhecida.

  1. A chama azul que apareceu sobre a cabeça de Servius Tullius, na infância, foi real ou apenas uma lenda?

— Era real, produzida pelo Espírito Familiar que desejava advertir a mãe. Esta médium vidente percebeu uma irradiação do Espírito protetor de seu filho. Os médiuns videntes variam de grau no tocante à percepção, como os médiuns escreventes variam na escrita. Enquanto essa mãe via uma chama outro médium poderia ver o próprio Espírito. (3)

 

 *Servius Tullius, sexto rei de Roma (578-534 a.C.) nasceu escravo de Tarquínio Prisco, que o fez educar, e sucedeu a ele no trono por decisão popular. Ampliou Roma, aumentou suas muralhas ;, estruturou as classes e realizou grandes obras. Era um predestinado. *(N. do T.)

 

*35. Os Espíritos poderiam se apresentar com a forma de animais?

— Isto pode acontecer, mas são sempre Espíritos inferiores os que tomam essas aparências. Mas seriam sempre, em todos os casos, aparências passageiras, pois seria absurdo acreditar que um animal pudesse ser a encarnação de um Espírito. Os animais são sempre animais e nada mais do que isso.(4)*

(4) *Essa afirmação não contraria o principio espírita da evolução. Pelo contrário, o endossa, mostrando apenas que o Espírito (a palavra escrita assim, com “E” maiúsculo, representa o ser espiritual do homem) não pode encarnar no reino animal. Ver Metempsicose. n° 611 a 613 de O Livro dos Espíritos. *(N. do T.)

 

*Nota – Somente a superstição pode levar a crer que certos animais são encarnações de Espíritos. É necessário ter uma imaginação muito condescendente ou muito impressionável para ver algo de sobrenatural nas atitudes às vezes um pouco estranhas que eles tomam, mas o medo frequentemente faz ver aquilo que não existe. Alias o temor nem sempre é a fonte dessa ideia. Conhecemos uma senhora, por sinal muito inteligente, que estimava demais um gato preto, acreditando que ele possuía uma natureza superanimal. Nunca, entretanto ouvira falar de Espiritismo. Se o tivesse conhecido, compreenderia o ridículo da causa de sua predileção, pois a doutrina lhe provaria a impossibilidade dessa metamorfose.*

ENSAIO TEÓRICO SOBRE AS APARIÇÕES

*101. As manifestações mais comuns de aparições ocorrem durante o sono, pelos sonhos: são as visões. Não podemos examinar aqui todas as particularidades que os sonhos podem apresentar.*

*Resumiremos dizendo que eles podem ser: uma visão atual de coisas presentes ou distantes; uma visão retrospectiva do passado; e, em alguns casos excepcionais, um pressentimento do futuro. Frequentemente são também quadros alegóricos que os Espíritos nos apresentam como úteis advertências ou salutares conselhos, quando são Espíritos bons; ou para nos enganarem e entreterem as nossas paixões, se são Espíritos imperfeitos. A teoria abaixo se aplica aos sonhos, como a todos os outros casos de aparições. (Ver O Livro dos Espíritos, n° 400 e seguintes.)

Não ofenderemos o bom senso dos leitores refutando o que há de absurdo e ridículo no que vulgarmente se chama de interpretação dos sonhos.*

(5) *Kardec se refere à arte vulgar de interpretação dos sonhos e não aos processos psicológicos hoje empregados na terapêutica. Quanto a esses processos, referem-se apenas a um aspecto dos sonhos, realmente significativo do ponto de vista psicológico, mas muitas vezes mal interpretado, por falta de visão de conjunto e que escolas como a de KarI Jung já procuram atingir.* (N.do T.)

 

  1. As aparições propriamente ditas ocorrem no estado de vigília, no pleno gozo e completa liberdade das faculdades da pessoa. Apresentam-se geralmente com uma forma vaporosa e diáfana, algumas vezes vaga e indecisa. Quase sempre, a princípio, é um clarão esbranquiçado, cujos contornos vão se desenhando aos poucos. De outras vezes as formas são claramente acentuadas, distinguindo-se os menores traços do rosto, a ponto de se poder descrevê-las com precisão. As maneiras, o aspecto, são semelhantes aos do Espírito quando encarnado.

 

*Podendo tomar todas as aparências, o Espírito se apresenta com aquela que melhor o possa identificar, se for esse o seu desejo. Assim, embora não tenha, como Espírito, nenhum defeito corporal, ele se mostra estropiado, coxo, corcunda, ferido, com cicatrizes, se isso for necessário para identificá-lo. Esopo por exemplo, não é disforme como Espírito, mas se o evocarmos como Esopo, por mais existências posteriores que tenha tido, aparecerá feio e corcunda, com seus trajes tradicionais. Uma particularidade a notar é que, exceto em circunstâncias especiais, as partes menos precisas da aparição são os membros inferiores, enquanto a cabeça, o tronco, os braços e as mãos aparecem nitidamente. Assim, não os vemos quase nunca andar, mas deslizar como sombras.*

 

%Quanto às vestes, ordinariamente se constituem de um planejamento que termina em longas pregas flutuantes. São essas, em resumo, acrescentadas por uma cabeleira ondulante e graciosa, as características da aparência dos Espíritos que nada conservam da vida terrena. Mas os Espíritos comuns, das pessoas que conhecemos, vestem-se geralmente como o faziam nos últimos dias de sua existência.*

 

*Há os que muitas vezes se apresentam com símbolos da sua elevação, como uma auréola ou asas, pelo que são considerados anjos. Outros carregam instrumentos que lembram suas atividades terrenas: assim um guerreiro poderá aparecer com uma armadura, um sábio com seus livros, um assassino com seu punhal, e assim por diante. Os Espíritos superiores apresentam uma figura bela, nobre e serena. Os mais inferiores têm algo de feroz e bestial, e algumas vezes ainda trazem os vestígios dos crimes que cometeram ou dos suplícios que sofreram. O problema das vestes e dos objetos acessórios é talvez o mais intrigante. Voltaremos a tratar disso num Capítulo especial, porque ele se liga a outras questões muito importantes.*

*103. Dissemos que a aparição tem algo de vaporoso. Em alguns casos poderíamos compará-la à imagem refletida num espelho sem aço, que apesar de nítida deixa ver através dela os objetos detrás.*

 

É geralmente assim que os médiuns videntes as distinguem. Eles as veem ir e vir, entrar num apartamento ou sair, circular por entre a multidão com ares de quem participa, ao menos os Espíritos vulgares, de tudo o que se faz ao seu redor, de se interessarem por tudo e ouvirem o que diz. Muitas vezes se aproximam de uma pessoa para lhe assoprar idéias, influenciá-la, quando são Espíritos bons, zombar dela, quando são maus, mostrando-se tristes ou contentes com o que obtiveram.

 

*São em uma palavra, a contraparte do mundo corporal.

É assim esse mundo oculto que nos envolve no meio do qual vivemos sem o perceber, como vivemos entre as miríades de seres do mundo microscópico. A revelação do mundo dos infinitamente pequenos, de que não suspeitávamos, foi feita pelo microscópio; o Espiritismo, servindo-se dos médiuns videntes, nos revelou o mundo dos Espíritos, que é também uma das forças ativas da Natureza. Com a ajuda dos médiuns videntes pudemos estudar o mundo invisível, iniciar-nos nos seus hábitos, como um povo de cegos poderia estudar o mundo dos que veem com o auxílio de algumas pessoas que gozassem da faculdade da visão. (Ver adiante, no cap. XIV, Os Médiuns, o tópico referente aos médiuns videntes.)*

 

*104. O Espírito que deseja ou pode aparecer reveste algumas vezes uma forma ainda mais nítida, com todas as aparências de um corpo sólido, a ponto de dar uma ilusão perfeita e fazer crer que se trata de um ser corpóreo. Em alguns casos, e dentro de certas circunstâncias, a tangibilidade pode tornar-se real, o que quer dizer que podemos tocar, palpar, sentir a resistência e o calor de um corpo vivo, o que não impede a aparição de se esvanecer com a rapidez de um relâmpago. Nesses casos, já não é só pelos olhos que se verifica a presença, mas também pelo tato.*

 

*Se pudéssemos atribuir à ilusão ou a uma espécie de fascinação a ocorrência de uma aparição simplesmente visual, a dúvida já não é mais possível quando a podemos pegar, e quando ela mesma nos segura e abraça. As aparições tangíveis são as mais raras. Mas as que têm havido nestes últimos tempos, pela influência de alguns médiuns potentes (6), inteiramente autenticadas por testemunhos irrecusáveis, provam e explicam os relatos históricos sobre as pessoas que reapareceram após a morte com todas as aparências da realidade. De resto, como já acentuamos, por mais extraordinários que sejam semelhantes fenômenos, perdem todo o caráter de maravilhoso quando se conhece a maneira pela qual se produzem e se compreende que, longe de representarem uma derrogação das leis naturais, apresentam apenas uma nova aplicação dessas leis.*

 

(6) *Entre outros, o Dr. Home. (A esta nota de Kardec devemos acrescentar os fatos atuais, constantes de experiências e observações parapsicológicas). Ver, entre outros, Canais Ocultos da Mente de Louise Rhine.* (N. do T.)

 

*105. O perispírito, por sua própria natureza, é invisível no estado normal. Isso é comum a uma infinidade de fluidos que sabemos existirem e que jamais vimos. Mas ele pode também, à semelhança de certos fluidos, passar por modificações que o tornem visível, seja por uma espécie de condensação ou por uma mudança em suas disposições moleculares, e é então que nos aparece de maneira vaporosa. A condensação pode chegar ao ponto de dar ao perispírito as propriedades de um corpo sólido e tangível, mas que pode instantaneamente voltar ao seu estado etéreo e invisível.*

 

*(É necessário não tomar ao pé da letra a palavra condensação, pois só a empregamos por falta de outra e como simples recurso de comparação).*

 

Podemos entender esse processo ao compará-lo ao do vapor, que pode passar da invisibilidade a um estado brumoso, depois ao líquido, a seguir ao sólido e vice-versa.

