Lúmen – artigo – I
Revista Espírita – 1866 – Página 96
NOTÍCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LÚMEN
Relato de outra Terra
Por Camille Flammarion, professor de astronomia, ligado ao observatório de Paris.
Este não é um livro, mas um artigo que poderia fazer um livro interessante e, sobretudo instrutivo, porque seus dados são fornecidos pela ciência positiva, e tratados com a clareza e a elegância que o jovem sábio traz em todos os seus escritos. O Sr. Camille Flammarion é conhecido de todos os nossos leitores por sua excelente obra sobre a Pluralidade dos mundos habitados, e pelos artigos científicos que publica no Siècle. Aquele do qual vamos dar conta foi publicado na Revue du XÍXo século, de 1o de fevereiro de 1867 (1-(1) Cada número forma um volume de 160 páginas grandes in-8. Preço 2 fr. Paris, livraria internacional, 15, bulevard Montmartre, e 18, avenida Montaigne, palais Pompéien.).
O autor supõe uma conversa entre um indivíduo vivo chamado Sitiens, e o Espírito de um de seus amigos chamado Lúmen, que lhe descreve seus últimos pensamentos terrestres, as primeiras sensações da vida espiritual, e as que acompanham o fenômeno da separação. Esse quadro é de uma conformidade perfeita com o que os Espíritos nos ensinaram a esse respeito; é o Espiritismo mais exato, menos a palavra que não é pronunciada. Será julgado pelas citações seguintes:
“A primeira sensação de identidade que se sente depois da morte parece aquela que se sente ao despertar durante a vida, quando, retornando pouco a pouco à consciência da manhã, se está ainda atravessado pelas visões da noite. Solicitado pelo futuro e pelo passado, o Espírito procura, ao mesmo tempo, retomar plena posse de si mesmo e agarrar as impressões fugidias do sonho desvanecido, que passam ainda nele com o seu cortejo de quadros e de acontecimentos. Por vezes, absorvido por essa retrospecção de um sonho cativante, sente sob a pálpebra que se fecha as urdiduras da visão se renovarem, e o espetáculo continuar; ao mesmo tempo, ele cai no sonho e numa espécie de sonolência. Assim balança a nossa faculdade pensante ao sair desta vida, entra uma realidade que ela ainda não compreende, e um sonho que não está completamente desaparecido.”
Nota. Nesta situação do Espírito, não há nada de espantoso em que alguns não creiam estar mortos.
“A morte não existe. O fato que designais sob este nome, a separação do corpo e da alma, não se efetua, verdadeiramente dizendo, sob uma forma material comparável às separações químicas dos elementos dissociados que se observam no mundo físico. Não se percebe mais dessa separação definitiva, que nos parece tão cruel do que a criança recém-nascida não se percebe de seu nascimento; somos nascidos na vida futura como o fomos na vida terrestre. Unicamente, não estando mais envolvida das faixas corpóreas que a revestem neste mundo, adquire mais prontamente a noção de seu estado e de sua personalidade. Esta faculdade de percepção varia, no entanto, de uma alma a outra. Há as que, durante a vida do corpo, não se elevaram jamais para o céu e jamais se sentiram ansiosas em penetrar as leis da criação. Aquelas, ainda dominadas pelos apetites corpóreos, permanecem por muito tempo no estado de perturbação inconsciente. Há outras delas, felizmente, que, desde esta vida, voam sobre suas aspirações aladas para os cimos do belo eterno; aquelas vêem chegar com calma e serenidade o instante da separação; elas sabem que o progresso é a lei da existência e que entrarão, no além, numa vida superior àquela sua daqui; seguem passo a passo a letargia que prepara o seu coração, que quando o último batimento, lento e insensível, o detém em seu curso, elas já estão acima de seu corpo, do qual observaram o adormecimento, e, livrando-se dos laços magnéticos, elas se sentem rapidamente levadas, por uma força desconhecida, para o ponto da criação onde suas aspirações, seus sentimentos, suas esperanças, as atraem.
“Os anos, os dias e as horas são constituídos pelos movimentos da Terra. Fora destes movimentos o tempo terrestre não existe mais no espaço; é, pois, absolutamente impossível ter noção desse tempo.”
Nota. – Isto é rigorosamente verdadeiro; também quando os Espíritos querem nos especificar uma duração inteligível para nós, são obrigados a se identificarem de novo com os hábitos terrestres, de se refazerem homens, por assim dizer, a fim de se servir dos mesmos pontos de comparação. Logo depois de sua libertação, o Espírito de Lúmen é transportado com a rapidez do pensamento para o grupo de mundos compondo o sistema de estrelas designado em astronomia sob o nome de Capellaou a Chèvre. A teoria que dá da visão da alma é notável.
