Este Blog tem a finalidade de divulgar estudos e aprendizados espíritas, tendo por prisma de visão Allan Kardec.

O ventre materno é a nave que nos conduz até o mundo das formas...

O ventre materno é a nave que nos conduz até o mundo das formas...

Travessia de Março

Sob as cortinas do passado mais recente e a partir de um desprendimento pelo sono, em terras Cabo Verdianas, descubro o mote da minha presença no mundo. Sentado sobre uma pedra construída pela natureza, observo a paisagem insólita e solitária de um terreno de formação rochosa, como se fora o resultado de erupções vulcânicas. E me parecia estar no meio do mundo cercado por meus pensamentos, tentando desvendar por que estava ali naquele ambiente desconhecido e saudoso, porquanto fazia, no meu entendimento algum tempo que não o via. Tal era a impressão que tinha e sentia quando, por certo espírito amigo e interessado em meu aprendizado, surge em minha retaguarda, sem identificar-se e me mostra uma fotografia, na qual via um grupo de pessoas do meu conhecimento atual, algumas das quais já desencarnaram. Um avô africano emprestado, o Sr. Eduardo, a Lídia sua neta, Natália também neta, a Nadir que fora agregada ao grupo por injunções do seu destino e o Sr. Pedro Eduardo.

Aquela foto parecia impregnada de mecanismos que escapam ao meu entendimento. A imagem gravada no papel tomou vida e eu mesmo passei a acompanhar aquele cortejo de pessoas negras e brancas, caminhando como se não soubessem para onde.

Quanto caminhávamos, por que seguia eu de perto o grupo de andantes, o terreno não se modificava. Eu enxergava as pessoas, umas no tempo mesmo em que estiveram por aqui, outras em tempos infantis que não convivi, e aquilo me causava espécie. Por quê? Pra quê? E eu o que tinha a ver espiritualmente com o grupo.

Na verdade estava fazendo por indução do amigo espiritual uma regressão de memória. Tentando me fazer entender que aquele quadro que eu vira, estava num tempo antes da minha reencarnação, posto que a Nadir, a mais nova do grupo é neste tempo de hoje de mais idade que eu. Pessoas que comigo manteriam no futuro da minha vida na Terra, relações comigo, num parentesco meio que cármico, ou melhor, espiritualmente injuncional.

Injuncional porquanto os laços consangüíneos não eram trilhas comuns. O amigo me exercitava na verdade pra que eu entendesse a própria viajem interdimensional. Levado pelas mãos da intuição deixei a caneta correr pelos arredores da imortalidade, e qual não foi minha surpresa ao constatar que fazia parte daquele enredo, ali nos Arraiais do Cabo Verde, país com o qual sinto imensa afinidade, foi então que consegui assistir parte dessa trajetória. Para entender mais tarde que outros desprendimentos desse gênero se somariam a este mostrando-me o por quê faço parte desse grupo que é muito maior do que entrevisto no sonho. Delineando para eu detalhes desse histórico de vida que me são muito importantes, no mínimo para evitar erros crassos como outrora.

Não… Não a viaje não era um cavalo alazão que eu pudesse cavalgar e fazê-lo trotar pelos campos da imaginação. O que sabia e pressentia lá no fundo do meu coração é que haviam me dado por instância da Excelsa Misericórdia, uma empreitada, ou melhor, tinha que fazer uma viajem, uma travessia. Superar horizontes interdimensionais, pois não havia montanhas, nem mesmo pequenos montes que significassem obstáculos de monta, de difícil escalada. Era  só amar ao próximo, independente de quem fosse esse próximo. Essa viajem era numa planície, ao meu modo ode ver e interpretar. Numa planície do universo, onde versos horizontais significavam planos e estadias, oportunidade e alegrias, tarefas árduas e aprendizados sérios e necessários.

