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Arquivo para 01/09/2018

Continuação do estudo sobre Jesus no livro Boa Nova de Humberto de Campos.

FIDELIDADE A DEUS

Livro: Boa Nova // Humberto de Campos.

Depois das primeiras prédicas de Jesus, o respeito aos trabalhos ingentes que a edificação do reino de Deus exigia dos seus discípulos, esboçou-se na fraterna comunidade um leve movimento de incompreensão.

Quê?

Pois a Boa Nova reclamaria tamanhos sacrifícios?

Então o Senhor, que sondava o íntimo de seus companheiros diletos, os reuniu, uma noite, quando a turba os deixara a sós e já algumas horas haviam passado sobre o pôr do Sol. Interrogando-os vivamente, provocou a manifestação dos seus pensamentos e dúvidas mais íntimas. Após escutar-lhes as confidências simples e sinceras, o Mestre ponderou: *Na causa de Deus, a fidelidade deve ser uma das primeiras virtudes.*

*Onde o filho e o pai que não desejam estabelecer, como ideal de união, a confiança integral e recíproca? *

Nós não podemos duvidar da fidelidade do Nosso Pai para conosco. Sua dedicação nos cerca os espíritos, desde o primeiro dia. Ainda não o conhecíamos e já ele nos amava.

E, acaso, poderemos desdenhar a possibilidade da retribuição?

Não seria justo repudiarmos o título de filhos amorosos, o fato de nos deixarmos absorver no afastamento, favorecendo a negação?

Como os discípulos o escutassem atentos, bebendo-lhe os ensinos, o Mestre acrescentou: *Tudo na vida tem o preço que lhe corresponde. Se vacilais receosos ante as bênçãos do sacrifício e as alegrias do trabalho, meditai nos tributos que a fidelidade ao mundo exige.*

*O prazer não costuma cobrar do homem um imposto alto e doloroso?*

*Quanto pagarão em flagelações íntimas, o vaidoso e o avarento?*

*Qual o preço que o mundo reclama ao gozador e ao mentiroso?*

Ao clarão alvacento da Lua, como pai bondoso rodeado de seus filhinhos, Jesus reconheceu que os discípulos, diante das suas cariciosas perguntas, haviam transformado a atitude mental, como que iluminados por súbito clarão. Timidamente, Tiago, filho de Alfeu, contou a história de um amigo que arruinara a saúde, por excessos nos prazeres condenáveis. Tadeu falou de um conhecido que, depois de ganhar grande fortuna, se havia tornado avarento e mesquinho a ponto de privar-se do necessário, para multiplicar o número de suas moedas, acabando assassinado pelos ladrões. Pedro recordou o caso de um pescador de sua intimidade, que sucumbira tragicamente, por efeito de sua desmedida ambição. Jesus, depois de ouvi-los, satisfeito, perguntou:

*Não achais enorme o tributo que o mundo exige dos que se apegam aos seus gozos e riquezas?