Esses diversos estados do perispírito, entretanto, resultam da vontade do Espírito e não de causas físicas exteriores, como acontece com os gases.

 *Espírito nos aparece quando deu ao seu perispírito a condição necessária para se tornar visível. Mas a simples vontade não basta para produzir esse efeito, porque a modificação do perispírito se verifica mediante a sua combinação com o fluido específico do médium. Ora, essa combinação nem sempre é possível, e isso explica porque a visibilidade dos Espíritos não é comum.*

 

*Assim, não é suficiente que o Espírito queira aparecer, nem apenas que uma pessoa o queira ver: é necessário que os fluidos de ambos possam combinar-se, para o que tem de haver entre eles uma espécie de afinidade. É necessário ainda que a emissão de fluido da pessoa seja abundante para operar a transformação do perispírito, e provavelmente há outras condições que desconhecemos. Por fim, é preciso que o Espírito tenha a permissão de aparecer para aquela pessoa, o que nem sempre lhe é concedido, ou pelo menos não o é em certas circunstâncias, por motivos que não podemos apreciar.*

 *Entre esses motivos figuram as condições da prova porque passa a pessoa ou o Espírito, os inconvenientes emocionais para a pessoa, as complicações familiais que poderia resultar e assim por diante.* (N. do T.)

 

*106. Outra propriedade do perispírito é a penetrabilidade, inerente à sua natureza etérea. Nenhuma espécie de matéria lhe serve de obstáculo: ele atravessa a todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. Não há, pois, meios de impedir a entrada dos Espíritos, que vão visitar o prisioneiro em sua cela com a mesma facilidade com que visitam um homem no meio do campo.*

 *As pesquisas parapsicológicas da atualidade confirmam plenamente essa explicação. A escola do Rhine sustenta a inexistência de barreiras físicas para a transmissão do pensamento e a percepção à distância e a escola russa tentou em vão provar o contrário.* (N. do T.)

 

107.As aparições no estado de vigília não são raras nem constituem novidade. Verificaram-se em todos os tempos. A História oferece-nos grande número de casos. Mas sem remontar ao passado, encontramo-la com frequência nos nossos dias. Muitas pessoas as tiveram e as tomaram, no primeiro instante, pelo que se convencionou chamar de alucinações. São freqüentes, sobretudo de pessoas distantes, que vêm visitar parentes e amigos. Muitas vezes não têm um objetivo claro, mas podemos dizer que em geral os Espíritos que assim aparecem são atraídos por simpatia. Que examine cada um as suas lembranças e verá que são poucos os que não conhecem fatos dessa espécie, cuja autenticidade não se poderia pôr em dúvida.

  1. Acrescentaremos às considerações precedentes o exame de alguns efeitos óticos que deram lugar ao estranho sistema dos Espíritos glóbulos.

Nem sempre o ar está inteiramente límpido. É então que as correntes de moléculas aeriformes e sua movimentação, produzida pelo calor, se tornam perfeitamente visíveis. Algumas pessoas tomaram isso por conjuntos de Espíritos agitando-se no espaço. Basta-nos mencionar esta opinião para refutá-la. Mas há outra espécie de ilusão, não menos bizarra, contra a qual se deve também precaver.

O humor aquoso do olho tem alguns pontos mal perceptíveis que perderam algo de sua transparência. Esses pontos são como corpos opacos em suspensão no líquido que os movimenta. Eles projetam no ar ambiente e à distância, aumentados pela refração, pequenos discos aparentes, de um a dez milímetros de diâmetro, que parecem nadar da atmosfera. Vimos pessoas tomarem esses discos por Espíritos que as seguiam por toda parte, e no seu entusiasmo veem figuras nas nuanças da irisação, o que é quase o mesmo que ver uma figura na Lua. Bastaria uma simples observação, feita por elas mesmas, para reconduzi-las à realidade.

 

FÍSICA

(*Propriedade óptica apresentada por certos corpos que decompõem a luz produzindo várias cores do espectro visível.

Por extensão conjunto de reflexos produzidos nos corpos possuidores dessa propriedade. (Nota do estudante)*

 

 

Esses discos ou medalhões, dizem elas, além de acompanhá-las repetem os seus movimentos: vão para a direita e para esquerda, para cima e para baixo, segundo elas movem a cabeça. Isso nada tem de estranho, desde que os discos são projetados pelo globo ocular e devem naturalmente obedecer aos seus movimentos. Se fossem Espíritos, deveriam estar adstritos a um movimento demasiado mecânico para seres inteligentes e livres. Papel, aliás, bem cansativo, mesmo para Espíritos inferiores, e com mais forte razão incompatível coma ideia que fazemos dos Espíritos superiores. É verdade que alguns tomam por maus Espíritos os pontos negros ou moscas amauróticas. (9) (9) Moscas amauróticas são pontos negros que aparecem na visão por motivo de atrofia do nervo ótico, produzindo cegueira parcial ou total sem prejuízo do globo ocular. Amaurose ou gota-serena. (N. do T.)

Os discos, assim como as manchas negras, têm um movimento ondulatório restrito a um certo ângulo, e o que aumenta a ilusão que eles não seguem bruscamente os movimentos da linha visual. A razão é muito simples. Os pontos opacos do humor aquoso, causa primeira do fenômeno, estão em suspensão no liquido e tendem a escer. Sobem com o movimento dos olhos, mas atingindo certa altura, se fixamos o olhar vemos os discos descerem por si mesmos e depois pararem. Sua mobilidade é extrema, pois basta um movimento imperceptível do olho para mudá-los de direção e fazê-los percorrer rapidamente toda a amplitude do arco, no espaço em que a imagem se produz. Enquanto não se provar que essa imagem tem movimento próprio, espontâneo e inteligente, só se pode ver nisso um fenômeno ótico e fisiológico.

Acontece o mesmo com as centelhas produzidas pela contração dos músculos dos olhos, que aparecem em feixes mais ou menos compactos, e que são provavelmente devidos à eletricidade fosforescente da íris, pois em geral se circunscrevem ao círculo desse disco.

Semelhantes ilusões só podem resultar de observação imperfeita. Quem tiver seriamente estudado a natureza dos Espíritos, através dos meios oferecidos pela prática doutrinária, compreenderá quanto elas têm de pueril. Assim como combatemos as teorias temerárias com as quais atacam as comunicações, pois que decorrem da ignorância dos fatos, também devemos procurar destruir as idéias falsas que decorrem mais do entusiasmo do que da reflexão, e que por isso mesmo produzem mais mal do que bem junto aos incrédulos, já naturalmente dispostos a procurar o lado ridículo.

 

*109. O perispírito, como se vê, é o princípio de todas as manifestações. Seu conhecimento nos deu a chave de numerosos fenômenos, permitindo um grande avanço à Ciência Espírita e fazendo-a entrar numa nova senda, ao tirar-lhe qualquer resquício de maravilhoso. Nele encontramos, graças aos próprios Espíritos, pois é bom notar que foram eles que nos indicaram o caminho, a explicação da possibilidade de ação do Espírito sobre a matéria, da movimentação dos corpos inertes, dos ruídos e das aparições. Nele encontraremos a explicação de muitos outros fenômenos ainda por examinar, antes de passar ao estudo das comunicações propriamente ditas. Tanto melhor as compreenderemos, quanto mais nos inteirarmos de suas causas fundamentais. Se bem compreendermos esse princípio, facilmente poderemos aplicá-lo aos diversos fatos que se apresentarem à observação.*

 

  1. Longe de nós, considerar a teoria que apresentamos como absoluta e como sendo a última palavra na questão. Ela será sem dúvida completada ou retificada mais tarde através de novos estudos. Mas por mais incompleta ou imperfeita que hoje se apresente, pode sempre ajudar a se compreender a possibilidade dos fenômenos por meios que nada têm de sobrenatural. Se é uma hipótese, não se lhe pode entretanto negar o mérito da racionalidade e da probabilidade, e que vale tanto quanto todas as explicações tentadas pelos negadores para provar que tudo não passa de ilusão, fantasmagoria e evasiva nos fenômenos espíritas.(10)

(10) *A posição de Kardec é inegavelmente cientifica. Essa teoria do perispírito não foi desmentida nestes cento e tantos anos. Pelo contrário, as hipóteses psicológicas atuais confirmam essa teoria no campo da Parapsicologia. Vejam e as hipóteses de Carington sobre as estruturas de sensas e psicons, as de Soal, Broad, Tishner e outros* (N. do T.)

TEORIA DA ALUCINAÇÃO

  1. Os que não admitem a existência do mundo incorpóreo e invisível pensam tudo explicar pela palavra alucinação. A definição dessa palavra é conhecida: quer dizer um engano, uma ilusão de quem pensa ter percepções que na realidade não tem (do latim allucinari, errar, formado de ad lucem). Mas os sábios ainda não deram, que o saibamos, a sua razão fisiológica.

A Ótica e a Fisiologia não tendo mais segredos para eles, ao que parece, como não puderam explicar ainda a natureza e a origem das imagens que se apresentam ao Espírito em determinadas circunstâncias? Eles querem tudo explicar pelas leis da matéria. Que o façam, mas que deem, através dessas leis, uma teoria da alucinação. Boa ou má será pelo menos uma explicação.

