Este Blog tem a finalidade de divulgar estudos e aprendizados espíritas, tendo por prisma de visão Allan Kardec.

Afinidades costuradas pelo tempo...

Afinidades costuradas pelo tempo...

Até um dia mamãe!

Agora eu sei, a dor me põe distante dos teus olhos.

Barreira que transcende aos meus sentidos, tão presos na masmorra da matéria.

Então, tão séria, a dor partiu o cordão dos nossos sentimentos.

Querendo meter medo na atitude daquele que fica na fronteira do silêncio.

Mal sabe ela, a dor, que eu tenho consciência do que não morre!

De nada, adianta calar a tua voz. Esconder atrás das nuvens o teu semblante-espelho, privar dos meus sentidos a tua imagem.

Que eu tiro do Evangelho, força e coragem.

Enfrento o desespero em silêncio.

Não digo pra solidão tudo que penso, pra não ter que, enfraquecido, me defender dos meus próprios deslizes.

E guardo a certeza nesta crença, que faz da consciência, um livro aberto.

E por mais perto da dor eu me veja, olho as estrelas no azul do firmamento, que ilumina a solidão.

E qual dádiva que consola, mola mestra que sustenta a vida, a imortalidade, sustenta a saudade nos braços da esperança de que, tudo que se harmoniza na mesma luta, se reencontra um dia na mesma emoção.

Agradeço-te mamãe, a travessia desde o ventre até a alegria de ser.

Agradeço-te corretivos e admoestações, conselhos e instruções.

Que me fizeram ver da vida suas claridades.

Agradeço-te teres sido mulher, amante, mamãe, amiga e verdade!

A tua ternura, simplicidade e meiguice são valores no espelho da minha saudade, que guardo nas paredes da memória da alma.

E te prometo, apesar da dor que separa e judia.

Não ficar triste em demasia.

Pra não perder o equilíbrio e o senso.

E não queimar no que penso, a imagem que guardo de ti.

A avó e a neta em seus papéis afetivos

Minha mãe, minha amiga...

Até um dia mamãe!

Desencarnada aos quatorze dias do mês de outubro do ano de dois mil e quatro, às dezoito horas de uma quinta-feira, no Hospital do Servido Público Estadual de São Paulo.Frente-à-frente a vida e a despedida, seus olhos físicos arregalados, buscando os meus, que pelo meu lado não conseguia desvendar o segredo de quem parte e de quem fica. O amor silencia pra que possamos observar nos escaninhos da natureza as mãos divinas mudando destinos. Mamãe me olhava me pedindo respostas e proteção, carinho a atenção, e eu impotente, mas ciente de que assim tinha que ser. Um momento único e indecifrável ainda aos nossos conhecimentos. Ointenta e cinco anos de vida física, num processo de anonimato e doação. Filhos despencando do seu útero em busca de oportunidades. Claudete,Iracegildo, Ana Maria, Ademário, Marcelo e Ezequiel.

E naquele dia 14 de outubro de 2004, ela como que se nos aguarda, eu, o Ezequiel e a Miúcha, minha filha, para um último reencontro-despedida. As forças da natureza como que expulsando o espírito da matéria, e ela entre séria e feliz, por que com dois filhos e uma neta ao seu lado. Pouco falava, mas muito nos observava, perquirindo talvez se realmente teríamos experiência suficiente pra seguir nossos destinos, agora sem mais sua presença.

Ela terminara de almoçar, como se espírito que se despede da matéria, disso precisasse. Num átimo de segundo as circunstâncias se modificam; ela é surpreendida por estranho engasgo, seguro seu braço, seus olhos se arregalam e me falam em silêncio, não sei o que penso. Os médicos aturdidos quais formigas que perderam as asas, têm as idéias em brasa, reviram possibilidades inúteis de encontro com o inevitável. A sentença da vida se faz ouvir como ensinou Jesus, “…quem tem ouvidos que ouça”…

À minha filha,…

ao meu irmão por coincidência o caçula, explicar o quê?

O inesperado nunca é uma surpresa quando a consciência é espírita.

A emoção interdita o raciocínio mas o tirocínio não nos deixa ir ao rés do chão.