*Se o mundo pede tanto, por que não poderia Deus pedir-nos lealdade ao coração?*

*Trabalhamos agora pela instituição divina do seu reino na Terra; *

*Mas, desde quando estará o Pai trabalhando por nós?*

As interrogativas pairavam no espaço sem resposta dos discípulos, porque, acima de tudo, eles ouviam a que lhes dava o próprio coração. Do firmamento infinito os reflexos do luar se projetavam no lençol tranquilo do lago, dando a impressão de encantador caminho para o horizonte, aberto sobre as águas, por entre deslumbramentos de luz. Enquanto os companheiros meditavam no que dissera Jesus, Tiago se lhe dirigiu, nestes termos: Mestre, tenho um amigo, de Corazim, que vos ouviu a palavra santificante e desejava seguir-vos; porém, asseverou-me que o reino pregado pela vossa bondade está cheio de numerosos obstáculos, acrescentando que Deus deve mostrar-se a nós outros somente na vitória e na ventura. Devo confessar que hesitei ante as suas observações, mas, agora, esclarecido pelos vossos ensinamentos, melhor vos compreendo e afirmo-vos que nunca esquecerei minha fidelidade ao reino!… A voz do apóstolo, na sua confissão espontânea, se revelava tocada de entusiasmo doce e amigo e o Senhor, aproveitando a hora para a semeadura divina, exclamou bondoso: Tiago, nem todos podem compreender a verdade de uma só vez. Devemos considerar que o mundo está cheio de crentes que não entendem a proteção do céu, senão nos dias de tranquilidade e de triunfo. Nós, porém, que conhecemos a vontade suprema, temos que lhe seguir o roteiro. Não devemos pensar no Deus que concede, mas no Pai que educa; não no Deus que recompensa, sim no Pai que aperfeiçoa. Daí se segue que a nossa batalha pela redenção tem de ser perseverante e sem trégua… Nesse ínterim, todos os companheiros de apostolado, manifestando o interesse que os esclarecimentos da noite lhes causavam, se puseram a perguntar, com respeito e carinho: Mestre exclamou um deles —,

*Não seria melhor exigirmos do mundo para viver na incessante contemplação do reino?…

* Que diríamos do filho que se conservasse em perpétuo repouso, junto de seu pai que trabalha sem cessar, no labor da grande família?*

* Respondeu Jesus. Mas, de que modo se há de viver como homem e como apóstolo do reino de Deus na face deste mundo? Inquiriu Tadeu.*

*Em verdade esclareceu o Messias —, ninguém pode servir, simultaneamente, a dois senhores. Fora absurdo viver ao mesmo tempo para os prazeres condenáveis da Terra e para as virtudes sublimes do céu. O discípulo (da Boa Nova tem de servir a Deus, servindo à sua obra neste mundo. Ele sabe que se acha a laborar com muito (esforço num grande campo, propriedade de seu Pai, que o observa com carinho e atento com amor nos seus trabalhos. Imaginemos que esse campo estivesse cheio de inimigos: por toda parte, vermes asquerosos, víboras peçonhentas, tratos de terra improdutiva. E certo que as forças destruidoras reclamarão a indiferença e a submissão do filho de Deus; mas, o filho de coração fiel a seu Pai se lança ao trabalho com perseverança e boa-vontade. Entrará em luta silenciosa com o meio, sofrer-lhe-á os tormentos com heroísmo espiritual, por amor do reino que traz no coração plantará uma flor onde haja um espinho; abrirá uma senda, embora estreita, onde estejam em confusão os parasitos da Terra; cavará pacientemente, buscando as entranhas do solo, para que surja uma gota d’água onde queime um deserto. Do íntimo desse trabalhador brotará sempre um cântico de alegria, porque Deus o ama e o segue com atenção. *

*Qual a primeira qualidade a cultivar no coração perguntou um dos filhos de Zebedeu —, para que nos sintamos plenamente identificados com a grandeza espiritual da tarefa? *

*Acima de todas as coisas respondeu o Mestre é preciso ser fiel a Deus*.

A pequena assembleia parecia altamente enlevada e satisfeita; mas, André inquiriu: Mestre, nestes últimos dias, tenho-me sentido doente e receio não poder trabalhar como os demais companheiros.

*Como poderei ser fiel a Deus, estando enfermo?*

*Ouve replicou o Senhor com certa ênfase. Nos dias de calma, é fácil provar-se fidelidade e confiança. Não se prova, porém, dedicação, verdadeiramente, senão nas horas tormentosas, em que tudo parece contrariar e perecer. O enfermo tem consigo diversas possibilidades de trabalhar para Nosso Pai, com mais altas probabilidade de êxito no serviço. Tateando ou rastejando, busquemos servir ao Pai que está nos céus, porque nas suas mãos divinas vive o Universo inteiro!… André, se algum dia teus olhos se fecharem para a luz da Terra, serve a Deus com a tua palavra e com os ouvidos; se ficares mudo toma, assim mesmo, a charrua, valendo-te das tuas mãos. Ainda que ficasses privado dos olhos e da palavra, das mãos e dos pés, poderias servir a Deus com a paciência e a coragem, porque a virtude é o verbo dessa fidelidade que nos conduzirá ao amor dos amores!*