Planos de saudades daqueles que iam ficar na retaguarda, guardando posição, esperança e até vibrando em orações, constituindo proteções, mantendo vigília na ponte da mediunidade, pra que não houvesse surpresas, quando eu retornasse pelos sensores da afinidade. Na fronteira entre os dois mundos, material e espiritual, percebia já que aquela saudade nascente era anestesia e ungüento, me preparava para o novo momento, ao mesmo tempo que me apagava o dia errático, desligava-me a consciência subjetiva, de tal modo que a sensibilidade não sofresse solução de continuidade. E fazia tanto tempo que não batia com os costados neste mundo, que quase não me lembrava da tramitação toda.

O que eu sabia lá no fundo do meu coração é que mudaria de era, de período ou tempo, medidas convencionais humanas. Viria quando a “anestesia” da saudade no auge dos seus efeitos me pusesse no colo da transitoriedade, ou simplesmente o mundo das formas, que é mesmo passageiro numa moldura inconstante que quase configura o fictício. Ah! Eu sabia também que iria encontrar gente amiga e hospitaleira, assim como também alguns desafetos, resultado das relações desarmonizadas do passado. Engraçado falar de passado estando no presente. Com certeza eu seria um feto depois um corpo. A bem da verdade eu não seria um corpo, por que sou alma imortal, sou da vida a própria palma. Bem, pra ficar melhor explicado, serei o foco de inteligência, trazendo no peito um baú de sentimentos, ideais, sonhos e planos, com certeza serei um espírito reencarnado. Se fosse só espírito no mundo dos pensamentos teria estranha equação a resolver. Mas. Deus em sua Bondosa Sabedoria me deu vestimenta de recursos irrestritos, que Kardec chamou de perispírito, pra que na “argila” eu pudesse aparecer, me apresentar, manifestar-me em forma material, readquirir outra feição de humano em busca de trabalho e pra desenvolver outros planos. É…,  o cavalo alazão fictício do começo desta narrativa, deixei-o perto de uma cisterna pra que aguardasse o meu retorno e servisse à outros erráticos necessitados, pois eu precisava trocar de montaria, viajar e atracar em outro porto. Foi aí que a viajem ganhou outras paisagens. Sentei no dorso de um esperma que me ajudaria a completar a travessia. E o meu mundo amplo e irrestrito, com outra dinâmica de vida, em outra velocidade acontecimentos, que na verdade detém em seus escaninhos a história da humanidade terrena, foi se distanciando, se restringindo a minha percepção. Então me dei conta que a outra parte da viajem se daria no lindo universo genital feminino, onde eu seria um menino esperando nove meses humanos passarem pra poder me manifestar na carne.

Vislumbrei figuras num carrossel de alegria e compromisso, que tinham tudo a ver com isso, aqui na outra página da história, com certeza entre eles papai e mamãe. E enquanto viajante que não dorme pra não perder a paisagem e se mantém consciente, misturo emoções com ciência pra poder me situar no aconchego úmido e morno do regaço materno. Outra coisa que sabia lá no fundo do meu coração é que chegaria aqui nas terras de Santa Cruz e do Cruzeiro, antes do verão terminar, no mês de março, dia primeiro, até por que eu era o terceiro de uma prole que crescia e  mais dois ainda viria pra completar a família.

Há momentos nos dias de hoje que penso e repenso pra ver se me lembro se sabia, que papai nos meus quase três anos de vida humana, embora iria. Até hoje não consigo definir esse ponto.

É…, essa travessia de que nos fala o Hermínio C. Miranda em seu livro ‘Nossos filhos são espíritos’, não é uma viajem fantástica pelos passaredos da imaginação, mas uma viaje real entre o imaginário e o transitório. Os filhos que aqui chegamos, somos espíritos com personalidades já desenvolvidas, com experiências vividas, só que acondicionados pela natureza sábia em um corpo diminuto e dependente a ser amadurecido no tempo, não somos anjos ou demônios sob a regência de um Deus irado e punitivo.

E aqui condicionados por uma educação horizontal, quase que fechamos o elo com a espiritualidade adjacente. E computamos ao sobrenatural, as pretensas magias e coisas similares as coisas que se nos acontecem e não desvendamos origens e desideratos. Por que descartamos o real pelo imaginário a mediunidade que todos temos numa vertente extremamente variável fica relegada aos segundos planos da vida.