Não sei se por coincidência ou planos acertados, neste ano de 2004, papai completa cinquenta de retorno ao mundo espiritual. No dia dez do mesmo mês, seria seu aniversário terreno. Mamãe fecha os olhos da matéria às dezoito horas desse dia quatorze. Parentes, amigos e vizinhos; espíritos amigos e afins se reunem no ambiente de despedidas para as orações de rompimento e desenlace. Cada um traz na própria face seus sentimentos, dúvidas e interrogações. Seu corpo frágil abatido já pela algidez da friagem cadavérica, é bem a última expressão da sua presença no mundo das formas. Emoções brotam de falas e rostos, gostos e desgostos vem a tona, como soma das relações que cada manteve com ela.

Agora sua alma em liberdade, ainda que aturdida pela pertubação natural desse momento, vai se chamar Maria Benedita da Saudade.

Eu me guardo na concha das minhas emoções. A mediunidade se me surge qual sentinela das minhas obrigações, me mostrando, me falando, me afagando e me amparando e me mantendo simultâneamente desperto.

O que dói quando um ente querido se vai, realmente é a separação. Tudo se separa, se ausenta, se esconde de tal forma que, quem fica não tem dúvidas. Terá que se valer, se puder, de memórias, lembranças, que pela própria falta de hábito do ser humano, que teimosamente ainda acredita que a vida é uma só, vivem nas páginas do esquecimento, da falta de atenção, ás vezes até do descaso, da desimportância. A grande maioria dos que ficam, ficam sem quase nada, sempre por não saber com que ficar. Agora mamãe é um espírito desencarnado, não desperta mais em nossas manhãs.

O espírita precisa dilatar sua consciência de imortalidade, para que a saudade não seja mais um vazio, como um dia sem sol, entristecido pelo inverno de relações calcadas pelo egoísmo e vaidades, que depois descaracterizam a memória. É melhor que não seja assim, pois que essas saudades e lembranças povoam-nos os sonhos e desprendimentos, de uma forma estranha e ás vezes até ininteligível.

E como é bom e saudável a saudade sadia; a lembrança que um dia, uma cançao e uma poesia, uma preocupação, um sorriso, uma correção surgem dos seus lábios qual alfarrábio de orientação e até um aviso: meu filho, Jesus é o Caminho e a nossa real necessidade, o resto são sombras de tentações e vaidades, que podem por a perder a jornada. Fotos, comemorações e aniversários, na verdade um relicários de tentativas e omissões, misturadas as querências e obrigações, que hoje a saudade nos grita: esquece o que não fizestes e fazes o que ainda podes por aqueles com quem estás. Hoje só posso ver e sentir a mamãe pelos escaninhos da intuição e até da inspiração que me colhe de inopino, e me faz derramar as lágrimas de menino adulto, jamais como luto, muito menos como culto, mas com deveres insepultos de uma relação que eu pretendo jamais termine por imposições dimensionais. Amanhã num mês qualquer do calendário humano, sem planos ou agenda a gente vai se rever e molhar de emoção a saudade, recorrer a memória do tempo e se reconhecer enquanto espíritos afins e numa oração na qual o amor nos dá o tom, agradecer ao Criador por todos os caminhos trilhados, por todas as oportunidades, por experiências adquiridas, por todas as vidas e vielas, por templos e capelas, por todos os corpos e mortes, pelas dores e escolas enquanto molas de ascenção. Por rôtas indumentárias, razões fragmentárias, sentimentos e emoções enquanto forças necessárias aos nossos passos pelos caminhos da imortalidade.

Até um dia mamãe!

Sei que hoje ainda és minha saudade

Enquanto o papai minha afinidade

E o mano uma amizade descoberta

Pela porta da mediunidade

Que Deus nos ampare os sentimentos

Em todos os momentos que a lembrança

Não seja uma criança desavisada e teimosa

Mas uma paisagem de realizações vividas e

Muitas outras plantadas para o futuro!

Não é a vida que se finda, nem a saudade que impõe silêncio

São diferenças e dinâmicas existenciais que parecem criar um abismo

O culto católico, hoje meio espiritólico de impactar a morte

Já não define de ninguém a própria sorte

E muito menos me mete medo

Amanhã cedo é outro dia, um minuto imortal

O ponteiro mentiroso do relógio humano se mexe

E a gente nem ve o tempo passar e até duvida

Será que o tempo vira, que a velhice é verdade,

As medidas humanas transitórias e as vezes inverídicas

Não nos proíbem as claridades infindas

A vida, a despeito de convenções orgulhosamente infantis

É infinitamente eterna

Não se prende nas cavernas da omissão

E nem mesmo nas casernas da pretensão

É de Deus a oração universal!

Ademário da Silva. 28/set./2007 – S.E Facho de Luz e Caridade.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: