Este Blog tem a finalidade de divulgar estudos e aprendizados espíritas, tendo por prisma de visão Allan Kardec.

O inusitado mediúnico

A mediunidade é um manto de luz, instrumento de relações imortais nos caminhos do tempo. Na esteira mediúnica não se encaixa os lamentos da saudade. Se faz porta de acesso aos ancestrais desde ás épocas mais primevas. Permite ao filho abandonado pelos pais, pela sentença da morte da matéria, o reencontro no apronto da sensibilidade. Por suas vias de mão dupla, pois que tanto o espírito pode vir até o médium quanto este até o espírito, pelos caminhos do sono, que se abrem em sonhos que nos projetam ás outras dimensões da matéria. Pelas escadas do desprendimento ou suspensão perispiritual, assim como também pelas esplanadas da intuição…

Como disse o poeta: “ela é uma luz que chega de repente/ Vem no meio da noite ou no claro do dia/ Chega a nos angustiar” (João Nogueira)

Foi assim que depois de muito tempo eu a compreendi. Lá pelos idos dos anos setenta, então adolescente, o equilíbrio ausente, a cabeça vazia e coração ardente. Gostava da noite, principalmente do silêncio da madrugada. Lua cheia, o céu coalhado de estrelas me provocavam um encanto até então desconhecido por mim. Me parecia mágico, místico, talvez até misterioso, não sei ao certo. Só sei que me inebriava! Era como caminhar sob lençóis de sombras encantadas.

Na adolescência fazemos um esforço terrível para apagar os fluídos da infância. E a mente e o psicológico entram em choque, a primeira pensa com dificuldades pela própria inexperiência, o segundo não quer perder o predomínio e muito menos o fascínio exercido até então. Diante do inesperado o medo é o freio de mão, a frente dos desafios um acelerador de coragens inauditas despenca da inexperiência como se fora uma loucura, onde nem se para pra pensar, joga-se simplesmente no despenhadeiro de novidades e fantasias. É como se o egoísmo infantil reencarnasse em nós e passassêmos a demarcar território por qualquer tostão ou guria, passos de dança ou poesia; a canção mais bonita é do momento, não só seu compasso descompassado nas medidas da harmonia que pede a melodia por ser… então… A gíria, modismos e toda gama de dialetos e sotaques infanto juvenis…

Mas, a mediunidade parece morar nas sombras da noite, dos segredos, das lendas, nos contos vividos pelos avoengos, nas histórias contadas pelos pais…

Numa dessas madrugadas encantadoras minha mediunidade teria sua virgindade selada nas paredes do susto e do inusitado para eu… Caminhava pelas ruas da minha Vila, minha Vila Industrial, aproximadamente 01:30 horas, sem saber que pisava sobre os gravetos de uma armadilha preparada por espíritos bulhentos, desavisados, que por excesso de comodismo, ainda me esperavam no meu quarto de repouso, se é que adolescente repousa, pois que ele não dorme, desencarna momentaneamente…

Era uma sexta – feira, parece enredo de terror, mas não é. É tão real que se sente na pele, nos nervos, nos músculos, no pensamento, que diga-se de passagem embota, embola e costumeiramente foge do encéfalo, escorrega por entre neurônios e cai no abismo mental… que no meu caso é tão profundo… Ah! E o coração então, parece atropelar-se a si mesmo, na velocidade em que se pulsa… Cheguei em casa, escovei os dentes, tomei um copo com água e me deitei. E como dizia mamãe quando nos ensinava na infância a oração noturna; que quando não se reza pra dormir, “a gente deita como um burro e levanta como um cavalo”. E lá estava eu na estrebaria da despreocupação, mergulhando nas sombras da irresponsabilidade.