E assim como a saudade de uma vida plenamente melhor que essa que se incrusta qual pedra de diamantes nos painéis da memória, custeando lampejos nos refolhos da sensibilidade, mantendo acesa e firme e livre a ponte da mediunidade, aqui desse lado, por que não damos a devida atenção aos alertas mediúnicos, os desafetos que ficaram por lá, configuram carantonhas e stresses buscando desestabilizar o recém chegado, processo esse que pode avançar por muito tempo dentro da vida humana, constituindo desarranjos demorados pela simples desatenção aos efeitos da imortalidade, que quando se manifestam pela espontaneidade dos fenômenos parecem magias aos olhos infantis. Papai e mamãe iniciados na Doutrina, mergulhados na luta pela sobrevivência, sentinelas quase a força bruta pra defender os garrotes, faziam plantões noturnos, reuniões evangelhos para clarear o roteiro dos recém natos. Eu vou me aproximando da vida humana, a gravidez da mamãe entra em seus últimos dias, meus horizontes fluídicos já se guardando na inconsciência por obediência as leis naturais.

Minha impaciência de criatura que já não sabe mais ao certo por onde anda, desanda a placenta e derrama sua águas, pra lançar âncora nos lençóis lá de casa.

É a cidade de Queluz nas fronteiras com o Rio de Janeiro, março, dia primeiro, chorei de preguiça nos braços da parteira.

Em parágrafo anterior, quando estava sentado no dorso do esperma, não pense que estava inteiro com espírito aventureiro, viajando na cavidade vaginal da mamãe, como se fora um explorador incômodo, curioso e desavisado, a fazer turismo no seio do inusitado. Essa viaje á repetimos milhares de vezes ao longo de necessidades próprias.

Não..,, não estava ali como arqueólogo da libido a sorrir de orgasmos e espasmos, mas, em obediência e submissão mesmo as leis de natureza física e espiritual que se conjugam num imperceptível abraço desenvolvendo recursos para o nosso renascimento. É…, ali eu me sentia enquanto consciência tinha, através das sensações que exprimiam afinidades com os progenitores. É como num processo de sono fisiológico, que vamos perdendo a consciência gradualmente, mas, que pelo automatismo metabólico não damos atenção devida e perdemos fenômenos encantadores.

Assim também quando da reencarnação perdemos gradualmente a consciência subjetiva, e vamos adentrando ilucidamente um outro ambiente, percebendo imagens e movimentos translúcidos e transpostos que chamamos de sonho. O espírito num processo de reencarnação passa por situações similares as do sono, só que muito mais intensas e duradouras no prisma do tempo. Intermeando dois ambientes, o espírito através dos sensores perispirituais capta os espasmos eletro magnéticos de cada esfera da vida sem no entanto administrar com plenitude a própria consciência.

Para mim na medida em que a gravidez da mamãe avança minha consciência subjetiva descansa sob o teto universal da Lei do esquecimento. E como se viajasse na razão inversa do tempo, enquanto espírito imortal, o reencarnante apaga o real e acende a saudade.

Foi então que numa manhã de quinta-feira, dia primeiro de março de 1951, mais precisamente às 11h00min horas, seis anos após a primeira grande guerra mundial, nasci, ou melhor, reencarnei neste país encantador, que cresce e caminha sob a proteção de Ismael, e sob o amparo de muitos amigos espirituais aqui estou à 57 anos humanos. Mergulhado nessa Doutrina de Luz, aprendendo, vivendo e convivendo com pessoas de todos os matizes espirituais, amores amigos, afetos e afins. Viajando nas páginas dos livros dos grandes pensadores. Entre eles: Rousseau, Pestalozzi, Kardec, Léon Denis, José H. Pires, Hermínio C. Miranda entre outros. Agradecer com certeza a tantos e por tanto pelo que me ajudaram e instruíram.

Ademário –

SOESFALUZCA  27/fevereiro/2008

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