 

*112. A causa dos sonhos não foi jamais explicada pela Ciência. Ela os atribui a um efeito da imaginação, mas não nos diz o que é a imaginação nem como ela produz essas imagens tão claras e nítidas que às vezes nos aparecem. Isso é explicar uma coisa desconhecida por outra que não o é menos. Tudo fica na mesma*.

 

(11) As explicações atuais ainda são incompletas. Somente com as pesquisas parapsicológicas a Ciência começou a avançar, recentemente, no rumo certo que o Espiritismo indicou há mais de um século: às razões psicofisiológicas é necessário acrescentar as espirituais. (N. do T.)

 

*Dizem tratar-se de uma lembrança das preocupações do estado de vigília. Mas, mesmo admitindo esta solução, que nada resolve, restaria saber qual é esse espelho mágico que conserva assim a impressão das coisas. Como explicar, sobretudo as visões reais jamais vistas no estado de vigília, e nas quais jamais se pensou? Só o Espiritismo nos pode dar a chave desse estranho fenômeno que passa despercebido por ser muito comum, como todas as maravilhas da Natureza que menosprezamos.*

 

Os sábios não quiseram ocupar-se com a alucinação, mas quer seja real ou não, trata-se de um fenômeno que a Fisiologia deve poder explicar, sob pena de confessar a sua incompetência. Se um dia um sábio resolver dar, não uma definição, mas, uma explicação fisiológica desse fenômeno, teremos de ver se a teoria resolve todos os casos, se não omite os fatos tão comuns de aparições de pessoas no momento da morte, se esclarece a razão da coincidência da aparição com a morte da pessoa. Se fosse um fato isolado poder-se-ia atribuí-lo ao acaso, mas como é bastante frequente o acaso não o explica. Se aquele que viu a aparição houvesse tido a ideia de que a pessoa estava para morrer, ainda bem. *Mas aparição é na maioria das vezes da pessoa de quem menos se pensa: a imaginação, portanto, nada tem com isso.*

Ainda menos se pode explicar pela imaginação o conhecimento das circunstâncias da morte, de que nada se sabia. Os partidários da alucinação dirão que a alma (se é que admitem a alma) tem momentos de superexcitação em que as suas faculdades são exaltadas? Estamos de acordo, mas quando o que ela vê é real, não se trata de ilusão. Se na sua exaltação a alma vê à distância, é que ela se transporta, e se a nossa alma pode se transportar, por que a da outra pessoa não se transportaria para nos ver? Que na sua teoria da alucinação queiram levar em conta esses fatos, não se esquecendo de que uma teoria a que se podem opor fatos que a contrariem é necessariamente falsa ou incompleta. Enquanto esperamos a sua explicação, vamos tentar emitir algumas idéias a respeito.(12)

(12) Kardec já mostrava, há cento e tantos anos, a insuficiência das hipóteses do inconsciente excitado com que ainda hoje alguns adversários, travestidos de parapsicólogos, tentam explicar fenômenos tipicamente espirituais. Veja-se a precisão da frase: a alma tem momentos de superexcitação em que as suas faculdades são exaltadas. Os teóricos atuais, ainda confirmando a previsão de Kardec, referem-se à mente, procurando excluirá alma dos fenômenos para não dar margem às interpretações espíritas. Mas a verdade é que as teorias deste livro estão sendo confirmadas dia a dia nas pesquisas parapsicológicas, queiram ou não queiram os contraditores. (N. do T.)

 

*113. Os fatos provam que há aparições verdadeiras, que a teoria espírita explica perfeitamente, e que só podem negar os que nada admitem fora do organismo. Mas ao lado dessas visões reais existem alucinações, no sentido que se dá à palavra? Não se pode duvidar. Qual a sua origem? São os Espíritos que nos colocam na pista, pois a explicação nos parece estar inteira nas respostas às seguintes perguntas:*

 

*1. As visões são sempre reais, ou são algumas vezes efeito da imaginação? Quando vemos em sonho, ou de outra maneira, o Diabo ou outras coisas fantásticas, que, portanto não existem não se trata apenas de imaginação?

— Sim, algumas vezes, quando a pessoa está chocada por certas leituras ou por estórias de feitiçaria, lembra-se delas e acredita ver o que não existe. Mas já dissemos também que o Espírito, através do seu envoltório semimaterial, pode tomar todas as formas para se manifestar. Um Espírito brincalhão pode parecer com chifres e garras, se o quiser, para zombar da credulidade, como um Espírito bom pode aparecer de asas e de maneira radiosa.*

 

*2. Podem-se considerar como aparições os rostos e outras imagens que muitas vezes se mostram quando cochilamos ou simplesmente quando fechamos os olhos?

— Quando os sentidos se entorpecem o Espírito se libera e pode ver, perto ou à distância, o que não podia ver com os olhos. Essas imagens quase sempre são visões, mas podem ser também o efeito de impressões que a vista de certos objetos deixou no cérebro, que conserva os seus traços como conserva os sons. O Espírito liberto vê então no seu próprio cérebro as impressões ali fixadas como numa chapa fotográfica. A variedade e a mistura dessas impressões formam conjuntos bizarros e fugidios, que se esfumam quase imediatamente, malgrado os esforços que se façam para retê-los. É a uma causa semelhante que se devem atribuir certas aparições fantásticas que nada têm de real e se produzem frequentemente nas doenças.*

 

Admite-se que a memória é o resultado das impressões conservadas pelo cérebro. Mas por que estranho fenômeno essas impressões tão variadas e múltiplas não se confundem? Eis um mistério impenetrável, mas não mais estranho que o das ondas sonoras que se cruzam no ar e se conservam distintas. Num cérebro são e bem organizado essas impressões são nítidas e precisas; num estado menos favorável se diluem e se confundem; daí a perda de memória ou a confusão de idéias. Isso parece menos estranho quando se admite, como na frenologia, uma destinação especial para cada parte e mesmo para cada fibra do cérebro.

*As imagens transmitidas ao cérebro pelos olhos deixam ali a sua impressão, que permite lembrar-se de um quadro como se ele estivesse presente, embora se trate de uma questão de memória, pois nada se vê.*

 

Ora, num estado de emancipação a alma pode ver o cérebro e nele reencontra essas imagens, sobretudo as que mais a tocaram, segundo a natureza das suas preocupações ou disposições íntimas. É assim que reencontra a impressão das cenas religiosas, diabólicas, dramáticas, mundanas, das figuras de animais bizarros que viu outrora em pintura ou ouviu em narrações, porque estas deixam também as suas impressões. Assim, a alma vê realmente, mas apenas uma imagem fotográfica no cérebro.

*No estado normal essas imagens são fugitivas, efêmeras, porque todas as secções cerebrais funcionam livremente. Mas na doença o cérebro se enfraquece, desaparece o equilíbrio geral dos órgãos cerebrais, somente alguns se mantêm ativos enquanto outros de certa maneira são paralisados.*

 

*Decorre disso permanência de certas imagens que não se esvaem, como no estado normal, com as preocupações da vida exterior. Essa a verdadeira alucinação e a causa primária das idéias fixas.*

*Como se vê, explicamos essa anomalia por uma lei fisiológica muito conhecida, que é a das impressões cerebrais. Mas foi sempre necessário fazer intervir a alma*.

Ora se os materialistas ainda não puderam dar uma solução satisfatória desse fenômeno é por não quererem admitir a alma. Por isso dirão que a nossa explicação é má, pois nos apoiamos num princípio que é contestado. Mas contestado por quem? Por eles, e admitido pela imensa maioria, desde que há homens na Terra. A negação de alguns não pode constituir-se em lei.

Nossa explicação é boa? Damo-la pelo que possa valer na falta de outra, e se quiserem, a título de simples hipótese, à espera de melhor. Como está, pode explicar todos os casos de visões? Certamente não, mas desafiamos todos os fisiologistas a apresentarem uma que, segundo as suas opiniões exclusivas, expliquem todos. Porque nada apresentam quando pronunciam as palavras sacramentais de superexcitação e exaltação. Pois se todas as teorias sobre a alucinação são insuficientes para explicar todos os fatos, é que há no caso algo mais do que a alucinação propriamente dita. Nossa teoria seria falsa se a aplicássemos a todos os casos de visões, pois alguns poderiam contradizê-la. Pode ser justa, se aplicada a apenas alguns efeitos. (13)

(13) *As teorias atuais da alucinação referem-se em geral a alterações do sistema nervoso, com excitação dos neurônios sensoriais, especialmente os da visão e da audição. Insiste-se na explicação fisiológica de todos os casos. Mas a recente aceitação científica dos fenômenos paranormais abriu novas perspectivas nesse campo. Os casos referidos por Kardec são aceitos como de natureza extrafísica por toda a escola psicológica de Rhine e mesmo as escolas fisiológicas admitem a veracidade das percepções à distância, da transmissão do pensamento, das previsões e da retrocognição ou visão do passado. Pratt e outros, nos Estados Unidos, pesquisam com o nome de fenômenos theta os casos de comunicação espírita. A alma, como afirma Kardec, mostra-se novamente indispensável à formulação de uma teoria satisfatória da alucinação.* (N. do T.)

Frenologia é uma teoria que reivindica ser capaz de determinar o caráter, características da personalidade, e grau de criminalidade pela forma da cabeça. (Wikipédia)

Livro dos Médiuns / : / Allan Kardec.

Sabiá…

*&*

Canta sabiá e encanta

Espanta o mau agouro desse ar

Nem sempre a liberdade acompanha a melodia

E o dia amanhece mais nublado que o destino

E o menino entristece o próprio olhar

Mistura a própria lágrima na chuva

E sonha com a uva na semente

Pedindo á Deus que seja clemente

Canta pelas árvores, cuida dos seus ninhos.