O grupo dos apóstolos calara-se, impressionado, ante aquelas recomendações. O luar esplendia sobre as águas silenciosas. *O mais leve ruído não traía o silêncio augusto da hora.* André chorava de emoção, enquanto os outros observavam a figura do Cristo, iluminada pelos clarões da Lua, deixando entrever um amoroso sorriso. *Então, todos, impulsionado por soberana força interior, disseram, quase a um só tempo: Senhor, seremos fiéis!.. * Jesus continuou a sorrir, como quem sabia a intensidade da luta a ser travada e conhecia a fragilidade das promessas humanas*. Entretanto, do coração dos apóstolos jamais se apagou a lembrança daquela noite luminosa de Cafarnaum, aureolada pelo ensinamento divino.

Humilhados e perseguidos, crucificados na dor e esfolados vivos, souberam ser fiéis, através de todas as vicissitudes da Natureza, e, transformando suas angústias e seus trabalhos num cântico de glorificação, sob a eterna inspiração do Mestre, renovaram a face do mundo.

 

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Regeneração da Humanidade… Allan Kardec.

Regeneração da Humanidade

*&*

Obras Póstumas Allan Kardec

 

Paris, 25 de abril de 1866

(Resumo das comunicações dadas pelas Senhoras M… e T… em estado sonambúlico)

Regeneração da Humanidade

 

*Precipitam-se com rapidez os acontecimentos, pelo que já não vos dizemos, como outrora: «Aproximam-se os tempos.» “Agora, dizemos: Os tempos são chegados.”*

*Não suponhais que as nossas palavras se referem a um novo dilúvio, nem a um cataclismo, nem a um revolvimento geral. Revoluções parciais do globo se hão produzido em todas as épocas e ainda se produzem, por­que decorrem da sua constituição, mas não representam os sinais dos tempos.*

*Entretanto, tudo o que está predito no Evangelho tem de cumprir-se e neste momento se cumpre, con­forme o reconhecereis mais tarde. Não tomeis, porém, os sinais anunciados, senão como figuras, que precisam ser compreendidas segundo o espírito e não segundo a letra. Todas as Escrituras encerram grandes verdades sob o véu da alegoria e, por se terem apegado à letra, é que os comentadores se transviaram. Faltou-lhes a chave para lhes compreenderem o verdadeiro sentido. Essa chave está nas descobertas da Ciência e nas leis do mundo invisível, que o Espiritismo vem revelar. Daqui em diante, com o auxílio desses novos conhecimentos, o que era obscuro se tornará claro e inteligível.*

*Tudo segue a ordem natural das coisas e as leis imutáveis de Deus não serão subvertidas. Não vereis milagres, nem prodígios, nem fatos sobrenaturais, no sentido vulgarmente dado a essas palavras.*

*Não olheis para o céu em busca dos sinais precur­sores, porquanto nenhum vereis, e os que vo-los anun­ciarem estarão a enganar-vos. Olhai em torno de vós, entre os homens: aí é que os descobrireis.*

*Não sentis que um como vento sopra sobre a Terra e agita todos os Espíritos? O mundo se acha na expectativa e como que presa de um vago pressentimento de que a tempestade se aproxima.*

*Não acrediteis, porém, no fim do mundo material. A Terra tem progredido, desde a sua transformação; tem ainda que progredir e não que ser destruída. A Humanidade, entretanto, chegou a um dos períodos de sua transformação e o mundo terreno vai elevar-se na hierarquia dos mundos.*