Diria um desavisado, mas também vinte anos de idade, é assim mesmo, o garoto tem muito que aprender, só não imaginavam quanto. E a imortalidade que parece um rabo de cometa a seguir nossos passos pela vida humana, nos traz surpresas inenarráveis, visitas ás vezes indigestas, de um passado longíquo, mas dormente em o nosso inconsciente. É as Leis de Deus estão na consciência e a mediunidade é uma das consequências… e uma das maiores necessidades que temos…

Quinze minutos de sono se tanto e um redemoinho de sombras passou a girar em torno de mim. Sombras tão escuras que a luz para atravessá-la teria que ser em forma de picareta, pondo-a ao chão, se quisesse tomar seu espaço. Ao mesmo tempo que essa sombra negra girava, uma força apoiada em não sei o quê, se exercia sobre meu corpo, não me permitindo mover um dedo se quer. E estranhamente naquele momento pra mim, não perdi a consciência, então via a sombra girando, a força forçando, imagino meus olhos arregalados. Era com se tivessem críado um escuro só pra eu, pra me intimidar, dominar talvez, não sei, ao menos aquela época.

A minha força em oposição parecia à de uma criança contra um brutamontes. Não sei quanto tempo durou aquela agonia. Eu não sabia o que era nem quem era. Só sei que o tempo parecia não querer terminar. Mesmo não conseguindo falar e nem raciocinar, tentava me defender fazendo força em direção oposta. A consciência lúcida e oprimida busca sem sucesso os meios com se defender da invasão hostil e non grata, por quanto descobriria mais tarde que um espírito bom não causa dissabores de nenhuma ordem…

E pra mal dos meus pecados eu deitara com os braços cruzados sobre o peito, o que me desamparava no sentido de opor-me aquela situação, até que num ato de desespero acompanhado de um grito roufenho, arrancado das entranhas da sobrevivência, consegui me safar daquela situação, não sem antes machucar meu braço com a própria unha. E um estado de nervos tomou conta de todo meu ser, e um choro convulsivo brotou simultaneamente, e eu me sentia todo confuso, sem auto domínio, e aquela emoção descendo em lágrimas pelas paredes do medo, como se fora um olho d’água em estado de rebeldia pelo incomodo causado por tão estranha visita nos escaninhos da consciência.

Mas, a misericórdia do Pai nem tarda muito menos falta. Meu grito ecoou pela madrugada alcançando as paralelas do leste e oeste, despertando mamãe, meus irmãos e minha irmã, e todos acorrem ao quarto em eu que jazia todo aparvalhado e destemperado. Meu irmão mais velho, Romualdo, já deficiente visual, desce do beliche onde dormia, nos braços da psicofonia. Papai, desencarnado desde 1954, assenhoria-se dos atributos medianímicos do mano e se manifesta no meio dessa minha madrugada, dizendo simplesmente: “A criança é médium, precisa de orientação”. Claro que me pacifica e se vai. Deixando-nos com as tarefas que eram nossas. O difícil foi eu me reorganizar após o incidente medianímico, gastei algumas horas dessa noite indormida pelos atropelos ocorridos. A influência do espírito em questão, era de tal maneira contundente, que seus fluidos impregnados em minha atmosfera sensitiva, demora pra se diluir, mesmo sendo ele levado pelos protetores amigos, entre eles,… papai…

Mais tarde, já no dia seguinte, meus irmão mais velhos entre preocupados pelo inusitado e sorridentes, em face da minha virgindade sensitiva ter voados pelos ares, comentavam sobre o ocorrido sem que eu me desse conta das reais mudanças que ocorreriam dali em diante. Mamãe empunhando sua autoridade vivencial, escudada em suas experiências mediúnicas, lança mão do Livro dos Médiuns, meu ilustre desconhecido, colocando-o em minhas mãos e diz o seguinte, complementando as palavras de papai: “Seu pai estudava muito, lia em todo tempo disponível, e é disso que você precisa”. Ah! Ele também doutrinava espíritos desarmonizados afirmara ela…

Abrem-se assim as portas dos meus compromissos mediúnicos. E é claro, a minha aceitação resvala pelas valas da minha inconsequência vigente, primeiro até que eu entenda o por quê de tudo aquilo, assim sem combinação, de inopino, invasão desmedida e sem graça, começava então á pensar, no que fazer, o que daria chance de me livrar daquilo, afinal de contas não era justo, muito menos honesto, refrear meus impulsos, cercear meus passos, por causa de espíritos que eu nem sabia quem eram, e por quê eram néeee….

Mas o tempo é o grande agente de erosão que a tudo modifica e ás vezes até transforma. Eu lia o Livro dos Médiuns assim como quem nada quer descobrir, e a falta de intimidade com obra dessa envergadura, o meu conhecimento que não passava de garatujas escolares em nada me ajudavam…

Começava a descobrir pelo escalpelo de arranhões e situações ás mais estranhas que me ocorriam então, de onde vinham tão confusa influência, e por que justamente comigo tinha que ser assim. Ah!, me rebelei, claudiquei, resisti, chorei, e como um louco consciente até sorri.

Minha namorada Cristina, minha musa mulata, meu vínculo empregatício, meus amigos, meu lazer, o samba que até hoje me emociona quando composto com valor e sentido; os livros da literatura humana que já me encantavam também. O movimento sindicalista, meus pendores anarquistas, minha liderança política, tudo isso teria que ser emoldurado de outro modo, alguns até abandonados para que eu pudesse recriar minha ambiência sensorial. Ah! Doeu a separação. Continuei com o que me valeria pelos sertões da imortalidade, minha mulher hoje, a Cristina, a música apurei e diversifiquei o gosto, a literatura de aprendizado essencialmente espírita… e a mediunidade…

Compreendi, após demorados estudos as ocorrências mediúnicas da minha infância. Um espírito que marcava, á minha revelia, encontro comigo do lado de fora de casa, toda madrugada, quando desprendido pelo sono. Ele parecia ter um prazer imenso em assustar e me fazer correr de volta pro corpo (só que eu não sabia que era assim), desesperado e sem nenhuma proteção á vista… Eu punha o corpo pra dormir e sonhava que estava caindo, sendo perseguido, dormindo em caixões de defunto, me imaginando como poderia respirar debaixo da terra e, uma agonia sem medida tomava conta de todo meu ser. Até que chegava aquele momento em que o corpo exige a secreção urinária. Lá em casa nesse período não tínhamos banheiro interno, e desavisado eu saía pela porta da cozinha, durante o sono, ou seja, desprendido, de olhos arregalados na escuridão no fundo do quintal. O engraçado é que eu sabia que o espírito estava ali no corredor protegido, ou melhor, escondido atrás da parede, sempre com a mesma roupa, um chapéu preto, um sobretudo da mesma cor, que aberto me deixava ver o colarinho e parte da fralda da camisa que era branca.

Eu começava urinar e como de todas ás vezes ele surgia. Hoje eu sei, suas vibrações magnéticas me paralisavam quase totalmente, me obrigando á um esforço sobre infantil, pra voltar pra dentro de casa e fechar a porta e o ferrolho. Ele se punha a empurrar a porta pra que não a fechasse e eu fazia força contrária já nos braços do desespero… Vocês podem deduzir onde ia parar o xixi,… eu sei,… o que eu podia fazer,… hahahahahahaaaa!!! Mamãe tentava todas as broncas, mas o que poderia eu explicar e como, sem saber por que acontecia…

Durante a noite, enquanto não dormia, parecia ocorrer o mais estranho teatro de mamolengos em cima do guarda roupa. Lamparina apagada e eu enxergando figuras em movimentos no escuro, pra variar feias e sem sentido. Quando o cansaço psicológico chegava, surgia uma bola de luz vermelha que também magnetizava minha visão. Que depois mamãe contou que quando papai desencarnou, seu corpo foi levado para ser velado em casa. A causa da morte do seu corpo foi um enfarto fulminante, mas ele estava sobre o piso de uma lage no segundo andar de um edifício em construção, caiu… sofrendo fraturas generalizadas. E o destempero que a morte causa, por que não avisa e nem envia e-mail, as pessoas desequilibram e se desnorteiam. Eu fui encontrado horas depois da chegada do seu corpo, debaixo da mesa onde o mesmo estava, tentando em meus quase três anos de idade, entender aquela gota de sangue que saía da fresta da mesa e caía bem perto dos meus pés… A danada da bola fez estágio em meu arcabouço psicológico até os meus doze anos de idade…

Mamãe me contou que quase fui com ele, amanheci estático, sem gosto de vida, não queria me alimentar, sorrir ou conversar, foi preciso ajuda espiritual pra que eu esquecesse a ocorrência… Tornou-se a minha saudade inexplicável, a minha tristeza no olhar… Até um pedaço da vida, depois tomei conta das minhas emoções. Também levei correção de troco. Papai lá pelos meados de oitenta e cinco surge na tela de minha sensibilidade e diz de um modo insofismável: “Eu não quero sentimentalismo, sentimento sim, mas, raciocinado, lógico e inteligente e principalmente produtivo”.

E o tempo foi se despejando pela ampulheta e eu fui aprendendo a doutrina, frequentando a Soc. Espírita Caminho de Damasco, no Parque São Lucas, onde Sr. Julio Laurentino me ensinou a aprender Espiritismo. Ficamos juntos na mesma casa de 1973 até 1986…

E veio o C. E. Jesus, Maria e José, onde formamos o Grupo musical ‘Brilhe a Vossa Luz’, onde Neusa Maria dos Santos era musicista de plantão, com seu violão gostoso de se ouvir somado a sua voz mais suas composições melódicas. Eu, um simples letrista de ocasião. Tinha também as vozes da Sueli, da Sonía e do Zedequias, da Edina e da Fernandinha, do Marcílio, do Carmelino e tantos outros…

Desde de essa primeira ocorrência na pauta da minha lucidez, a mediunidade tem sido a companheira mais amiga, mais amante, corretiva e protetora. Nas mãos da mediunidade a intuição, a presença de espíritos amigos e os necessitados, a meditação, irmã e amiga do raciocínio e do pensamento mais profundo.

Eu que no começo não queria partilhar meu pensamento com ninguém, hoje dou graças á Deus pela parceria.É como se tivesse que dividir a minha cabeça com outro pensador. Hoje depois de descobrir os mecanismos mais imediatos da mediunidade, fico muito feliz em poder participar dessas relações extra sensoriais. E como disse o poeta: “O meu lugar tem seus mitos e os seres de luz/

É cercado de luto e suor/

O meu lugar é feito de alegria e prazer/

Tem motivos pra gente viver” (Arlindo Cruz)

E ter reencarnado neste Brasil que é um lençol de luz cultural e religiosa, ter laços africanos, ter nascido lá em Queluz, no mês de março de 1951, num dia 1º, ás 11 horas da manhã, ser filho do seu Francisco Ademário da Silva e de dona Maria Benedita da Silva…

Ter como avós Ademário Ananias da Silva e a vó Teresa; bisavós Ananias Lúcio e Lodobina da Silva, a mãe Bia e a minha queridíssima Trisavó Úrsula, a minha mãe Úrsula, a minha amada vó africana…

E hoje a minha família constituída; minha preta Cristina, minhas filhas Janaína, Daniela e Vanessa e o meu filho Eduardo Ademário, minha neta Mylena e o meu neto Matheus Ademário, somando-se os genros Edivaldo e o Gledson, são meus amigos, meus afetos e meus amores…

Ademário da Silva Soc. Esp. Facho de Luz e Caridade 07/02/2009

SOESFALUZCA

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