Passarinho, passaflores, passamores…

Passa o tempo e todas as dores

Canta em tom menor o seu momento

Ensina a tua cria a alegria

E rasga em tons maiores as tuas dores

 Canta sabiá, esvoaçam colibris matiz de muitas cores,

Debaixo do anis dos céus…

Santa é a luz que emana de Santíssima Maria

Flores e pássaros e um bandolim

A história do espírito imortal

Tem começo, meio e continuação,

A canção da natureza divina oração

Sonoriza as manhãs aves terçãs

Entre uma rima e um gorjeio

O caminho do meio, deliciosas maçãs,

Canta o sabiá, canarinho e uirapuru,

Cantam os rios, os mares e os riachos,

Nas ex-verdes matas das terras do Cruzeiro do Sul

Canta o povo quando a dor em si se esquece

Canta quem confia no Criador na partitura da vida e

Na harmonia do tempo em prece…

*&*

Ademário da Silva

01 de outubro de 2018.

 

 

 

 

 

 pássaros

V CAPÍTULO V

2 parte…

MANIFESTAÇÕES FÍSICAS ESPONTÂNEAS

RUÍDOS, BARULHOS E PERTURBAÇÕES – LANÇAMENTO DE OBJETOS – O FENÔMENO DE TRANSPORTE. // ALLAN KARDEC.

* 82. Os fenômenos de que tratamos são provocados. Mas acontece às vezes que ocorrem de maneira espontânea. Não intervém então a vontade dos participantes, e longe disso, pois se tornam quase sempre muito importunos. O que exclui, além disso, a suposição de serem efeitos de uma imaginação superexcitada pelas idéias espíritas é que ocorrem entre pessoas que nunca ouviram falar a respeito e quando menos elas podiam esperar. Esses fenômenos, cuja manifestação se poderia considerar como de prática espírita natural, são muito importantes porque excluem as suspeitas de conivência. Recomendamos, por isso, às pessoas que se ocupam de fenômenos espíritas, coletarem todos os fatos desse gênero de que tiverem conhecimento, mas, sobretudo constatarem cuidadosamente a sua realidade através de minucioso estudo das circunstâncias, para se assegurarem de não se tratar de simples ilusão ou mistificação.* (1)

 

(1) Esse mesmo processo está sendo empregado na Parapsicologia atual. Veja-se a respeito a coleta de casos espontâneos efetuada pela profa. Louise Rhine e apresentada em seu livro Os canais ocultos da mente. (N. do T.)

 

*83. De todas as manifestações espíritas, as mais simples e frequentes são os ruídos e as pancadas. Mas é, sobretudo nesses casos que devemos temer a ilusão, pois há muitas causas naturais que podem produzi-las: o vento que assobia ou sacode um objeto, algo que a gente mesmo está movendo sem perceber, um efeito acústico, um animal oculto, um inseto e assim por diante, e até mesmo brincadeiras de mau gosto. Os ruídos espíritas têm, aliás, características inconfundíveis, com intensidade e timbre muito variados. São facilmente reconhecíveis e não podem ser confundidos com os estalidos da madeira, o crepitar do fogo ou o tique-taque de um relógio. São golpes secos, às vezes surdos, fracos e leves, de outras vezes claros, distintos, até mesmo barulhentos, que mudam de lugar e se repetem sem nenhuma regularidade mecânica. De todos os meios de controle, o mais eficaz e que não deixa nenhuma dúvida quanto à origem é submetê-los à nossa vontade. Se eles se fizeram ouvir do lado que indicarmos, se responderem ao nosso pensamento dando o número que pedimos, aumentando ou diminuindo sua intensidade, não podemos negar a presença de uma causa inteligente. Mas a falta de resposta nem sempre prova o contrário.*

*84. Admitindo, porém, depois de minuciosa constatação, que os ruídos ou qualquer outro efeito são manifestações reais, seria racional que nos amedrontássemos? Seguramente não. Porque em caso algum oferecerão o menor perigo. Só podem ser afetadas de maneira prejudicial as pessoas que acreditam tratar-se do Diabo, como as crianças que temem o lobisomem ou o bicho-papão.*

Essas manifestações, em certas circunstâncias, aumentam e adquirem persistência desagradável. É necessária uma explicação a respeito, pois é natural que então se queira afastá-las.

 

*85. Já dissemos que as manifestações físicas têm por fim chamar a nossa atenção para alguma coisa e convencer-nos da presença de um poder superior ao homem. Dissemos também que os Espíritos elevados não se ocupam dessas manifestações, servindo-se dos inferiores para produzi-las, como nos servimos de criados para serviços grosseiros, e por isso com a finalidade que acima indicamos.*

 

Atingida essa finalidade, cessa a manifestação, que não é necessária. Um ou dois exemplos tornarão a questão mais compreensível.

*86. Há muitos anos, quando iniciava meus estudos de Espiritismo, trabalhando uma noite nesse assunto, ouvi golpes que soaram ao meu redor durante quatro horas seguidas. Era a primeira vez que isso me acontecia. Verifiquei que não tinham nenhuma causa acidental, mas no momento não pude saber nada mais. Nessa época eu me encontrava sempre com um excelente médium escrevente. Logo no dia seguinte perguntei ao Espírito que se comunicava por ele qual era a causa dos golpes. Respondeu-me: — Era o teu Espírito Familiar que queria falar-te. — E o que queria dizer-me? — Resposta: — Podes perguntara ele mesmo, que está aqui. Interroguei-o e ele se deu a conhecer por um nome alegórico. (Soube, depois, por outros Espíritos, que ele pertence a uma ordem muito elevada e que desempenhou na Terra um papel importante). Indicou erros no meu trabalho, apontando as linhas em que eu os encontraria, deu-me úteis e sábios conselhos e acrescentou que estaria sempre comigo e me atenderia quando eu quisesse interrogá-lo. Desde então, realmente, esse Espírito jamais me deixou.(2) Deu-me numerosas provas de grande superioridade e sua intervenção benévola e eficaz socorreu-me tanto nos problemas da vida material quanto nos metafísicos. Mas desde essa primeira conversa os golpes cessaram. O que desejava ele, com efeito? Estabelecer comunicação regular comigo, e para isso precisava me avisar. Dado o aviso, explica a sua razão e estabelecidas as relações regulares, os golpes não eram mais necessários. Não se toca mais o tambor para acordar os soldados, quando eles já se levantaram.*

 

(2) Tratava-se do Espírito da Verdade, como se vê pelo relato mais extenso deste fato que o leitor pode encontrar em Obras Póstumas, segunda parte, comunicação de 25 de março de 1856, sob o título de Meu Guia Espiritual. Importante assinalar a afirmação de Kardec de que esse Espírito jamais o abandonou, o que põe por terra a teoria errônea que se lançou no meio espírita, segundo a qual esse Espírito deixou a Terra depois de escrito O Livro dos Espíritos. Pelo contrário toda a Codificação e todos os trabalhos de Kardec foram por ele orientados. (N. Do T.)

 

Caso quase semelhante ocorreu com um de nossos amigos. Há tempos que no seu quarto ressoavam barulhos diversos, que já se tornavam cansativos. Tendo a oportunidade de interrogar o Espírito de seu pai por um médium escrevente, soube o que dele queriam, atendeu ao pedido e não ouviu mais os barulhos.

 

 *Assinalemos que as pessoas que dispõem de meio regular e fácil de comunicação com os Espíritos, como se compreende, estão muito menos sujeitas a manifestações desse gênero.*

 

  1. As manifestações espontâneas nem sempre se limitam a ruídos e batidas. Degeneram às vezes em verdadeira barulheira e em perturbações. Móveis e objetos são revirados, projéteis diversos são atirados de fora, portas e janelas são abertas e fechadas por mãos invisíveis, vidraças se quebram e tudo isso não pode ser levado à conta de ilusão.

Toda essa desordem é muitas vezes real, mas algumas vezes é apenas aparente. Ouve-se gritaria num cômodo ao lado, barulho de louça que cai e se despedaça, de achas de lenha rolando no assoalho. Corre-se para ver e encontra-se tudo tranquilo e em ordem. Mas a gente se retira, porém, e o tumulto recomeça.

  1. Essas manifestações não são raras nem novas. São poucas as crônicas locais que não incluem alguma estória desse gênero. O medo, sem dúvida, frequentemente exagerou esses fatos, dando-lhes proporções enormemente ridículas em sua transmissão oral. Com a ajuda das superstições, as casas em que se verificaram foram consideradas como assombradas pelo Diabo. Daí todos os contos maravilhosos ou terríveis de fantasmas. A trapaça, por sua vez, não perdeu a ocasião de explorar a credulidade, quase sempre em proveito pessoal. Compreende-se ainda a impressão que fatos dessa espécie, mesmo reduzidos à realidade, podem produzir em caracteres fracos e predispostos pela educação às idéias supersticiosas. *O meio mais seguro de prevenir os inconvenientes que possam acarretar, pois não se pode impedi-los, é dar a conhecer a verdade.* As coisas mais simples tornam-se assustadoras quando ignoramos as causas. Havendo familiaridade com os Espíritos, e os que recebem suas comunicações não mais acreditando que se trata de demônios, o medo desaparecerá. (3)

 

(3) *Esta afirmação de Kardec é plenamente sancionada pela Psicologia atual. Bastaria o caso do tabu sexual, cujos inconvenientes só podemos evitar pela educação nesse sentido, para provar a verdade dessa asserção. O desconhecimento do problema mediúnico, A negação sistemática da ação dos Espíritos, a ignorância do assunto, enfim, são os responsáveis pelo tabu espírita, criador de neuroses e perturbações mentais. Ao lado das superstições, que agravam as consequências das manifestações inevitáveis, temos ainda o preconceito cultural, o falso saber de pessoas que se julgam orgulhosamente detentores como diz Kardec, de todas as leis naturais. A divulgação teórica e prática do Espiritista única maneira possível de evitar todos esses inconvenientes, familiarizando as criaturas com esse aspecto inegável da realidade. Inútil e prejudicial toda tentativa de negar ou escamoteá-los através de explicações imaginárias. (N. do T.)*