*O que se prepara não é, pois, o fim do mundo ma­terial, mas o fim do mundo moral. Ë o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do orgulho, do egoísmo e do fanatismo que se esboroa. Cada dia leva consigo alguns destroços. Tudo dele acabará com a geração que se vai e a geração nova erguerá o novo edifício, que as gerações seguintes consolidarão e completarão.*

*De mundo de expiação, a Terra se mudará um dia em mundo ditoso e habitá-lo será uma recompensa, em vez de ser uma punição. O reinado do bem sucederá ao reinado do mal.*

*Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso se faz que somente a povoem Espíritos bons encarnados e desencarnados, que unicamente ao bem aspirem. Como já chegou esse tempo, uma grande emigração neste mo­mento se opera entre os que a habitam. Os que praticam o mal pelo mal, alheios ao sentimento do bem, dela se verão excluídos, porque lhe acarretariam novamente per­turbações e confusões que constituiriam obstáculo ao progresso. Irão expiar o seu endurecimento em mundos inferiores, aos quais levarão os conhecimentos que adqui­riram, tendo por missão fazê-los adiantar-se. Substitui-los-ão na Terra Espíritos melhores que farão reinem entre si a justiça, a paz, a fraternidade.*

A Terra, dissemo-lo, não será transformada por um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. *A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança na ordem natu­ral das coisas.* Tudo, pois, exteriormente, se passará como de costume, com uma única diferença, embora capital: a de que uma parte dos Espíritos que nela encarnavam não mais encarnarão. Em cada criança que nasça, em lugar de um Espírito atrasado e propenso ao mal, encarnará um Espírito mais adiantado e propenso ao bem. Trata-se, portanto, muito menos de uma nova geração corporal, do que de uma nova geração de Espí­ritos. *Assim, desapontados ficarão os que contem que a transformação resulte de efeitos sobrenaturais e ma­ravilhosos.*

A época atual é a da transição; os elementos das duas gerações se confundem. Colocados no ponto inter­médio, assistia à partida de uma e à chegada da outra, e cada uma já se assinala no mundo pelos caracteres que lhe são próprios.

*As duas gerações que sucedem uma à outra têm idéias e modos de ver inteiramente opostos. Pela natu­reza das disposições morais, porém, sobretudo pelas dis­posições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir à qual das duas pertence cada indivíduo.*

*Tendo de fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma inteligência e uma razão, em geral, precoces, juntas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Não se com­porá tão-só de Espíritos eminentemente superiores, mas de Espíritos que, já tendo progredido, estão predispostos a assimilar as ideias progressistas e aptos a secundar o movimento regenerador.

O que, ao contrário, distingue os Espíritos atrasa­dos é, primeiramente, a revolta contra Deus, pela nega­ção da Providência e de qualquer poder acima da Huma­nidade; depois, pela propensão instintiva para as paixões degradantes, para os sentimentos antifraternais do orgu­lho, do ódio, do ciúme, da cupidez, enfim, a predominân­cia de apego a tudo o que é material.*

*Desses vícios é que a Terra tem de ser expurgada pelo afastamento dos que recalcitram em emendar-se, visto que são incompatíveis com o reino da fraternidade e os homens de bem sofreriam sempre com o contacto dessas criaturas. Livre deles a Terra, os outros cami­nharão desembaraçadamente para o futuro melhor, que lhes está reservado neste mundo, em recompensa de seus esforços e da sua perseverança, enquanto uma depura­ção ainda mais completa não lhes abre o pórtico dos mundos superiores.*

*Com referência a essa emigração de Espíritos, nin­guém pretenda que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e relegados para mundos infe­riores.* Muitos, ao contrário, aí hão de voltar, porque muitos cederão ao império das circunstâncias e do exem­plo; neles, a casca está mais estragada do que o cerne. Uma vez subtraidos à influência da matéria e dos pre­juízos do mundo corporal, eles, em sua maioria, verão as coisas de maneira inteiramente diversa da que as viam quando vivos, conforme os numerosos casos que já tendes apreciado. Para isso, terão a ajudá-los os Espíritos bons, que por eles se interessam e que se esforçam por esclarecê-los e por lhes mostrar que errado era o caminho que trilhavam. Pelas vossas preces e exor­tações, podeis contribuir muito para que se melhorem, porque há perpétua solidariedade entre os mortos e os vivos.