“A visão de minha alma era de um poder incomparavelmente superior àquela dos olhos do organismo terrestre que eu vinha de deixar; e, observação surpreendente, seu poder me parecia submetido à vontade. Que me baste vos fazer pressentir que, em lugar de ver simplesmente as estrelas no céu, como as vedes na Terra, eu distinguia claramente os mundos que gravitam em torno; quando desejava não mais ver a estrela, a fim de não estar mais torturado pelo exame desses mundos, ela desaparecia de minha visão, e me deixava em excelentes condições para observar um desses mundos. Além disto, quando minha visão se concentrava sobre um mundo particular, chegava a distinguires detalhes de sua superfície, os continentes e os mares, as nuvens e os rios. Por uma intensidade particular de concentração na visão da minha alma, chegava a ver o objeto sobre o qual ela se concentrava, como, por exemplo, uma cidade, um campo, os edifícios, as ruas, as casas, as árvores, as veredas; reconhecia mesmo os habitantes e seguia as pessoas nas ruas e nas habitações. Bastava-me para isto limitar meu pensamento ao quarteirão, à casa, ou ao indivíduo que eu queria observar. No mundo a margem do qual acabava de chegar, os seres, não encarnados num envoltório grosseiro como o deste mundo, mas, livres e dotados de faculdades de percepções elevada a um eminente grau de poder, podem perceber distintamente os detalhes que, nessa distância, estariam absolutamente ocultos às organizações terrestres.
SITIENS. É que se servem para isso de instrumentos superiores aos nossos telescópios?
LUMEN. Se, por ser menos rebelde à admissão desta maravilhosa faculdade, vos é mais fácil concebê-los munidos de instrumentos, vós o podeis por teoria. Mas devo vos advertir que essas espécies de instrumentos não são exteriores a esses seres, e que pertencem ao próprio organismo da visão. É bem entendido que essa construção ótica e esse poder de visão são naturais nesses mundos, e não sobrenaturais. “Pensai um pouco nos insetos que gozam da propriedade de encurtar ou de alongar seus olhos, como os tubos de uma luneta, de inchar ou achatar seu cristalino para dele fazer uma lupa de diferentes graus, ou ainda de concentrar ao mesmo foco uma multidão de olhos apontados como tantos microscópios para agarrar o infinitamente pequeno, e podereis mais legitimamente admitir a faculdade desses seres ultra terrestres.”
O mundo em que se encontra Lúmen está a uma distância tal da Terra que a luz não chega de um ao outro senão ao cabo de setenta e dois anos.
Ora, nascido em 1793 e morto em 1864, na sua chagada em Capela, donde leva a sua visão sobre Paris, Lúmen não reconhece mais a Paris que vem de deixar. Os raios luminosos partidos da Terra, não chegando a Capela senão depois de setenta e dois anos, lhe chegava a imagem do que ali se passou em 1793.
Ali está a parte realmente científica do relato; todas as dificuldades nele são resolvidas da maneira mais lógica.
Os dados, admitidos em teoria pela ciência, ali são demonstrados pela experiência; mas esta experiência não podendo ser feita diretamente pelos homens, o autor supõe um Espírito que dá conta dessas sensações, e colocado em condições de poder estabelecer uma comparação entre a Terra e o mundo que habita.
A idéia é engenhosa e nova. É a primeira vez que o Espiritismo verdadeiro e sério, embora sob o anonimato, é associado à ciência positiva, e isto por um homem capaz de apreciar um e o outro, e de compreender o traço de união que deverá religá-los um dia. Esse trabalho, ao qual reconhecemos, sem restrição uma importância capital, nos parece ser um daqueles que os Espíritos nos anunciaram como devendo marcar o presente ano. Analisaremos esta segunda parte num próximo artigo.
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LÚMEN
POR CAMILLE FLAMMARION.
Revista Espírita – 1867 – pág. 155
(2- artigo. Ver o número de março, página 93.)
Deixamos Lúmen em Capela, ocupado em considerar a Terra que acabava de deixar. Esse mundo, estando situado a 170 trilhões, 392 bilhões de léguas da Terra, e a luz percorrendo 70.000 léguas por segundo, esta não pode chegar de um ao outro senão em 71 anos, 8 meses e 24 dias, seja em torno de 72 anos. Disto resulta que o raio luminoso que leva a impressão da imagem da Terra não chega aos habitantes de Capela senão ao cabo de 72 anos. Lúmen, tendo morrido em 1864, e levando sua visão sobre Paris, ele viu tal qual era 72 anos antes, quer dizer, em 93, ano de seu nascimento.
De início, ficou muito surpreso de encontrá-la muito diferente daquilo que tinha visto, de ver as ruelas, os conventos, os jardins, os campos em lugar das avenidas, novos bulevares, estações de estrada de ferro, etc. Ele viu a praça da Concórdia ocupada por uma multidão imensa, efoitestemunhaoculardoacontecimentode21 de janeiro. A teoria da luz lhe deu a chave desse estranho fenômeno. Eis a solução de algumas das dificuldades que levanta. (1-1) Segundo o cálculo, e em razão da distância do Sol, que é de 38 milhões 230 mil léguas, de 4 quilômetros, a luz desse astro nos alcança em 8 minutos 13 segundos. Disto resulta que um fenômeno que se passou em sua superfície não nos aparecerá senão 8 m. 13 s. mais tarde, e que se o fenômeno fosse instantâneo já não existiria mais quando o víssemos. A distância da Lua não sendo senão de 85 mil léguas, sua luz nos alcança quase em um segundo, e um quarto, as perturbações que poderiam ali se produzimos apareceriam, conseqüentemente, pouca coisa depois do momento em que ocorressem. Se Lúmen se encontrasse na Lua, teria visto a Paris de 1864 não de 93; (se tivesse estado num mundo duas vezes mais distante que Capela, teria visto a Regência.)
Sitiens. Mas então, se o passado pode se confundir assim no presente; se a realidade e a visão se casam; se os personagens mortos há muito tempo podem ainda ser vistos atuando na cena; se as construções novas e as metamorfoses de uma cidade como Paris podem desaparecer e deixar ver em seu lugar a cidade de outrora; se, enfim, o presente pode se desvanecer para a ressurreição do passado, sobre que certeza podemos doravante confiar? Em que se tornam a ciência e a observação? Em que se tornam as deduções e as teorias? Sobre que estão fundados nossos conhecimentos que nos parecem os mais sólidos? E, se estas coisas são verdadeiras, não deveremos doravante duvidar de tudo ou crer em tudo?
Lúmen. Essas considerações e muitas outras, meu amigo, me absorveram e atormentaram; mas elas não impediram de ser a realidade que eu observava. Quando tive a certeza de que tínhamos presente sob os olhos o ano de 1793, pensei em seguida que a própria ciência, em lugar de combater essa realidade (porque duas verdades não podem ser opostas uma à outra), devia disso me dar a explicação. Interroguei, pois, a física, e esperei a sua resposta. (Segue a demonstração científica do fenômeno.)
Sitiens. Assim, o raio luminoso é como um correio que nos traz as novidades do estado da região que o envia, e que, se gasta setenta e dois anos para nos alcançar, nos dá o estado desse país no momento de sua partida, quer dizer, perto de 72 anos antes do momento em que nos chega.
Lúmen. Adivinhastes o mistério. Para falar mais exatamente ainda, o raio luminoso seria um correio que nos traria não as novidades escritas, mas a fotografia, ou mais rigorosamente ainda, o próprio aspecto da região de onde ele saiu. Quando, pois, examinamos num telescópio a superfície de um astro, não vemos ainda essa superfície tal qual ela é no próprio momento em que a observamos, mas tal qual ela era no momento em que a luz que nos chega foi emitida por essa superfície.
Sitiens. De sorte que se uma estrela cuja luz leva, suponho, dez anos para nos chegar, fosse subitamente aniquilada hoje, nós a veríamos ainda durante dez anos, uma vez que o seu último raio não nos chegaria senão em dez anos.
Lúmen. É precisamente isso. Há, pois, aí uma surpreendente transformação do passado ao presente. Para o astro observado, é o passado, já desaparecido; para o observador é o presente, o atual. O passado do astro é, rigorosamente e positivamente, o presente do observador.
Lúmen vê a si mesmo mais tarde, criança, com a idade de seis anos, brincando e disputando com uma grupo de outras crianças na praça do Panthéon.
Sitiens. Eu vos confesso que me parece impossível que se possa se ver assim a si mesmo. Não podeis ser duas pessoas. Uma vez que tínheis 72 anos quando morrestes, vosso estado de infância era passado, desapareceu, desvaneceu-se há muito tempo. Não podíeis ver uma coisa que não mais existe. Não pode se ver em duplo, criança e velho.
Lúmen. Não refletis bastante, meu amigo. Compreendestes bem o fato geral para admiti-lo; mas não observastes suficientemente que este último fato particular entra absolutamente no primeiro. Admitis que o aspecto da Terra emprega 72 anos para vir a mim, não é ? que os acontecimentos não me alcançam senão nesse intervalo de tempo depois de sua atualidade? Pois bem! Uma vez que eu vejo esse grupo de crianças, e que fazia então parte desse grupo, por que quereis que não me veja tão bem quanto vejo ou outros?
Sitiens. Mas não estais mais nesse grupo?
Lúmen. Ainda uma vez, esse próprio grupo não existe mais agora, mas eu o vejo tal quanto existia no instante em que partiu o raio luminoso que me chega hoje, e, uma vez que distingo as quinze ou dezoito crianças que o componham, não há razão para que a criança, que era eu, desapareça, porque sou eu que a olha. Outros observadores a veriam em companhia de seus companheiros. Porque quereis que haja exceção quando sou eu que olho? Eu os vejo todos, e me vejo com eles.
Lúmen passa em revista a série dos principais acontecimentos políticos, ocorridos desde 1793 até 1864, onde vê a si mesmo num leito de morte.
Sitiens. É que esses acontecimentos passaram rapidamente sob vossos olhares?
Lúmen. Eu não saberia apreciara medida do tempo; mas todo esse panorama retrospectivo sucede certamente em menos de um dia… em algumas horas talvez.
Sitiens. Então não compreendo mais. Se 72 anos terrestres passaram sob vossos olhos, eles teriam de colocar exatamente 72 anos para vos aparecer, e não em algumas horas. Se o ano de 1793 vos aparece somente em 1864, o ano de 1864, em retorno, não deveria conseqüentemente vos aparecer senão em 1936.
Lúmen. Vossa objeção é fundada, e me prova que compreendestes bem a teoria do fato. Também vou vos explicar como não me foi necessário esperar 72 novos anos para rever a minha vida, e como, sob o impulso de uma força inconsciente, efetivamente eu a revi em menos de um dia.
Continuando a seguir a minha existência, cheguei aos últimos anos notáveis pela transformação radical que Paris sofreu; vi meus últimos amigos e vós mesmo; minha família e meu círculo de conhecimentos; e, enfim, o momento chegou em que me vi deitar em meu leito de morte e onde eu assisti à minha última cena. É vos dizer que eu tinha retornado sobre a Terra.
Atraído pela contemplação que a absorvia, minha alma tinha depressa esquecido a montanha dos velhos e Capela. Como se sente, às vezes, em sonho, ela voava para o objetivo de seus olhares. Disso não me apercebi de início, tanto a estranha visão cativava todas as minhas faculdades. Não posso vos dizer nem por qual lei, nem por qual força as almas podem se transportar tão rapidamente de um lugar a um outro; mas a verdade é que eu tinha retornado à Terra, em menos de um dia, e penetrei no quarto no próprio momento de meu enterro.
Uma vez que nessa viagem de retorno eu ia adiante dos raios luminosos, eu diminuía sem cessar a distância que me separava da Terra, a luz tinha cada vez menos caminho a percorrer, ela imitava assim a sucessão dos acontecimentos. No meio do caminho, me chegando somente de 36 anos, não me mostrava mais a Terra de 72 anos antes, mas de 36. As três quartas partes do caminho, os aspectos não tinham mais do que um atraso de 18 anos. A metade do último quarto me chegando somente nove anos depois de ter se passado, e assim em continuação; de sorte que a série inteira de minha existência se encontra condensada em menos de um dia em conseqüência do retorno rápido de minha alma, indo adiante dos raios luminosos.
Quando Lúmen chegou à Capela, viu um grupo de velhos ocupados em considerar a Terra, e dissertando sobre o acontecimento de 93; um deles disse aos seus companheiros:
“De joelhos! meus irmãos; peçamos a indulgência ao Deus universal. Esse mundo, essa nação, essa cidade está manchada de um grande crime; a cabeça de um rei inocente acaba de tombar.” Eu me aproximei do ancião, disse Lúmen, e lhe pedi para me fazer um relato de suas observações.
“Aprendi que, pela intuição da qual estão dotados os Espíritos do grau daqueles que habitam esse mundo, e pela faculdade íntima da percepção que receberam em partilha, possuem uma espécie de relação magnética com as estrelas vizinhas. Essas estrelas são em número de doze ou quinze; são as mais próximas; fora dessa região, a percepção se torna confusa. Nosso Sol é uma dessas estrelas vizinhas.