 

Muitos fatos autênticos desse gênero podem ser lidos na Revista Espírita. Entre outros, o do Espírito batedor de Bergzabern, cujas estrepolias duraram mais de oito anos (N°s. de maio, junho e julho de 1858); o de Dibbeisdorp (agosto de 1858); o do Padeiro das Grandes Vendas, próximo a Dieppe (março de 1860); o da Rua de Noyers, em Paris (agosto de 1860); o do Espírito de Casteinaudary, sob o título de História de Um Danado (fevereiro de 1860); o da fabricante de São Petersburgo (abril de 1860), e assim por diante. (4)

 

(4) Nesta citação de Kardec, como em outras tantas deste livro e das demais obras de Codificação, vê-se a importância da Revista Espírita para o estudo sério e aprofundado do Espiritismo. Realmente, a Revista, na coleção redigida por Kardec, é fonte de fatos e de esclarecimentos doutrinários indispensáveis ao estudioso. (N. do T.)*

 

  1. Essas manifestações frequentemente assumem o caráter de verdadeira perseguição. Conhecemos seis irmãs que moravam juntas e que, durante muitos anos, encontravam de manhã suas roupas esparramadas, às vezes escondidas no teto, rasgadas e cortadas em pedaços, apesar das precauções que tomavam, guardando-as a chave. Tem acontecido muitas vezes que pessoas deitadas, mas perfeitamente acordadas, viram sacudir as cortinas, arrancarem-lhes violentamente as cobertas e os travesseiros, foram erguidos no ar e às vezes até mesmo atirados fora do leito. Esses fatos são mais frequentes do que se pensa, mas a maioria das vítimas não os contam por medo do ridículo. Soubemos que tentaram curar algumas pessoas, por entenderem que se tratava de alucinações, submetendo-as ao tratamento dos alienados, o que as deixou realmente loucas. A Medicina não pode compreender esses fatos, porque só admite causas materiais, do que resultaram negligências funestas. A História relatará um dia certos tratamentos do século XIX como hoje se relatam certos processos da Idade Média. (5)

 

*Admitimos perfeitamente que alguns casos são obra da malícia ou da malvadez, mas quando se averiguou suficientemente que não são produzidos por ninguém, temos de convir que são, para uns, obra do Diabo, e para nós dos Espíritos. Mas de que Espíritos?*

 

(5) Os casos de obsessão, de possessão e de simples perturbação por Espíritos, quando tratados como loucura, geralmente se agravam. A rede de Hospitais Espíritas hoje existentes no Brasil, com mais de vinte só no Estado de São Paulo, constitui a mais evidente prova disso. Nesses hospitais têm sido curados numerosos casos dados por incuráveis no tratamento comum. Leia-se Novos Rumos à Medicina, do Dr. Ignácio Ferreira, do Hospital Espírita de Uberaba, e no campo da experiência estrangeira, Trinta Anos Entre os Mortos, do prof. Dr. KarI Wickland, da Faculdade de Medicina de Chicago, Estados Unidos. (N. do T.)

 

*90. Os Espíritos superiores, como os homens sérios entre nós, não gostam de fazer travessuras. Muitas vezes interpelamos esses Espíritos sobre o motivo de perturbarem o sossego alheio. A maioria quer apenas divertir-se.*

 

 São Espíritos antes levianos do que maus. Riem dos sustos que pregam e do trabalho que dão para descobrir a causa do tumulto. Muitas vezes apegam-se a uma pessoa e se divertem a incomodá-la por toda parte. De outras vezes se apegam a um lugar por simples capricho. Algumas vezes também se trata de uma vingança, como veremos.

 

*Em certos casos sua intenção é a mais louvável: querem chamar a atenção e estabelecer comunicação, seja para transmitir à pessoa um aviso útil, seja para fazer um pedido. Vimo-los muitas vezes pedir preces, o cumprimento de um voto que em vida não puderam realizar, e outros quererem, para o seu próprio sossego, reparar uma maldade praticada em vida. Em geral, é um erro amedrontar-se com a sua presença que pode ser importuna, mas não perigosa.*

 

Compreende-se o desejo de livrar-se deles, mas para isso geralmente se faz o contrário do que se deve. Quando se trata de Espíritos que se divertem, quanto mais se levá-los a sério, mais persistirão, como as crianças traquinas que impacientam as pessoas e assustam os medrosos. Se, pelo contrário, as pessoas também rirem com as suas peças, acabarão por se cansar e deixá-las-ão em paz. Conhecemos alguém que em vez de se irritar os excitava, os desafiava a fazer isto ou aquilo, de maneira que em alguns dias se afastaram. Mas como dissemos, há os que agem por motivos menos frívolos. Por isso é sempre útil saber o que eles desejam. Se pedem alguma coisa, é certo que cessarão suas visitas quando forem satisfeitos. *O melhor meio de informação é evocá-los através de um bom médium escrevente. Pelas suas respostas, logo se verá quem são e se poderá agir convenientemente. Se for um Espírito infeliz, a caridade manda tratá-lo com as atenções que merece; se um brincalhão, podemos trata-lo sem rodeios; se um malvado, devemos pedir a Deus que o melhore. Em todos os casos a prece só pode dar bons resultados. Mas a solenidade das fórmulas de exorcismo lhes provoca o riso: não lhe dão nenhuma importância.*

 

 Se se puder entrar em comunicação com eles, é preciso desconfiar dos qualificativos burlescos ou assustadores que algumas vezes se dão, para se divertirem com a credulidade dos ouvintes.

Voltaremos a tratar deste assunto com mais detalhes, bem como das causas que frequentemente tornam as preces ineficazes, nos capítulos: Lugares Assombrados (IX) e Da Obsessão (XXIII).

*91. Embora produzidos por Espíritos inferiores, esses fenômenos são frequentemente provocados por Espíritos de ordem mais elevada, com o objetivo de demonstrar a existência dos seres incorpóreos, dotados de poderes superiores aos humanos. A repercussão que alcançam, o próprio horror que chegam a causar, despertam a atenção para o assunto e acabam por abrir os olhos dos mais incrédulos.* Estes acham mais simples considerar os fenômenos como efeitos da imaginação, explicação muito cômoda e que dispensa a busca de outras.

 

Mas quando os objetos são revirados ou atirados à cabeça das pessoas, só uma imaginação muito complacente poderia estar em jogo para que os fatos não sejam reais. Se coisa acontece, tem forçosamente uma causa, e se uma fria e serena observação demonstra que esse efeito independe da vontade humana e de toda causa material, e que além disso apresenta sinais evidentes de inteligência e vontade próprias, o que é o seu traço mais característico, somos forçados a atribuí-la a uma inteligência oculta. Mas que seres misteriosos são esses? É o que os estudos espíritas nos revelam de maneira dificilmente contestável, graças aos meios que nos proporcionam de nos comunicarmos com eles.

 

*Aliás, os estudos espíritas nos ensinam também a distinguir o que há de real, de falso ou de exagerado nos fenômenos que examinamos. Quando um efeito estranho se produz: um ruído, um movimento, ou mesmo uma aparição, o primeiro pensamento que devemos ter é o de que a sua causa é natural, porque é a mais provável. Devemos então procurar essa causa com o maior cuidado, não admitindo a intervenção dos espíritos senão quando bem averiguada. Esse o meio de evitarmos a ilusão. Aquele, por exemplo, que recebesse uma bofetada ou bordoada nas costas, sem estar perto de ninguém, como já se tem visto, não poderia duvidar da presença de um ser invisível.* (6)

*Devemos acautelar-nos contra os relatos que podem ser considerados muito ou pouco exagerados, e também contra as nossas próprias impressões, para não atribuirmos origem oculta a tudo quanto não pudermos explicar. Há muitas causas simples e naturais que podem produzir efeitos estranhos à primeira vista, e seria evidentemente supersticioso ver Espíritos por toda a parte, ocupados em derrubar móveis, quebrar louças, provocar todos esses distúrbios domésticos que é mais razoável atribuirmos ao descuido.*

 

(6) Veja-se a História de um Danado, no volume III da Revista Espírita. Um homem, sozinho em casa, recebe uma bofetada do Espírito que mais tarde é identificado. É a casos como esse que Kardec se refere, nos quais a intervenção do Espírito não pode ser posta em dúvida. (N. do T.)

 

  1. A explicação do movimento dos corpos inertes aplica-se naturalmente a todos os efeitos de que acabamos de tratar. Os ruídos, embora mais fortes que os golpes na mesa, têm a mesma causa; o lançamento ou deslocação de objetos são produzidos pela mesma força que levanta objetos. Há mesmo uma circunstância que serve de apoio a essa teoria. Poderíamos perguntar onde se encontra o médium, nesses casos. Os Espíritos explicaram que há sempre alguém cujas forças são usadas à sua revelia. As manifestações espontâneas raramente ocorrem em lugares isolados. É quase sempre em casas habitadas que elas se verificam em virtude da presença de certas pessoas que exercem sem querer a sua influência.

 

 *Trata-se de verdadeiros médiuns que ignoram as suas faculdades e por isso os chamamos de médiuns naturais.*

 

Estão para os outros médiuns na condição dos sonâmbulos naturais para os sonâmbulos magnéticos, e são como eles dignos de observação.

  1. A intervenção voluntária ou involuntária de pessoa dotada de aptidão especial parece necessária, na maioria dos casos, para a produção desses fenômenos, embora haja aqueles em que o Espírito parece agir sozinho. Mas ainda nesses casos ele poderia tirar o fluido animalizado de uma pessoa distante. Isso explica porque os Espíritos que nos cercam incessantemente não produzem perturbações a cada instante. É necessário primeiro que o Espírito queira, que tenha um objetivo, um motivo para fazê-lo. A seguir, que encontre precisamente no lugar em que pretende agir, uma pessoa apta a ajudá-lo, coincidência que só raramente ocorre. Se essa pessoa aparece inesperadamente, ele a aproveita. Mas apesar das circunstâncias favoráveis, ele poderia ainda ser impedido por uma vontade superior que não lhe permitisse agir como quer. Pode também só lhe ser permitido agir dentro de certos limites, nos casos em que essas manifestações sejam consideradas úteis, seja para servirem com meio de convicção ou de experiência para a pessoa que as suporta.
  2. Citaremos a respeito a conversação suscitada pelos fatos verificados em junho de 1860 na rua Dês Noyers, em Paris. Os pormenores se encontram na Revista Espírita de agosto de 1860.
  3. (A São Luís) Terias a bondade de nos dizer se os fatos que dizem ter ocorrido na Rua Dês Noyers são reais? Quanto à sua possibilidade não temos dúvidas.

—Sim, esses fatos são verdadeiros, mas a imaginação do povo os exagerou, seja por medo ou por ironia. Entretanto, repito, são verdadeiros. Foram manifestações de um Espírito que se diverte um pouco com os moradores.

  1. Há alguém, na casa, que dê motivo a essas manifestações?

— Elas são sempre provocadas pela presença de uma pessoa detestada. O Espírito perturbador se aborrece com o habitante do lugar em que ele encontra quer pregar-lhe algumas peças ou fazê-lo mudar-se.

  1. Perguntamos se há, entre os moradores, alguém que seja a causa os fenômenos, em virtude de mediunidade espontânea e involuntária?

— Isso é necessário, pois sem isso o fato não poderia se dar. Um Espírito mora num lugar de sua predileção. Enquanto ali não aparece uma pessoa de que se possa servir, fica sem ação. Quando essa pessoa aparece, então ele se diverte quanto pode.

  1. A presença dessa pessoa no próprio lugar é indispensável?

— É o mais comum e foi o que aconteceu no caso citado. Por isso disse que sem isso o fato não teria ocorrido. Mas não quis generalizar. Há casos em que a presença no local não é necessária.

  1. Sendo esses Espíritos de ordem inferior, a aptidão para lhes servir de auxiliar é uma indicação desfavorável para a pessoa? Indica uma simpatia de sua parte para com os seres dessa natureza?

— Não precisamente, porque essa aptidão decorre de uma disposição física. Mas indica quase sempre uma tendência material que seria preferível não possuir, pois quanto mais elevada moralmente, mais a pessoa atrai os bons Espíritos, que necessariamente afastam os maus.

  1. Onde o Espírito vai buscar os objetos que atira?

— Esses objetos são quase sempre encontrados no próprio lugar ou na vizinhança. *Uma força que sai do Espírito os lança no espaço e os faz cair onde ele quer.*

  1. Desde que as manifestações espontâneas são muitas vezes permitidas e até mesmo provocadas com o fim de convencer, parece-nos que se alguns incrédulos fossem o seu alvo seriam forçados a render-se à evidência. Eles às vezes se queixam de não haver testemunhado fatos concludentes. Não dependeria dos Espíritos dar-lhes alguma prova sensível?

 

— *Os ateus e os materialistas não testemunham a cada instante os efeitos do poder de Deus e do pensamento? Mas isso não os impede de negar a Deus e a Alma. Os milagres de Jesus converteram todos os seus contemporâneos? Os Fariseus que lhe diziam: “Mestre, fazei-nos ver algum prodígio”, não se pareciam com esses que hoje vos pedem para ver manifestações? Se não se deixam convencer pelas maravilhas da Criação, não seriam mais tocados pelo aparecimento de um Espírito, mesmo da maneira mais evidente, pois o seu orgulho os transforma em animais empacados. Não lhes faltariam ocasiões de ver, se eles as procurassem de boa fé. É por isso que Deus não julga conveniente fazer por eles mais do que não faz nem mesmo para aqueles que sinceramente buscam instruir-se, porque Ele só recompensa os homens de boa vontade. Essa incredulidade não impedirá que se cumpra a vontade de Deus. Já vistes que ela não impediu a expansão da doutrina.

 

*Não vos inquieteis, pois, com a sua oposição, que é para a doutrina como a sombra numa pintura: dá-lhe maior relevo.*

 

Que mérito teriam eles se fossem convencidos à força? Deus lhes deixa a responsabilidade da teimosia, e essa responsabilidade é mais pesada do que pensais. Felizes os que creem sem ter visto, disse Jesus, porque eles não duvidam do poder de Deus.*

 

  1. Achas conveniente evocar esse Espírito para lhe pedirmos algumas explicações?

— Evoca-o se o quiseres, mas é um Espírito inferior, que só dará respostas de pouca significação.

  1. Conversação com o Espírito perturbador da rua Dês Noyers:
  2. Evocação.

— Por que me chamaste? Queres, acaso, umas pedradas? Então é que se veria um belo corre-corre, apesar do teu ar de bravura!

  1. Mesmo que nos desses pedradas, isso não nos assustaria. Pedimos até, se puderes, que nos dês algumas.

—Aqui talvez eu não pudesse. Tendes um guardião que vela bem por vós.

  1. Na rua Dês Noyers havia alguém que te servia de auxiliar nas peças que pregavas aos moradores?

— *Certamente. Encontrei um bom instrumento. E não havia nenhum Espírito douto, sábio e prudente para me impedir. Porque eu sou alegre e gosto, às vezes, de me divertir.*

 

  1. Quem te serviu de instrumento?

— Uma criada.

  1. Ela te auxiliava sem saber?

— Oh, sim! Pobre moça! Era a mais assustada.

  1. Tinhas algum propósito hostil?

— Eu? Eu não tinha nada contra ninguém. Mas os homens que de tudo se apossam torcerão a coisa em seu proveito.

  1. Que queres dizer? Não te compreendemos.

— Eu procurava me divertir, mas vós estudareis a coisa e tereis mais um fato para provar que nós existimos.

  1. Dizes que não tinhas propósito hostil, mas quebrastes todas as vidraças do apartamento, causando um prejuízo real.

— Isso é um detalhe.

  1. Onde encontraste os objetos que atiravas?

— São muito comuns. Achei-os no pátio e nos jardins vizinhos.

*10. Achaste todos ou fabricaste alguns? (Ver o Cap. VIII).

— Eu não criei nada, nada compus.

  1. Se não os encontrasses, terias podido fabricá-los?

—Teria sido mais difícil. Mas, em último caso, a gente mistura matérias e faz qualquer coisa.*

  1. Agora, conta-nos como os atiraste.

— Ah, isso é mais difícil de dizer! Servi-me da natureza elétrica daquela moça, ligada à minha, que é menos material. Assim pudemos, os dois, transportar aqueles diversos materiais.

  1. Penso que concordarás em nos dar algumas informações sobre a tua pessoa. Diga-nos primeiro se morreste há muito tempo.

— Faz muito tempo, há bem uns cinquenta anos.

  1. Que foste em vida?

— Não era grande coisa. Catava bugigangas neste bairro e às vezes me atiravam injúrias porque eu gostava muito do licor vermelho do bom velho Noé. Eu também queria pô-los a correr.

  1. Por ti mesmo e de tua plena vontade que respondeste às nossas perguntas?

— Eu tinha um instrutor.

  1. Quem é esse instrutor?

—Vosso bom rei Luís.

Nota – Este pergunta foi feita por causa da natureza de algumas respostas que pareciam além da capacidade do Espírito, tanto pelas idéias quanto pela forma da linguagem. Nada demais que ele tenha sido ajudado por um Espírito mais esclarecido, que queria aproveitar a ocasião para nos instruir. Esse é o fato comum. Mas uma particularidade notável deste caso é que a influência do outro Espírito se fez presente na própria escrita. Nas respostas em que ele interferiu a escrita é mais regular e corrente; nas do trapeiro é angulosa, grossa, irregular, muitas vezes pouco legível, revelando um caráter muito diverso. (7)

 

(7) Nota-se o rigor das observações de Kardec nessas experiências, que provam irrefutavelmente a comunicabilidade dos espíritos. (N. do T.)

 

  1. Que fazes agora? Cuidas do futuro?

— Ainda não. Ando errante. Pensam tão pouco em mim na Terra, que ninguém ora por mim: assim não tenho ajuda e não trabalho.

Nota – Veremos logo quanto se pode contribuir para o progresso e o alívio dos Espíritos inferiores, através da prece e dos conselhos.

  1. Qual era teu nome em vida?

— Jeannet.

  1. Muito bem, Jeannet, faremos preces por ti. Diga-nos se a evocação te deu prazer ou te contrariou.

— Antes prazer, porque sois boa gente, alegres viventes, embora um pouco severos. Pouco importa: escutastes-me e estou contente.

O FENÔMENO DE TRANSPORTE (8)

(8) para designar esse tipo de fenômeno. A tradição espírita incorporou o termo francês “apport” à língua portuguesa, como aconteceu no inglês, para designar também essa forma especial de transporte de objetos a recintos fechados. (N. do T.)