*Aqueles, conseguintemente, poderão voltar e se sen­tirão felizes, porque isso lhes será uma recompensa. Que importa o que tenham sido e feito, se animados de melhores sentimentos se encontram? Longe de se mos­trarem hostis à sociedade, serão seus auxiliares úteis, porqüanto pertencerão à geração nova.*

*Não haverá, pois, exclusão definitiva, senão dos Espíritos substancialmente rebeldes, daqueles que o or­gulho e o egoísmo, mais do que a ignorância, tornaram surdos aos apelos do bem e da razão.* Esses mesmos, porém, não estarão votados a perene inferioridade. Dia virá em que repudiarão o passado e abrirão os olhos para a luz.

*Assim, orai por esses endurecidos, a fim de que se emendem enquanto ainda é tempo, visto que se aproxima o dia da expiação.*

*Infelizmente, a maioria, desconhecendo a voz de Deus, persistirá na sua cegueira e a resistência que virá a opor mascarará, por meio de terríveis lutas, o fim do reinado dos que a constituem. Desvairados, correrão à sua própria perda; provocarão destruições que darão origem a um sem-número de flagelos e de calamidades, de sorte que, sem o quererem, apressarão o advento da era de renovação.*

*E, como se não se operasse com bastante rapidez a destruição, os suicídios se multiplicarão em propor­ções inauditas, até entre as crianças. A loucura jamais terá atingido tão grande quantidade de homens que, antes mesmo de morrerem, estarão riscados do número dos vivos. São esses os verdadeiros sinais dos tempos e tudo isso se cumprirá pelo encadeamento das circunstâncias, como já o dissemos, sem que haja a mais ligeira derrogação das leis da Natureza.*

*Contudo, através da escura nuvem que vos envolve e em cujo seio ronca a tempestade, já podeis ver des­pontando os primeiros raios da era nova. A fraternidade lança seus fundamentos em todos os pontos do globo e os povos estendem uns aos outros as mãos; a barbárie se familiariza no contacto com a civilização; os precon­ceitos de raças e de seitas, que causaram o derrama­mento de ondas de sangue, se vão extinguindo; o fana­tismo, a intolerância perdem terreno, ao passo que a liberdade de consciência se introduz nos costumes e se torna um direito. Por toda parte fermentam as idéias; percebe-se o mal e experimentam-se remédios para de­belá-lo, mas muitos caminham sem bússola e se perdem em utopias. O mundo se acha empenhado num imenso trabalho de gestação que já dura há um século; nesse trabalho, ainda confuso, nota-se, todavia, que predomina a tendência para determinado fim: o da unidade e da uniformidade, que predispõem à confraternização.*

*Também aí tendes sinais dos tempos.* Mas, enquanto que os outros são os das agonias do passado, estes últimos são os primeiros vagidos da criança que nasce, os pre­cursores da aurora que o próximo século verá despontar, pois que então a geração nova estará em toda a sua pujança. Tanto a fisionomia do século dezenove difere da do décimo oitavo, sob certos pontos de vista, quanto a do vigésimo diferirá da do século dezenove, sob outros pontos de vista.

*A fé inata será um dos caracteres distintivos da nova geração, não a fé exclusiva e cega que divide os homens, mas a fé raciocinada, que esclarece e fortifica, que os une e confunde num sentimento comum de amor a Deus e ao próximo. Com a geração que se extingue desaparecerão os últimos vestígios da incredulidade e do fanatismo, igualmente contrários ao progresso moral e social.*

*O Espiritismo é a senda que conduz à renovação, porque destrói os dois maiores obstáculos que se opõem a essa renovação: a incredulidade e o fanatismo; porque faculta uma fé sólida e esclarecida; desenvolve todos os sentimentos e todas as idéias que correspondem aos modos de ver da nova geração, pelo que, no coração dos representantes desta, ele se achará inato e em estado de intuição. Assim, pois, a era nova vê-lo-á engrande­cer-se e prosperar pela força mesma das coisas. Tor­nar-se-á a base de todas as crenças, o ponto de apoio de todas as instituições.*

Mas, daqui até lá, que de lutas terá ainda de sus­tentar contra os seus dois maiores inimigos: a incre­dulidade e o fanatismo que — coisa singular! — se dão as mãos para abatê-lo. Ë que os dois lhe pressentem o futuro e, em conseqüência, a ruína de ambos. Essa a razão por que o temem; já o vêem erguendo, sobre os destroços do velho mundo egoísta, a bandeira em torno da qual se reunirão todos os povos. Na divina máxima:

Fora da caridade não há salvação, eles lêem a sua pró­pria condenação, porqüanto essa máxima é o símbolo da nova aliança fraternal proclamada pelo Cristo. Ela se lhes apresenta como as palavras fatais do festim de Baltazar. Entretanto, deveriam bendizer essa máxima, porqüanto os defende de todas as represálias da parte dos que os perseguem. Tal, porém, não se dá: uma força cega os impele a rejeitar a única coisa capaz de salvá-los.

Que poderão contra o ascendente da opinião que os repudia? *O Espiritismo sairá triunfante da luta, ficai certos, porqüanto ele está nas leis da Natureza, não podendo, por isso mesmo, perecer. Observai a multipli­cidade de meios por que a idéia se espalha e penetra em toda parte; crede que esses meios não são fortuitos, mas providenciais. O que, à primeira vista, devera ser-lhe prejudicial é exatamente o que lhe auxilia a pro­pagação.*

Dentro em breve, surgirão campeões que em voz alta se proclamarão tais, entre os de maior consideração e mais acreditados, os quais, com a autoridade de seus nomes e de seus exemplos o apoiarão, impondo silêncio aos que o detratem, pois ninguém ousará tratá-los de loucos. *Esses homens o estudam em silêncio e apare­cerão quando for chegado o momento oportuno. Até lá, bom é se conservem afastados.*

*Dentro em pouco, também vereis as artes se acer­carem dele, como de uma mina riquíssima, e traduzirem os pensamentos e os horizontes que ele patenteia, por meio da pintura, da música, da poesia e da literatura. Já se vos disse que haverá um dia a arte espírita, como houve a arte pagã e a arte cristã. Ë uma grande ver­dade, pois os maiores gênios se inspirarão nele. Em breve, vereis os primeiros esboços da arte espírita, que mais tarde ocupará o lugar que lhe compete.*

*Espíritas, o futuro é vosso e de todos os homens de coração e devotados. Não vos assustem os obstáculos, porqüanto nenhum há que possa embaraçar os desígnios da Providência. Trabalhai sem descanso e agradecei a Deus o ter-vos colocado na vanguarda da nova falange. Ê um posto de honra que vós mesmos solicitastes e do qual é preciso vos mostreis dignos pela vossa coragem, pela vossa perseverança e pelo vosso devotamento. Fe­lizes dos que sucumbirem nessa luta contra a força; a vergonha, ao contrário, esperará, no mundo dos Espí­ritos, os que sucumbirem por fraqueza ou pusilanimidade.*

          As lutas, aliás, são necessárias para fortalecer a alma; o contacto com o mal faz que melhor se apreciem as vantagens do bem. Sem as lutas, que estimulam as faculdades, o Espírito se entregaria a uma despreocupa­ção funesta ao seu adiantamento. As lutas contra os elementos desenvolvem as forças físicas e a inteligência; as lutas contra o mal desenvolvem as forças morais. 76

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