(1-(1) 170 trilhões, 392 milhões de léguas! Pela distância que nos separa, as estrelas vizinhas pode-se julgar a extensão ocupada pelo conjunto daquelas que nos parecem, no entanto, à visão tão perto uma das outras, sem contar o número infinitamente maior daquelas que não são perceptíveis senão com a ajuda do telescópio, e que não são, elas mesmas, senão uma infinita fração daquelas que, perdidas nas profundezas do infinito, escapam a todos os nossos meios de investigação. Considerando-se que cada estrela é um sol, centro de um turbilhão planetário, compreender-se-á que o nosso próprio turbilhão não é senão um ponto nessa imensidade. Que é, pois, nosso globo de 3.000 léguas de diâmetro entre esses bilhões de mundos? Que são seus habitantes que acreditaram por muito tempo o seu pequeno mundo o ponto central do universo, e que se acreditaram a si próprios como os únicos seres vivos da criação, concentrando só neles as preocupações e a solicitude do Eterno, e crendo de boa fé que o espetáculo dos céus não era feito senão para recreara sua visão? Todo esse sistema egoísta e mesquinho, que fez durante muitos séculos o fundamento da fé religiosa, desmoronou-se diante das descobertas de Galileu.).
Eles conhecem, pois, vagamente, mas sensivelmente, o estado das Humanidades que habitam os planetas dependentes desse Sol, e seu grau relativo de elevação intelectual e moral.
“Além disto, quando uma grande perturbação atravessa uma dessas Humanidades, seja na ordem física, seja na ordem moral, dela sofrem uma espécie de comoção íntima, como se vê uma corda vibrante fazer entrar em vibração uma outra corda situada à distância.
“Há um ano (o ano desse mundo é igual a dez dos nossos), estavam se sentindo atraídos por uma emoção particular para o planeta terrestre; e os observadores tinham seguido com interesse e inquietação a marcha desse mundo.”
Estar-se-ia em erro se se induzisse do que precede, que os habitantes das diferentes esferas levem, do ponto onde estão, um olhar investigador sobre o que se passa nos outros mundos, e que os acontecimentos que nestes se cumprem passem sob seus olhos como num campo de uma luneta. Aliás, cada mundo tem as suas preocupações especiais que cativam a atenção de seus habitantes, segundo suas próprias necessidades, seus costumes todos diferentes, e seu grau de adiantamento.
Quando os Espíritos encarnados em um planeta têm motivos pessoais para se interessarem com o que se passa num outro mundo, ou com alguns daqueles que o habita, sua alma para lá se transporta, como o fez a de Lúmen, no estado de desligamento, e então retornam, momentaneamente, por assim dizer, habitantes espirituais desse mundo, ou bem nele se encarnam em missão. Eis, pelo menos o que resulta do ensino dos Espíritos.
Esta última parte do relato de Lúmen, portanto, carece de exatidão, mas não é preciso perder de vista que esta história não é senão uma hipótese destinada a tornar mais acessível à inteligência, e de alguma sorte palpável pela colocação em ação, da demonstração de uma teoria científica, assim como o fizemos observar em nosso artigo precedente.
Chamamos a atenção sobre o parágrafo acima onde está dito que: “As grandes perturbações físicas e morais de um mundo produzem sobre os mundos vizinhos uma espécie de comoção íntima, como uma corda vibrante faz vibrar uma outra corda colocada à distância.” O autor, que em matéria de ciência não fala levianamente, enuncia aí um princípio que poderá bem um dia ser convertido em lei. Já a ciência admite como resultado da observação, a ação recíproca material dos astros. Se, como se começa supor, essa ação, aumentada pelo fato de certas circunstâncias, pode ocasionar perturbações e cataclismos, não seria nada impossível que essas mesmas perturbações tivessem seu contragolpe. Até o presente a ciência não considerou senão o princípio material; mas levando-se em conta o princípio espiritual como elemento ativo do universo, e pensando-se que esse princípio também é todo geral, e todo também essencial quanto o princípio material, concebe-se que uma grande efervescência desse elemento e as modificações que ele sofre sobre um ponto dado possam ter sua reação, em conseqüência da correlação necessária que existe entre a matéria e o espírito. Certamente, há nesta idéia o germe de um princípio fecundo e de um estudo sério para o qual o Espiritismo abre o caminho.
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“A morte não existe. O fato que designais sob este nome, a separação do corpo e da alma, não se efetua, verdadeiramente dizendo, sob uma forma material comparável às separações químicas dos elementos dissociados que se observam no mundo físico. Não se percebe mais dessa separação definitiva, que nos parece tão cruel do que a criança recém-nascida não se percebe de seu nascimento; somos nascidos na vida futura como o fomos na vida terrestre.”
– Camille Flammarion
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