  1. Este fenômeno só difere dos que tratamos acima pela intenção benévola do Espírito que o produz, pela natureza dos objetos quase sempre graciosos e pela maneira suave e quase sempre delicada porque são transportados. Consiste no transporte espontâneo de objetos que não existem no lugar da reunião. Trata-se geralmente de flores, algumas vezes de frutos, de confeitos, de joias etc.
  2. Digamos logo que esse fenômeno é dos que mais se prestam à imitação e portanto é necessário estar prevenido contra o embuste. Sabe-se até onde pode chegar a arte da prestidigitação ante experiências desse gênero. Mesmo, porém, que não tenhamos de enfrentar um profissional, poderíamos ser facilmente enganados por uma manobra hábil e interessada.* A melhor de todas as garantias é o caráter, a honestidade notória, o desinteresse absoluto da pessoa que obtém esses efeitos. Em segundo lugar, no exame atento de todas as circunstâncias em que os fatos se produzem. Por fim, no conhecimento esclarecido do Espiritismo, único meio de se descobrir o que houvesse de suspeito.*
  3. A teoria do fenômeno de transporte e das manifestações físicas em geral foi resumida, de maneira notável, na seguinte dissertação de um Espírito, cujas comunicações trazem o cunho incontestável da profundeza e da lógica. Muitas delas aparecerão no curso desta obra. Ele se dá a conhecer com o nome de Erasto, discípulo de São Paulo, e como Espírito protetor do médium que lhe serve de intérprete:

*É indispensável, para obter fenômenos dessa ordem, dispor de médiuns que chamarei de sensitivos, ou seja, dotados no mais alto grau de faculdades medianímicas de expansão e de penetrabilidade. Porque o sistema nervoso desses médiuns, facilmente excitável, por meio de certas vibrações, projeta profusamente ao seu redor o fluido animalizado.*

*As naturezas impressionáveis, as pessoas cujos nervos vibram a menor emoção, à mais leve sensação que a influência moral ou física, interna ou externa, sensibiliza, são as mais aptas a se tornarem excelentes médiuns de efeitos físicos de tangibilidade e de transporte. Com efeito, seu sistema nervoso, quase inteiramente desprovido do invólucro refratário que isola esse sistema na maioria dos encarnados, torna-as apropriadas ao desenvolvimento desses diversos fenômenos.*Assim, com um sujeito dessa natureza, e cujas demais faculdades não sejam hostis à mediunização, mais facilmente se obterão os fenômenos de tangibilidade, os golpes nas paredes e nos móveis, os movimentos inteligentes, e até mesmo a suspensão no espaço da mais pesada matéria inerte. Com maior razão, os mesmos resultados serão obtidos se, em vez de um médium, se dispuser de numerosos e igualmente bem dotados.*

*Mas da obtenção desses fenômenos à obtenção dos chamados transportes há todo um abismo. Porque, neste caso, não só o trabalho do Espírito é mais complexo, mais difícil, como ainda o Espírito só pode operar com um único aparelho medianímico.*Isso quer dizer que muitos médiuns não podem contribuir simultaneamente para a produção do mesmo fenômeno. Acontece mesmo, ao contrário, que a presença de certas pessoas antipáticas ao Espírito operador entrava radicalmente a sua ação. *A esses motivos que, como se vê, são importantes, acrescentemos que os transportes exigem sempre maior concentração, e ao mesmo tempo maior difusão de certos fluidos que só podem ser obtidos por médiuns muito bem dotados, médiuns, numa palavra, cujo aparelho eletromedianímico seja bem condicionado.*

*Em geral, os fenômenos de transporte são e continuarão a serem excessivamente raros. Não preciso demonstrar porque eles são e serão menos freqüentes que os demais fenômenos de tangibilidade; do que já ficou dito podeis deduzi-lo. Aliás, esses fenômenos são de tal natureza que além de nem todos os médiuns servirem para produzi-los, nem todos os Espíritos podem também realizá-los. É necessário que exista entre o Espírito e o médium uma certa afinidade, uma certa analogia, numa palavra, uma determinada semelhança que permita à parte expansível do fluido perispirítico (9) do encarnado misturar-se, unir-se, combinar-se com o do Espírito que deseja fazer o transporte. Essa fusão deve ser de tal maneira que a força dela resultante se torne por assim dizer una: da mesma maneira que uma corrente elétrica, agindo sobre o carvão produz um foco, uma claridade única. Porque essa união, essa fusão, perguntareis? É que, para a produção desses fenômenos, é necessário que as propriedades essenciais do Espírito agente sejam aumentadas com algumas das propriedades do mediunizado. Porque o fluido vital, apanágio (propriedade, característica ou atributo do…) exclusivo do encarnado, deve obrigatoriamente impregnar o Espírito agente. Só então ele pode, por meio de algumas propriedades do vosso ambiente, desconhecidas para vós, isolar, tornar invisíveis e movimentar alguns objetos materiais e mesmo os encarnados.*

(9)

 Vemos que quando se trata de exprimir uma ideia nova, para a qual a língua não possui termo, os Espíritos podem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletromedianímico, perispirítico, não são nossas. Aqueles que nos criticam por havermos criado as palavras espírita, espiritismo, perispírito, que não tinham termos análogos, poderão agora fazer a mesma crítica aos Espíritos. (Nota de Kardec)

 

Não me é permitido, por agora, desvendar-vos as leis particulares que regem os gases e fluidos que nos envolvem. Mas antes que os anos se escoem, antes que uma existência do homem seja concluída, a explicação dessas leis e desses fenômenos ser-vos-á revelada. E vereis surgir e se desenvolver uma nova variedade de médiuns, que cairão num estado cataléptico particular ao serem mediunizados.

Vede de quantas dificuldades está cercada a produção dos transportes. Podeis logicamente concluir que os fenômenos dessa espécie são bastante raros, como já disse, e com mais razão que os Espíritos se prestam muito pouco a produzi-los, porque isso exige de sua parte um trabalho quase material, que lhes causa aborrecimento e fadiga. Além disso, acontece que muito frequentemente, malgrado sua energia e sua vontade, o estado do próprio médium lhes opõe uma barreira intransponível.

*É, portanto evidente, e não tenho dúvida que o aceitais, que os fenômenos sensíveis de golpes, movimentos e levitação são de natureza simples, realizando-se pela concentração e a dilatação de certos fluidos, e podem ser provocados e obtidos pela vontade e o trabalho de médiuns aptos, quando secundados por Espíritos amigos e benevolentes, enquanto os fenômenos de transporte são complexos, de natureza múltipla, exigindo a existência de condições especiais. Esses fenômenos só podem ser realizados por um só Espírito e um único médium e necessitam, além dos recursos para a produção da tangibilidade, uma combinação muito especial para isolar e tomar invisíveis o objeto ou os objetos a serem transportados.*

 

 O* problema da tangibilidade refere-se ao Espírito, que através da combinação de seus fluidos com os do médium consegue o grau de materialização necessária para tocar e sentir os objetos. Estes são naturalmente tangíveis, mas o Espírito não tem o sensório físico para senti-los. Por isso necessita, como diz Erasto, impregnar-se do fluido vital do médium, que lhe dá a tangibilidade ou a possibilidade de agir sobre os objetos materiais e movimentá-los. (N. do T.)*

 

*Todos vós, espíritas, compreendeis as minhas explicações e percebeis perfeitamente o que seja essa concentração de fluídos especiais para produzir a mobilidade e a tactilidade da matéria inerte. Aceitais isso, como aceitais os fenômenos da eletricidade e do magnetismo, tão análogos aos mediúnicos, que são por assim dizer, a confirmação e o desenvolvimento daqueles.* Quanto aos incrédulos e aos sábios, estes piores que aqueles, nada tenho para convencê-los e nem me interessam. Serão convencidos um dia pela evidência dos fatos, porque terão de se curvar ante o testemunho unânime dos fenômenos espíritas, como já tiveram de fazer em relação a outros fenômenos que a princípio rejeitaram.

*Para resumir: se os fenômenos de tangibilidade são freqüentes, os de transporte são muito raros, porque as condições para a sua produção são bastante difíceis. Em consequência, nenhum médium pode dizer: em tal hora ou em tal momento obterei um transporte, porque muitas vezes o próprio Espírito se encontra impedido de fazê-lo. Devo acrescentar que esses fenômenos se tornam duplamente difíceis em público, onde quase sempre se encontram os elementos energeticamente refratários que paralisam os esforços dos Espíritos e com mais forte razão a ação do médium.*

Sabei que, pelo contrário, esses fenômenos quase sempre se produzem espontaneamente nas reuniões particulares, no mais das vezes à revelia dos médiuns e sem que se espere, dando-se muito raramente quando aqueles estão prevenidos. *Disso deveis concluir que há motivo legítimo de suspeita todas as vezes que um médium se vangloria de obtê-los à vontade ou de dar ordens aos Espíritos como se fossem seus empregados, o que é simplesmente absurdo.* Tende ainda por regra que os fenômenos espíritas não servem para espetáculos e para divertires curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a isso, só pode ser através de fenômenos simples e não dos que, como o transporte, exigem condições excepcionais.

*Lembrai-vos, espíritas, que se é absurdo repelir sistematicamente todos os fenômenos de além-túmulo, também não é prudente aceita-los a todos de olhos fechados. Quando um fenômeno de tangibilidade, de aparição, de transporte se verifica espontaneamente e de improviso, aceitai-o. Mas nunca será demasiado repetir: não aceiteis nada cegamente. Que cada fato seja submetido a um exame minucioso, aprofundado e severo. Porque, acreditai-me, o Espiritismo, tão rico de fenômenos sublimes e grandiosos, nada tem a ganhar com essas insignificantes manifestações que hábeis prestidigitadores podem imitar.*

*Nada aceitar cegamente nem fazer alarde de fenómenos corriqueiros ou de natureza duvidosa, suscetíveis de ser imitados por trapaceiros, é uma condição de boa divulgação Doutrina. Erasto adverte contra as infrações dessa regra, que até hoje se verificam por toda parte. O Espiritismo, que se funda na verdade, não precisa de recursos fúteis, (N. do T.)*

*Bem sei o que ireis me dizer: que esses fenômenos são úteis para convencer os incrédulos. Mas saibam que, se não tivésseis outros meios de convicção, não teríeis hoje a centésima parte de espíritas com que podeis contar.* Falai aos corações: é esse o caminho da maioria das conversões sérias. Se achais conveniente, para certas pessoas, utilizar-vos dos fenômenos materiais, pelo menos apresentai-os de tal maneira que não possam dar motivo a falsas interpretações. E, sobretudo. observai as condições normais desses fenômenos, porque apresentados de maneira imprópria eles servem de argumentos para os incrédulos, em vez de convencê-los. – ERASTO.

 

*99. Esse fenômeno apresenta uma particularidade bem característica: a de que alguns médiuns só o obtêm em estado sonambúlico, o que facilmente se explica. O sonâmbulo apresenta um desprendimento natural, uma espécie de isolamento do Espírito e seu perispírito em relação ao corpo, que deve facilitar a combinação dos fluidos necessários. É o caso dos transportes que presenciamos.*

As questões seguintes foram apresentadas ao Espírito que os produzia, mas suas respostas às vezes se ressentem da sua falta de conhecimentos. Submetemo-las ao Espírito Erasto, muito mais esclarecido do ponto de vista teórico, que as completou com anotações bastante judiciosas. *Um é o artesão, outro é o sábio. A própria comparação dessas duas inteligências é um estudo instrutivo, pois demonstra que não basta ser Espírito para tudo compreender.

  1. Queres dizer-nos por que os transportes que produzes só se realizam durante o sono magnético do médium?

— Por causa da natureza do médium. Os fatos que produzo quando ele dorme, poderia igualmente produzir no estado de vigília de outro médium.

  1. Por que demoras tanto a trazer os objetos, e por que excitas a cobiça do médium, excitando-lhe o desejo de obter o objeto prometido?

— Necessito de tempo para preparar os fluidos que servem ao transporte. Quanto à excitação, muitas vezes tem apenas o fim de divertir os presentes e a sonâmbula.

*Nota de Erasto – O Espírito que respondeu sabe apenas isso. Não tem consciência do motivo dessa excitação da cobiça, que provoca instintivamente e sem compreender-lhe o efeito. Ele pensa divertir, quando na verdade estimula, sem o saber, maior emissão de fluido. É uma decorrência das dificuldades que o fenômeno apresenta dificuldades maiores quando ele não é espontâneo, e particularmente com outros médiuns.*

  1. A produção do fenômeno depende da natureza especial do médium, e seria possível obtê-lo com mais facilidade e presteza por outro médium?

—A produção do fenômeno depende da natureza do médium, e só se pode produzi-lo por meio de médiuns dessa natureza. Para a presteza, vale-nos muito o hábito adquirido no trato frequente do mesmo médium.

*4. A influência das pessoas presentes pode embaraçá-lo de alguma maneira?

—Quando há incredulidade, oposição, da parte delas, podem criar-nos sérias dificuldades. Preferimos realizar nossas experiências com pessoas crentes e versadas no Espiritismo. Mas não quero dizer, com isso, que a má vontade nos pudesse paralisar por completo.*

  1. Onde pegaste as flores e os bombons que trouxeste?

—As flores, nos jardins, onde elas me agradem.

  1. E os bombons? O confeiteiro deve ter percebido a sua falta?

—Tomo-os onde quero. O confeiteiro não percebeu nada, porque pus outros no lugar .

  1. Mas os anéis têm preço; onde os tomaste? Não ficou prejudicado aquele de quem os tiraste?

—Tirei-os de lugares que ninguém conhece, e o fiz de maneira que não prejudicará a ninguém.

Nota de Erasto – Creio que o fato foi explicado de maneira incompleta, por falta de conhecimento do Espírito que respondeu. Sim, pode ter havido no caso um prejuízo real, mas o Espírito não quis passar por haver desviado alguma coisa. Um objeto só pode ser substituído por outro idêntico, da mesma forma e do mesmo valor. Assim, se um Espírito tivesse a possibilidade de substituir um objeto tirado, não haveria razão para o tirar, pois poderia dar o que serve de substituto.

  1. É possível transportar flores de outro planeta?

— Não, para mim isso não é possível.

— (A Erasto) Outros Espíritos teriam esse poder?

— Não, isso não é possível em razão das diferenças de meio ambiente.

  1. Podereis transportar flores de outro hemisfério; dos trópicos, por exemplo?

— Desde que seja da Terra, posso.

  1. Os objetos que trouxeste podereis fazê-los desaparecer e devolvê-los?

-Tão bem como os trouxe; posso devolvê-los, se quiser.

  1. A produção do fenômeno de transporte não te exige um sacrifício, não te causa dificuldades?

— Não nos causa nenhuma dificuldade quando temos a devida permissão. Poderia causar-nos muitas se quiséssemos produzi-los sem estar autorizados.

Nota de Erasto – Ele não quer dizer que é penosa embora o seja, pois é forçado a realizar uma operação por assim dizer material.

  1. Quais as dificuldades que encontras?

— Nenhuma além das más disposições fluídicas, que podem ser contrárias.

*13. Como trazes o objeto? Carregando-o com as mãos?

— Não; envolvo-o em mim mesmo.

Nota de Erasto – Ele não explica claramente a sua operação, pois na verdade não envolve o objeto na sua pessoa. Como o seu fluido pessoal pode dilatar-se, é penetrável e expansível, ele combina uma porção desse fluido com uma porção do fluido animalizado do médium, e é nessa mistura que oculta e transporta o objeto. Não é certo dizer, portanto, que o envolve nele mesmo.*

*14. Transportarias com mesma facilidade um objeto mais pesado: de cinquenta quilos, por exemplo?

— O peso nada é para nós. Trago flores porque elas podem ser mais agradáveis que um objeto volumoso.*

*Nota de Erasto – É certo. Ele pode transportar cem ou duzentos quilos de objetos, porque a gravidade que existe para vós não existe para ele. Mas neste caso também ele não percebe o que se passa. A massa de fluidos combinados é proporcional à massa de objetos. Numa palavra: a força deve estar na proporção da resistência. Assim, se o Espírito só transporta uma flor ou um objeto leve, é frequentemente por não encontrar no médium ou nele mesmo os elementos necessários para um maior esforço.*

*15. Alguns casos de desaparecimento de objetos, por motivo ignorado, serão devidos aos Espíritos?

— Isso acontece com frequência, muito mais frequentemente do que pensais, e poderia ser remediado pedindo-se ao Espírito a devolução do objeto.*

*Nota de Erasto – É verdade, mas às vezes o que foi levado, levado está. Porque esses objetos que somem da casa são quase sempre levados para muito longe. Mas, como a subtração de objetos exige quase as mesmas condições fluídicas dos transportes, só pode se dar com a ajuda de médiuns dotados de faculdades especiais. Por isso, quando alguma coisa desaparecer, é mais provável que se deva ao vosso descuido que à ação dos Espíritos.*

  1. Há efeito da ação de certos Espíritos que consideramos como fenômenos naturais?

— Vossos dias estão cheios desses fatos que não compreendeis, porque não pensastes neles, e que um pouco de reflexão vos faria ver com clareza.

*Nota de Erasto – Não se deve atribuir aos Espíritos o que e obra humana. Mas acreditai na sua influência oculta e constante, produzindo ao vosso redor mil circunstâncias, milhares de incidentes necessários à realização dos vossos atos e da vossa existência.*

 

(12) Os Espíritos estão por toda a parte, são uma das forças da Natureza em constante ação no Universo. (Ver o n.” 87 de O Livro dos Espíritos). A resposta de Erasto se refere a essa atividade natural dos espíritos, que agem também ao nosso redor e dariam condições para o cumprimento dos nossos destinos. Não se trata de nada sobrenatural ou misterioso, mas de um aspecto da Natureza que o Espiritismo vem esclarecer. (N. do T.)

 

  1. Entre os objetos usados nos transportes não há os que podem ser fabricados pelos Espíritos? Quer dizer: produzidos espontaneamente pelas modificações que eles podem provocar no fluido ou elemento universal?

— Não por mim, que não tenho permissão para isso. Só um Espírito elevado pode fazê-lo.

  1. Como introduziste outro dia esses objetos na sala que estava fechada?

— Levei-os comigo, envolvidos por assim dizer, na minha substância. Não posso dizer mais, porque isso não é explicável.

*19. Como fizeste para tornar visíveis esses objetos, que estavam invisíveis?

—Tirei a matéria que os envolvia.

Nota de Erasto – Não é a matéria propriamente dita que os envolve, mas um fluido tirado em parte do perispírito do médium e em parte (metade de cada um) do Espírito operador.*

  1. (A Erasto) – Um objeto pode ser transportado para um lugar completamente fechado; numa palavra, o Espírito pode espiritualizar um objeto material de maneira que ele possa penetrar a matéria?

— *Esta questão é complexa. O Espírito pode tornar invisíveis os objetos transportados, mas não penetráveis. Não pode desfazer a agregação da matéria, o que seria a destruição do objeto. Tornando-o invisível, pode carrega-lo quando quiser e só o largar no momento conveniente para fazê-lo aparecer. Bem diverso o que se passa com os objetos que compomos. Nestes introduzimos apenas os elementos da matéria, e como esses elementos são essencialmente penetráveis como atravessamos os corpos mais densos com a mesma facilidade dos raios solares atravessando as vidraças, podemos perfeitamente dizer que introduzimos o objeto num lugar, por mais fechado que ele esteja. Mas isto somente nesse caso.*

(13)

 Ver adiante, sobre a teoria da formação espontânea dos objetos, o cap. VIII, intitulado Laboratório do Mundo Invisível. (N. de Kardec).

 

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Ademário da Silva

27 de agosto de 2018

01:04 horas.